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Maria Célia Moura Santos

Seminário de 8 e 9 de Abril 2005


Textos de apoio para o Seminário de 2004

 

OS MUSEUS E A BUSCA DE NOVOS HORIZONTES
Texto apresentado na II Semana de Museus da Universidade de São Paulo, realizado no período de 30 de agosto a 03 de setembro de 1999

PROCESSO MUSEOLÓGICO: critérios de exclusão
IVFórum de Profissionais de Reservas Técnicas de Museus, Salvador-BA, Novembro de 2002, organizado pelos Conselho Federal de Museologia – COFEM e Conselho Regional de Museologia, 1a. Região – COREM-BA.

 

Outros textos

Reflexões museológicas: caminhos de vida

Maria Célia Teixeira Moura Santos

Cadernos de Sociomuseologia Nº18- ULHT, Lisboa,2002

 

Apresentação

 

Capitulo I

Entrevista ao Prof. Mário de Souza Chagas 

Entrevista concedida em 1998

Capitulo II

MUSEU: centro de educação comunitária ou contribuição ao ensino formal

Texto apresentado no I Simpósio sobre Museologia da Universidade Federal de Minas Gerais, realizado em Belo Horizonte, no período de 19 a 21 de março de 1997, sob o patrocínio do Museu de Ciências Morfológicas

Capitulo III

Processos museolõgicos: critérios de exclusão

Texto apresentado na II Semana de Museus da Universidade de São Paulo, realizado no período de 30 de Agosto a 03 de Setembro de 1999

Capitulo IV

Reflexões sobre a nova museologia

Texto preparado para seminário no Curso de Especialização em Museologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo-MAE/USP, realizado em  setembro de 1999

Capitulo V

MUSEU: centro de educação comunitária ou contribuição ao ensino formal

Texto apresentado no I Simpósio sobre Museologia da Universidade Federal de Minas Gerais, realizado em Belo Horizonte, no período de 19 a 21 de março de 1997, sob o patrocínio do Museu de Ciências Morfológicas.

Capitulo VI

A Formação do Museólogo e o seu Campo de Atuação

Texto apresentado no XV Congresso Brasileiro da Associação Brasileira de Museologia, realizado no Rio de Janeiro, no período de 22 a 26 de novembro de 1999.

 

 

 

 

APRESENTAÇÃO

 

Acredito que o processo de construção do conhecimento é o resultado de um amadurecimento constante, incentivado pelos caminhos da vida, profissional, afetivo, e social, que nos impulsionam a pensar e a  refletir sobre as nossas ações, nos diversos contextos em que estamos atuando, nos conduzindo a novas produções, e, consequentemente, à busca de novos rumos. 

 

“Reflexões Museológicas: caminhos de vida” é, pois,  mais uma etapa do meu caminhar, nos últimos três anos, resultado dos diversos projetos, nos quais tenho atuado, e da minha participação em congressos, cursos e seminários, que têm me motivado, em cada momento, a pensar a Museologia e os seus processos, e a avaliar a aplicação das ações Museológicas em diferentes contextos e em interação com os diversos segmentos da sociedade, bem como a repensar  formação do profissional museólogo e o seu campo de atuação.

 

Considero, portanto, essa minha produção como resultado da minha vivência, da experiência acumulada ao longo dos anos. Assim, fiz questão de abrir esta publicação, com a entrevista concedida ao colega Mário Chagas, para que o leitor possa, a partir das informações sobre o meu caminhar na vida profissional, compreender melhor os capítulos seguintes. Neles, poderão encontrar, talvez, alguns enfoques que podem parecer repetitivos, mas os  justifico, devido às necessidades apresentadas nos diversos contextos em que foram abordadas; por isso, julguei necessário mantê-los. 

 

A Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, por meio do Centro de Estudos de Sociomuseologia, tem aberto, nos últimos anos, espaço para publicação de vários trabalhos de minha autoria, e de outros colegas brasileiros. Acho que esta iniciativa tem permitido a divulgação dos nossos trabalho, não só em Portugal como no Brasil, estreitando os laços entre os profissionais portugueses e brasileiros, em um intercâmbio salutar e necessário ao desenvolvimento da produção do conhecimento, na Museologia, nos dois países. Com esta publicação estamos dando continuidade a esse trabalho de troca e de crescimento, e esperamos que o mesmo tenha continuidade, ao longo dos anos, com o crescimento e o aprimoramento constantes do Mestrado em Museologia da Lusófona.

 

 

                                                               Salvador-BA, Março de 2000.

 Texto apresentado no XV Congresso Brasileiro da Associação Brasileira de Museologia, realizado no Rio de Janeiro, no período de 22 a 26 de novembro de 1999.

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CAPÍTULO I

 ENTREVISTA AO PROF. MÁRIO DE SOUZA CHAGAS[1]

 

1 – Célia ( penso que você gosta de ser chamada assim), como se deu a sua aproximação com o campo de atuação da Museologia?[2]

 Gosto de ser chamada Célia. O Maria complementa, é mais profissional. Em geral, os colegas cariocas costumam chamar-me Maria Célia . A propósito, você é o carioca mais nordestino que já conheci -o Mário do repente, da prosa, do abraço por inteiro, da criatividade, da resistência.

 

A sua proposta de entrevista fez-me reler o meu memorial, escrito para o Doutorado em Educação, quando do meu exame de qualificação, do qual você possui uma cópia. Naquela oportunidade, pela primeira vez, parei para refletir sobre os caminhos percorridos. E agora Mário, você me estimula a repensar novamente as minha idas e vindas, a rica experiência de viver: profissão, emoção, amor, paixão, construção, reconstrução, decepção, tudo isso, numa imensa teia de relações, denominada vida. Acho que sou uma baiana “boa de prosa”, devo-me policiar, ser objetiva na entrevista, embora considere ser um pouco difícil, quando se tratam de Maria Célia e Mário Chagas. Vamos tentar? Falemos, portanto, do meu ingresso na Museologia:

 

Foi por acaso. Em 1970, vindo do interior para Salvador, concorri a uma vaga nos cursos de História, como primeira opção, e Ciências Sociais, em segunda opção, no vestibular da Universidade Federal da Bahia. Não fui aprovada na primeira lista. Algum tempo após fui convocada para matricular-me no Curso de Museologia, recém-criado na UFBA, para o qual não haviam sido oferecidas vagas no concurso vestibular, por não estar ainda devidamente estruturado, no momento do concurso. Compareci no dia determinado para a matrícula. Naquele dia conheci o Prof. Valentim Calderon, primeiro Coordenador do Curso e seu idealizador, e que, posteriormente, viria a ser  um grande incentivador da minha vida profissional. Ainda me lembro do seu sotaque espanhol, no momento da matrícula, explicando-me o currículo e algumas atividades a serem desenvolvidas no Curso de Museologia: “vais trabalhar com objetos antigos, estudar história, fazer muitas viagens”. Não parece premonição? Acreditei no Curso, fiz a matrícula e até hoje estou imersa, por inteiro, no Mundo da Museologia. A partir dos objetos antigos compreendi que o novo também é museável, que a História é vida, é passado e presente e as viagens, pelo País e fora dele, são uma consequência  do meu crescimento com a Museologia, resultado da porta aberta pelo Prof. Valentin Calderon. Como é grande a responsabilidade de um profissional em abrir ou fechar portas!

 

 

2 – Qual a importância e qual o papel do Prof. Valentin Calderon em sua formação profissional?

 

 

Como você já deve ter percebido na resposta anterior, o Prof. Valentin Calderon desempenhou um papel muito significativo em minha formação profissional. Destaco, não só o incentivo inicial, vindo com a criação do Curso da qual já falei, mas sobretudo, a abertura para a realização de um aprendizado constante,  na vivência do cotidiano do Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia, quando era o seu diretor, como também a participação em suas pesquisas no campo da História da Arte, com destaque para a pintura e para a talha das Igrejas de Salvador e do recôncavo baiano. Ainda como estudante, no Curso de Museologia, fiz vários trabalhos práticos no Museu de Arte Sacra, começando, assim, a profundar o meu relacionamento com o Prof. Calderon. Logo após a conclusão do Curso, fui convidada, por ele, para ensinar no Curso de Museologia, inicialmente como Professor “Colaborador”, para posteriormente,  ser contratada como Professor Auxiliar de ensino, em regime de 20h, após ter prestado concurso. Ministrava aulas em um turno e no outro trabalhava como voluntária no Museu de Arte Sacra. Devo ter atuado no Museu de Arte Sacra, como voluntária e como Professora do Curso de Museologia, com carga horária naquela instituição, durante 10 anos, aproximadamente. Ali tive a felicidade de, junto com outras duas colegas de turma, ser livre para criar, inovar, vivenciar os aspectos administrativos de um dos maiores museus da cidade do Salvador, dialogando com um diretor que confiava em profissionais recém-graduados, explorando todo o nosso potencial, com orientação segura, sem, contudo, deixar que os nossos sonhos e arroubos ferissem a imagem da instituição. Certa feita, ele passou uma semana ausente, participando de um congresso. Quando do seu retorno, havíamos realizado uma proposta de construção de um auditório e de salas para trabalhos com estudantes na área do jardim do Museu, junto a um galpão existente. Ao apresentarmos, cheias de entusiasmo, as plantas já traçadas, e as propostas para conseguirmos a verba que iria viabilizar o empreendimento, ele nos olhou e, com seu sotaque espanhol, enfatizou: “Esqueceram que esta área é tombada pelo IPHAN e que não se pode construir aqui? Ainda hoje guardo aquela proposta comigo.

 

Absorvido em suas pesquisas e com a administração do Museu, o Professor Valentin Calderon não tinha muito tempo para dedicar às atividades acadêmicas do Curso de Museologia, solicitando sempre a minha colaboração. Foi assim que iniciei o meu relacionamento com os diversos setores da Reitoria da UFBA e comecei as minhas incursões no Mundo Acadêmico do Curso de  Museologia.

 

Por intermédio do Professor Calderon, foi firmado um convênio entre a Universidade Federal da Bahia e o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, com o objetivo de enviar museólogos para realizar estágio de aperfeiçoamento em museus americanos, com prioridade aos Museus de Ciência e Tecnologia, pois pretendia-se instalar em Salvador um museu dessa categoria. Fui indicada, juntamente com outra colega, para realizar o referido estágio, tendo permanecido, nos Estados Unidos, durante três meses, observando o funcionamento dos seguintes Museus:

 

 

 

·          The Franklin Institute–Philadelphia-PA;

·          The Carnegie Museum of Natural History-Pistsburg-PA;

·          The Henry Francis du Pont Winterthur Museum - Delaware.

·          The Museum of History and Tecnology-Smithsonian Institution-Washington, D.C.

 

Ao retornar, elaboramos relatório das atividades desenvolvidas, trouxemos vasta documentação em slides, que passou a ser utilizada como material didático no Curso de Museologia. Posteriormente, participei, como representante do Curso de Museologia da comissão para implantação do Museu de Ciência e Tecnologia, na Cidade do Salvador. 

 

Com o Prof. Calderon, vivenciei a relação entre teoria e prática, o que me proporcionou o suporte necessário para, mais tarde, poder separar e ao mesmo tempo integrar, Museologia e Museu e Museu e Museologia. Do tempo convivido com o Professor Calderon, guardo a confiança, a amizade, o respeito, o apoio e o incentivo à minha capacitação profissional. Tempo de Crescimento!

 

 

3 – Nos Anos 70 o Curso de Museologia da UFBA passou por uma crise bastante séria. Quais foram os motivos dessa crise e como ela foi superada?

 

 

Quando assumi pela primeira vez a coordenação do Curso de Museologia, este não era reconhecido pelo Ministério da Educação. Preparei o processo de reconhecimento, preenchendo inúmeros formulários, um para cada professor dos diversos Departamentos que ministravam aulas para o Curso de Museologia, revendo a carga horária e reestruturando o currículo, pois este não estava de acordo com o parecer do MEC. Foi uma batalha de idas e vindas que culminou com a vinda da comissão designada pelo Conselho Federal de Educação e com o reconhecimento do Curso. Vibrei muito,   essa realização e com a sensação de missão cumprida, apesar de todas as dificuldades encontradas. Houve dias de eu sair chorando da Superintendência Acadêmica, tais eram as dificuldades e a burocracia.

 

O Curso, reconhecido, teve  melhora da credibilidade na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e na Reitoria. Era hora de continuar lutando, aumentar o corpo docente. Éramos três professores ministrando as disciplinas específicas. O que acontece nesse momento? A Superintendência Acadêmica realiza uma pesquisa e diz ter chegado à conclusão que não havia mercado de trabalho para  museólogo em Salvador e resolve retirar o Curso do concurso vestibular. Era inacreditável!... Tínhamos que lutar. Com a participação dos estudantes, fizemos uma campanha pela imprensa, mobilizamos políticos, houve pronunciamento na Câmara Federal, conseguimos adesões de intelectuais e de outros segmentos da sociedade. Vitória!... O Curso volta ao vestibular, e, desse movimento, que foi capaz de mobilizar estudantes e profissionais já graduados, surgiu a Associação de Museólogos da Bahia. Momento de crescimento e de grande euforia.

 

 

4 – Você trabalhou no Departamento de Educação do Museu de Arte Sacra da Bahia e desenvolveu, posteriormente, dissertação de Mestrado sobre o tema Museu, Escola e Comunidade-uma integração necessária. De onde vem seu interesse pelo processo de educação em museus?

 

 

Acho que vem da minha época de “normalista”- assim eram chamadas as alunas do Curso Normal, (atual curso de Magistério de 1o  Grau). Lembra-se da música interpretada por  Nelson Gonçalves?

 

 

Vestida de azul e Branco, trazendo um sorriso franco, num rostinho encantador, minha normalista linda, rapidamente conquista, meu coração sofredor”...

 

Assim, o interesse pela educação veio bem antes do museu e da museologia. Ser professora foi realmente uma vocação. Ainda hoje, trabalhar em sala de aula é uma terapia. Esclareço que  sala de aula, hoje, para mim, tem um conceito muito amplo.

 

Ainda como estudante, no Curso de Museologia, preocupei-me bastante com a utilização de nossos museus pelos diversos segmentos da sociedade. Considerava um desperdício a aplicação de verbas em instituições que não passavam de depósitos de objetos. Tinha um ideal: "Tornar os Museus úteis à sociedade". E visualizava a viabilização desse ideal por meio da relação museu-escola. Desde o meu ingresso no Curso de Museologia, como professora, dediquei-me às atividades relacionadas com a ação educativa dos museus. De 74 a 79, realizei vários programas com alunos e professores das redes estadual e particular de ensino da cidade do Salvador, no Museu de Arte Sacra da UFBA. Àquela altura, sentia a necessidade de aprofundar as questões relacionadas com a utilização dos museus, como recurso educativo, e me inscrevi na seleção do Mestrado em Educação, tendo sido aprovada em 1979. A minha dissertação de mestrado teve como título: “Museu-Escola: uma experiência de integração” . No meu primeiro livro, que teve o patrocínio do Ministério da Cultura-Sistema Nacional de Museus, dedico um capítulo à dissertação do Mestrado.

 

Devo registrar que, antes de fazer a seleção em Salvador, inscrevi-me na CAPES, para fazer um Mestrado de Educação em Museus, oferecido pela Georoge Washington University-Washginton D.C. Fui aprovada, mas optei por realizar o curso em Salvador.

 

Hoje, considero a ação museológica como uma ação educativa e de interação, que produz conhecimento e busca a construção de uma nova prática social. Portanto, a ação museológica é, por mim compreendida, uma ação educativa e de comunicação.

 

 

 

5 – Sabemos que você defendeu em 1996 a sua tese de doutoramento. Como foi esse processo? Que contribuições você compreende que essa tese pode trazer para a Museologia Brasileira?

 

 

Existiu um intervalo grande entre o mestrado e o doutorado, o que me permitiu um amadurecimento maior, com base nas reflexões teóricas. Houve um bom avanço em relação à construção do conhecimento na Museologia, nesse período, também proporcionado pela  vivência em vários projetos e nas atividades como docente do Curso de Museologia. Talvez, por isso o doutorado tenha sido um processo tão rico, se não vejamos:

 

Em primeiro lugar, esse caminhar de construção e reconstrução foi e está sendo, para mim (continuo atuando no Museu-Didático Comunitário de Itapuã, originado do meu objeto de estudo do doutorado), uma fonte infinita de conhecimento e crescimento pessoal. Ressalto que não quis ser “objetiva” almejando uma neutralidade absoluta que apagasse as marcas da minha implicação no meu objeto de estudo. Estive, todo o tempo, imersa nesse processo, na totalidade; tem sido, realmente, um encontro de ação, pensamento, desejo, prazer, paixão e sonho.

 

A escolha do tema está relacionada com a minha história de vida profissional, uma vez que temos atuado, como professora universitária, de forma integrada e participativa com professores e alunos de 1º e 2º graus, conforme explicitado anteriormente. Acredito que o nosso compromisso com a sociedade deve-se dar no plano do concreto, assumindo que somos capazes de agir e refletir-transformar a realidade. Qual o compromisso da Universidade com as muitas realidades de um país da América Latina onde imperam a miséria, o cólera, a violência, o analfabetismo? Esta tem sido uma preocupação constante quando atuamos como educadora, museóloga e pesquisadora. Por isso, optamos, mais uma vez, por sair do espaço fechado da universidade, evitando construir uma tese que fosse destinada somente à academia. Assumimos que há possibilidade de produzir conhecimento em todos os níveis de escolarização e que este conhecimento pode ser construído em uma determinada ação de caráter social, reconhecendo o papel ativo dos observadores na situação pesquisada e dos membros representativos dessa situação.

 

Escolhemos, para desenvolver a ação proposta, o Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, situado na Rua Prof. Souza Brito, s/no, na Estrada do Farol, em Itapuã, em Salvador-BA, por possuir um Curso de Magistério. Pretendíamos, a partir das atividades que seriam planejadas e desenvolvidas em sala de aula com professores, alunos e funcionários do referido curso, envolver professores e alunos do 1oe 2o Graus, bem como membros da comunidade local. A Escola possuía, à época, 2.800 alunos matriculados

 

A escolha do Bairro de Itapuã como área-objeto de estudo deveu-se  à necessidade de realizar um estudo sistemático, a partir da escola, envolvendo a comunidade local e buscando, através das ações planejadas com os diversos segmentos envolvidos, a compreensão e a reflexão sobre o seu patrimônio cultural, na dinâmica do processo social.

 

Acreditamos que o patrimônio cultural de qualquer bairro pode ser utilizado para análise e compreensão da realidade do presente e como referencial para construção e reconstrução da práxis pedagógica. Entretanto, confessamos que nos deixamos envolver, também, pelo bucólico, poético, romântico, que é Itapuã, cantada em prosa e verso:

 

... É bom passar uma tarde em Itapuã,

    Ao sol que arde em Itapuã,

    Ouvir o mar de Itapuã,

    Falar de amor Itapuã...

 

 

Nesse sentido, a proposta de um museu didático-comunitário, no Bairro de Itapuã, procura abordar o bairro como forma, como lugar de ação de forças sociais e como imagem. O objeto do museu está sendo o que é o bairro e a sua relação com o contexto da Cidade do Salvador, enquanto fenômeno que a análise científica está recuperando e  interpretando; portanto, não estão sendo excluídos a cidade de hoje e o bairro de hoje com suas contradições, pois ambos só poderão ser compreendidos dentro de uma perspectiva histórica.

 

Quanto ao acervo que está sendo musealizado, podemos identificá-lo como acervo institucional e como acervo operacional. O acervo institucional está sendo formado, gradualmente, levando-se em consideração os contextos sociais e históricos, que as peças documentam, levantando-se as demais referências desses contextos, considerando-se valores modestos, anônimos, sem relevância estética, ou de ineditismo. Está sendo considerada de vital importância, nesse sentido, toda a produção cultural que se refira ao universo do cotidiano e do trabalho. Ao acervo institucional estão sendo, também, incluídos materiais arquivístico e iconográfico, fotografias, plantas, maquetes, depoimentos e testemunhos de várias naturezas, bem como toda a documentação urbana disponível. Quanto ao acervo operacional, são considerados: a paisagem, estruturas, monumentos, equipamentos, áreas e objetos sensíveis do tecido urbano, socialmente apropriados, percebidos não só na sua carga documental, como também na sua capacidade de alimentar as representações urbanas.

 

Enfim, mesmo inserida no contexto de uma crise que atinge a todos os segmentos da sociedade brasileira e, em especial, nas áreas da educação e a cultura, aceitei o desafio de acreditar que sou sujeito da História e que juntos somos capazes de deflagrar um processo de crescimento conjunto, considerando o patrimônio cultural como um referencial para o exercício da cidadania e para o desenvolvimento social, por meio do processo educativo.

 

Acho que posso identificar algumas contribuições dessa construção conjunta, para a Museologia Brasileira, a saber:

 

·          Houve alguns avanços em relação à compreensão do processo museológico e sua relação com o patrimônio Cultural e com a Instituição Museu. O processo museológico antecedeu a existência objetiva do museu e não se originou a partir de uma coleção, de uma instituição, como normalmente se concebe, mas teve, na pesquisa, o suporte essencial para o seu desenvolvimento. Do processo de construção do conhecimento é que está sendo realizada a musealização, processada a partir da prática social (na escola e no bairro), na sua dinâmica real, ou seja, no processo social, em interação, considerando-se as suas dimensões de tempo e espaço, abordando a cultura de forma integrada às dimensões do cotidiano. Nesse sentido, pude definir o fato museal, como a qualificação da cultura, em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social;

 

·          A implantação do Museu Didático-Comunitário de Itapuã tornou possível a realização de uma experiência concreta, em nosso País, de gestão e organização de um museu, construído de forma participativa, embasado numa proposta metodológica que teve como referencial a teoria museológica, portanto em estreita relação com a teoria museológica e aberto a novos conhecimentos;

 

·        processo museológico, através das ações de pesquisa, conservação e comunicação, ao produzir um conhecimento sobre a  educação no Colégio Lomanto Júnior, e sobre o Bairro de Itapuã, organizando um banco de dados no MDCI, está realizando uma ação pioneira no âmbito da educação na Bahia, no sentido de preservar a sua memória e de utilizá-la como referencial para a realização de diversas ações, no presente, além de abrir novos  campos de atuação para a museologia e para a educação;  

 

·          As  ações museológicas, aplicadas ao universo da escola e do Bairro, nos permitiram avançar, em relação a vários aspectos técnicos, na pesquisa, na preservação e na comunicação;  

 

·          Através da análise da atuação dos professores e dos estagiários do Curso de Museologia, desenvolvendo um   processo museológico integrado à prática educacional no Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, pudemos levantar alguns aspectos em relação ao perfil do museólogo, que talvez possa contribuir para uma reflexão em torno dos currículos dos cursos de Museologia  e para a ampliação da concepção em torno do  campo de atuação do museólogo;

 

·          Em relação ao Curso de Museologia, no decorrer das diversas ações, viabilizou-se a participação de estagiários atuando em atividades de pesquisa, preservação e comunicação, os quais têm vivenciado uma ação museológica com base na participação, na interação com os diversos participantes, atuando na gestão e organização de um Museu Didático-Comunitário, oportunidade até então inexistente no Curso de Museologia da UFBA. Quanto aos professores do Curso, conseguiram integrar as ações de pesquisa, ensino e extensão, trazendo para a sala de aula o conhecimento construído no processo, para análise e reflexão dos alunos da graduação;

 

·          Embora  os  programas, tomados como estudo de caso, tenham sido realizados em um museu didático-comunitário, e mesmo considerando as especificidades dessa instituição, acredito que as ações ali desenvolvidas possam servir como referencial para qualquer categoria de museu, desde que se realizem as  reduções necessárias, no sentido de adaptá-las a outras realidades. Acredito que os programas dos museus são o resultado da concepção de museologia e de museu, assumidas por aqueles que atuam nas instituições museais, e que por meio da sua atuação, no interior ou fora da instituição, podem alimentar a teoria museológica,  e, consequentemente,   provocar a necessária transformação no museu. A instituição museu não é um produto pronto, acabado. É o resultado das ações humanas que o estão construindo ou reconstruindo a cada momento; portanto, é resultado da prática social;

 

·          Foi possível aos participantes conduzirem suas próprias experiências, enriquecendo as ações museológicas, apontando para a solução de problemas, muitas vezes insolúveis, no interior da academia, presa a cânones e a “padrões museológicos” alheios à nossa realidade. As montagens das exposições, por exemplo, foram realizadas de forma extremamente simples, considerando as reais possibilidades oferecidas, em termos de materiais e espaço, e, sobretudo, privilegiando a participação dos sujeitos envolvidos nas ações que as originaram. Desta forma, as regras tradicionais da Museografia tiveram que ser substituídas pelo “fazer possível e criativo”, adotando soluções diversas para os problemas relacionados à aplicação das ações museológicas;

 

·          Através dos programas desenvolvidos, foi possível, também, divulgar e ampliar a atuação da Universidade Federal da Bahia (Curso de Museologia), integrando-a à comunidade onde está inserida,  não como entidade superior, que leva o conhecimento produzido na academia, mas aberta ao diálogo e à troca, deixando-se enriquecer e possibilitando também um enriquecimento dos demais cursos participantes das programações;

 

·          Os resultados obtidos confirmam, que é possível enriquecer a Pedagogia e a Museologia, com a participação de milhares de sujeitos, que estão fora da escola, e que, constantemente, encontram soluções criativas para a solução dos problemas enfrentados no cotidiano. Entretanto, para que essa troca seja efetiva, torna-se necessário que o museólogo, o pedagogo ou outro profissional, que venha a desenvolver uma ação entre o Museu, a Escola e a Comunidade, seja um mediador, um professor-aluno, que enriqueça e seja enriquecido;

 

·          Os recursos e fontes potenciais da comunidade e da Cidade do Salvador foram utilizados em um processo contínuo de aprendizagem de jovens e adultos, tendo sido possível, também, compreender que, qualquer museu, independentemente da sua categoria e localização, pode trabalhar com os acervos institucional e operacional;

 

 

Foi bom fazer este balanço.

 

 

6 – Quais as principais diferenças entre a sua dissertação de Mestrado e a sua tese de Doutorado?

 

Acho que são substanciais. Quando da escolha do meu objeto de estudo, para a minha dissertação de Mestrado estava preocupada com a qualidade dos programas, que vinham sendo aplicados com escolares nos museus já instituídos. Apesar de já estar atuando nesse setor há algum tempo, me inquietava muito  o nível de aprendizagem alcançada pelos alunos através da participação nos programas oferecidos, principalmente a tradicional visita guiada que, naquele momento, era a atividade executada com maior            freqüência nos diversos museus da Cidade do Salvador. Considerava que já era o momento de sairmos do estágio inicial para buscar novos métodos que fossem capazes de tornar as nossas ações mais eficazes.

 

Após as reflexões realizadas no Mestrado, acreditava que a freqüência dos estudantes ao Museu não deveria ser considerada simplesmente como evento esporádico, mas deveria ser conduzida no sentido de treinar a observação e o senso crítico dos alunos, a partir da mensagem transmitida pelos objetos em exposição. Questionava se esses objetivos poderiam ser alcançados através de uma simples visita guiada a todas as salas de exposição de um museu.

 

Apesar de termos realizado um levantamento exaustivo, não foi possível identificar, em nosso País, àquela época, pesquisas que viessem fornecer dados sobre o nível de aprendizagem alcançado pelo estudante ao participar de programas dessa natureza, o que me levou a realizar, através de uma coleta de dados sistemática, com a aplicação de quatro tipos de programas específicos, um estudo que me proporcionou a oportunidade de, através da observação dos comportamentos emitidos pelos alunos e do produto por eles realizado, concluir sobre os resultados de cada tipo de programa. As atividades foram realizadas no Museu de Arte Sacra da UFBA, por sua condição de Museu-Escola para o Curso de Museologia,  envolvendo quatro turmas do 1o Ano Básico do Colégio Estadual Manoel Devoto, na disciplina Educação Artística.

 

Portanto, o meu problema tinha como enfoque principal, a metodologia utilizada nos diversos programas elaborados a partir do acervo exposto no museu e seus resultados para o nível de aprendizagem e para o desenvolvimento da observação e do senso crítico dos alunos.

 

Em minha tese de Doutorado a abrangência é bem maior, no que diz respeito à produção do conhecimento na museologia, aos processos educativos, aos sujeitos e instituições envolvidos e aos procedimentos adotados, como pode ser constatado na resposta da questão anterior. Os resultados alcançados fornecem uma base para reflexão bem mais ampla e indicam múltiplas possibilidades de ação e produção de conhecimento  para os campos da museologia, da pedagogia e para outras áreas do conhecimento. Não dá para abordar, nesta entrevista, todos os aspectos teórico-metodológicos que a envolvem. Na questão anterior fiz uma síntese. Fica o convite para a leitura.

 

 

 

7 – Célia, perdoe a impertinência, você se considera uma nova museóloga?

 

 

Acho que você faz esta questão  relacionado o “nova museóloga” com o movimento da “Nova Museologia”, não é verdade?

 

Você me faz retomar a uma das reflexões realizadas em minha tese de doutorado:

 

Para mim, a Museologia é uma ciência em processo e, como tal, em permanente construção. Não me parece pertinente, portanto, considerar a existência de uma Nova Museologia, sob pena de esvaziá-la, de retirar do seu contexto toda a produção que a antecedeu, desprezando essa produção com um sentido pejorativo de velho, obsoleto, inútil,  quando esta deve ser considerada a base, o apoio necessário que nos fundamenta para novas investidas.

 

Ressalto, entretanto, que o “Movimento da Nova Museologia”, e não uma “Nova Museologia,” foi um vetor no sentido de buscarmos um novo caminho, que descobrimos a cada etapa avaliada não ser o ideal, mas o possível, mas que nos instrumenta para seguir adiante buscando o desenvolvimento constante da ciência museológica. O Movimento da Nova Museologia foi um  impulso necessário à renovação, contribuindo, efetivamente, com o enriquecimento do processo museológico,  com um fazer museológico mais ajustado às diversas realidades. Da construção concreta de  museus,  com base na interação  e na participação,  conseguimos avançar também em relação aos aspectos teórico-metodológicos da  Museologia. É necessário, portanto, reconhecer o papel do movimento  denominado  Nova Museologia, sem contudo confundi-lo com a MUSEOLOGIA propriamente dita.

 

Considero-me, uma profissional da área da museologia, que toma como referencial os conhecimentos  construídos ao longo do processo histórico, para a construção de novos conhecimentos, levando em consideração as múltiplas realidades, aberta à interação com os diversos sujeitos sociais. Considero-me uma museóloga “antenada” com o meu tempo, com múltiplos olhares de busca e realização, a partir do patrimônio cultural.

 

Acho que sou, simplesmente museóloga.

 

 

8 – Como você vê a inserção da Museologia Brasileira no panorama Museológico Mundial?

 

 

Acho que a Museologia Brasileira tem hoje reconhecimento no meio internacional, apresentando uma razoável produção de conhecimento apontando para soluções técnicas mais ajustadas à nossa realidade, destacando-se, sobretudo, por apresentar resultados de projetos elaborados de forma criativa, e que buscam, como objetivo maior, o desenvolvimento social. Ressalto, entretanto, que considero essa projeção mais como resultado do esforço individual de alguns museólogos do que como um  produto de uma política museológica que incremente essa projeção e esse intercâmbio. 

 

Do ponto de vista da qualidade, considero que hoje temos muito o que acrescentar ao panorama museológico internacional. Não necessitamos mais dizer simplesmente amém aos “experts” estrangeiros.

 

 

 

9 – Percebe-se claramente que Paulo Freire é uma referência forte para o seu trabalho. Sabe-se que a ligação de Paulo Freire com a Museologia e os museus data dos anos 70. Como você analisa e compreende essa ligação?

 

 

Nos anos 70, começamos a reconhecer que  o homem é, ao mesmo tempo, o produto e o criador de sua sociedade e de sua cultura. Começamos a desenvolver ações, talvez de forma não intencional, que traçam um esboço do que consideramos o marco mais significativo da evolução do processo museológico na contemporaneidade: a passagem do sujeito passivo e contemplativo para o sujeito que age e que transforma a realidade. Nessa perspectiva, o preservar é substituído pelo apropriar-se e reapropriar-se do patrimônio cultural, buscando-se a construção de uma nova prática social. Vejamos o que diz Paulo Freire, a respeito do processo de aprendizagem: “...no processo de aprendizagem, só aprende verdadeiramente aquele que se apropria do aprendizado, transformando-o em apreendido, com o que pode, por isso mesmo, reinventá-lo; aquele que é capaz de aplicar o aprendido-apreendido a situações existenciais concretas. Pelo contrário, aquele que é enchido por outros de conteúdos cuja inteligência não percebe, de conteúdos que contradizem a própria forma de estar em seu mundo, sem que seja desafiado, não aprende”.

 

A busca  de um fazer museológico, mais  ajustado às diversas realidades históricas, que tem como objetivo “humanizar o homem na ação consciente que esse deve fazer para transformar o mundo”, que tem sido uma constante, nas ações museológicas contemporâneas, com certeza, no nosso entender, tem um referencial bastante significativo na obra do Prof. Paulo Freire. Acho que ainda estamos devendo um estudo mais aprofundado sobre a influência desse grande educador brasileiro para a museologia do nosso tempo.

 

Percebe-se, por exemplo, ao analisarmos o documento da Mesa Redonda de Santiago do Chile, realizada em 1972, evento da maior importância para a Museologia da América Latina, que as reflexões de Paulo Freire estão ali presentes, apesar de ele não ter podido aceitar o convite para participar  daquele encontro. Entretanto, a sua ausência não impediu que os temas mais marcantes da sua obra, ou sejam: a conscientização e a mudança, que levam o educador e todo profissional a se engajar social e politicamente, compromissado com um projeto de sociedade diferente, estivessem presentes em Santiago e ainda estejam presentes em nosso campo de atuação, na atualidade.

 

É indiscutível a importância de Paulo Freire para a Museologia Contemporânea. Reconheço que devo um estudo sobre esse tema. Que tal realizarmos essa produção em parceria? Fica o convite.

 

 

11 – O Que você considera básico para a formação profissional em Museologia (visando o aqui o agora e o amanhã) ?

 

 

As transformações recentes, nos aspectos político e econômico, no âmbito internacional, apontam para a busca da superação dos paradigmas até aqui adotados, sobretudo no campo educacional. Nesse sentido, compreende-se que as diretrizes e as metas traçadas para a política educacional, no presente, devem apontar para uma ação multidisciplinar que enfoque as diferentes maneiras humanas de ser, de estar no mundo,  e de construção e reconstrução das múltiplas realidades. Cada vez mais, torna-se necessária uma ação educativa, que tenha como referencial o patrimônio cultural, considerando o seu rico processo de construção e reconstrução. Sendo assim, as atividades pedagógicas deverão buscar, por meio de uma ação integrada com a comunidade, a qualificação do “fazer cultural ” local, buscando inseri-lo nos contextos nacional e internacional. Comentando sobre a necessidade de educar os indivíduos para a democracia e a participação nacional e internacional,  SANDER, em 1995,   chama a atenção  para o fato de que os países economicamente avançados concebem os seus paradigmas organizacionais e administrativos com base em suas necessidades econômicas, tradições culturais e aspirações políticas. Salienta, ainda, que “a eficiência e a eficácia organizacional e administrativa nos países avançados se deve, em grande parte, a que seus paradigmas têm raízes na sua própria História, sua própria cultura”. É necessário, pois, considerar as múltiplas realidades da América Latina, buscando-se alternativas organizacionais e administrativas para o Setor Público e para a gestão da educação, incrementando a realização de ações locais, desenvolvidas em perspectiva global, que tenham como referencial o patrimônio cultural. Nesse sentido, a atuação do profissional museólogo tem um significado bastante importante, quando constatamos, que a educação é um fator decisivo para o desenvolvimento dos países do nosso continente.

 

Por outro lado, a viabilidade de uma integração efetiva entre museu, escola e comunidade, passa, também, por uma revisão de conceitos na área da Museologia. O mundo contemporâneo e as transformações ocorridas nos últimos anos  sinalizam  para a necessidade de um fazer museológico mais ajustado às diversas realidades da América Latina. A revisão e superação de determinados paradigmas é essencial, considerando-se a necessidade de aplicação de ações museológicas mais ajustadas à nossa realidade e à criação de novos museus, bem como à reformulação dos já existentes, tornando-os instituições relevantes para a cidadania. A Museologia  e o museu têm uma importância central no contexto de reconstrução das nações, na busca de um mundo livre e equitativo. Para tanto, torna-se necessária a formulação de novas diretrizes, à luz dos conhecimentos historicamente acumulados.

 

 

 

12 – Como tem sido a sua experiência com a Universidade Lusófona, em Lisboa? A aproximação entre Brasil e Portugal, através da Museologia, tem dado bons frutos?

 

 

Conheci o Prof. Mário Moutinho, atual Vice-Reitor da Lusófona, no 1o Encontro Internacional de Ecomuseus, realizado no Rio de Janeiro, em 1992. Posteriormente, o convidamos, juntamente com outro professor do Curso de Conservador Museólogo, daquela Universidade, para participar de um Seminário do Curso de Museologia, em Salvador. A partir daí foi iniciado um intercâmbio bastante proveitoso entre aquela Universidade e a Universidade Federal da Bahia. Hoje, a Professora Rosana Nascimento e eu fazemos parte do corpo docente daquela Universidade, onde somos responsáveis por ministrar seminários sobre Museologia e Cidadania, no meu caso, e sobre documentação e inventariação, no caso da Profa Rosana .

 

Por conta desse intercâmbio, já tivemos vários trabalhos publicados por aquela Universidade, inclusive a minha tese de doutorado. Além disso, o Museu Didático-Comunitário de Itapuã é credenciado para a receber estagiários do Curso de Museologia da Lusófona, tendo recebido, até o momento, dois estagiários, que participaram de várias ações no MDCI. Três Alunos graduados pelo Curso de Museologia da UFBA já frequentaram o Curso da Lusófona, complementando a sua formação com uma especialização. Também temos participado de vários eventos na área da Museologia, em Portugal, como conferencistas ou apresentando os projetos por nós desenvolvidos no Brasil.

 

Acho que essa troca tem sido bastante produtiva, para os dois lados, pois pudemos conhecer, de perto, os diversos aspectos da museologia portuguesa, o que nos tem enriquecido muito. Também temos tido a oportunidade de divulgar  nossos trabalhos, os quais são recebidos com grande reconhecimento.

 

Esperamos continuar esse intercâmbio por mais tempo, pois, mutuamente, estamos crescendo. Além dos aspectos profissionais, esse intercâmbio tem proporcionado a oportunidade de construir ótimas amizades em Lisboa, o que tem contribuído para tornar a ação profissional bastante prazerosa.

Lisboa, Velha Cidade.... Quando estou lá, sinto saudades de cá. Quando estou cá, sinto saudades de lá.

 

 

13 – Waldisa Russio é um marco na Museologia Brasileira?

 

 

Em uma das minhas gestões como Coordenadora do Curso de Museologia da UFBA, em 1982, tive a oportunidade de manter o meu primeiro contato com Waldisa. Isso ocorreu quando da realização do I Encontro de Museólogos do Nordeste, patrocinado pela Fundação Joaquim Nabuco. Tive, então, a satisfação de participar, como debatedora, do tema “O Mercado de trabalho para o Museólogo na Área da Museologia”, exposto por Waldisa, que com muito profissionalismo me enviou o texto da sua palestra, com bastante antecedência. Revendo o texto por ela apresentado, naquela ocasião, percebo que, com clareza e caráter científico, já àquela época, estava ali registrada, por Waldisa, o que considero ser uma das suas maiores contribuições à museologia brasileira:

 

Ter iniciado e dado continuidade a uma discussão teórica, em nível nacional, sobre o caráter científico da museologia.

 

No mesmo evento, acima citado,  tive a oportunidade de observar, de perto, a garra e o entusiasmo de Waldisa, quando, junto com a delegação da Bahia, discutiu  e defendeu, com segurança e entusiasmo, a necessidade de regulamentação da profissão de museólogo, tendo contribuído, posteriormente, em vários momentos, na discussão da proposta de lei, além de ter  realizado gestões para sua aprovação pelo Congresso Nacional.

 

Realizamos discussões conjuntas em vários seminários e congressos , em que a presença de Waldisa era marcada por seus pronunciamentos, em prol de uma museologia voltada para o social, enfatizando a necessidade de um intercâmbio mais produtivo entre os Cursos de Museologia existentes no País, salientando, sempre, a necessidade de revisão de seus currículos, adequando-os à necessidades regionais e a uma museologia  que tivesse como enfoque principal o homem e, não somente, o objeto.

 

Com o objetivo de aprofundar o intercâmbio entre o Curso de Museologia da Bahia e o de São Paulo, convidamos Waldisa, em 1984, para proferir um curso, em Salvador, oportunidade em que apresentou a estrutura e funcionamento do Curso de Museologia do Instituto de Sociologia e Política, destacando as linhas de pesquisas de seus professores e alunos. Com a liderança de Waldisa, foi possível, no Estado de São Paulo, a formação de vários  profissionais para atuarem no campo da Museologia, os quais com certeza, têm contribuído, para uma atuação mais eficaz das instituições museológicas daquele Estado. Infelizmente, apesar de seus esforços, não foi possível ter o Curso reconhecido pelo MEC, antes do seu falecimento.

 

Acompanhei  a luta de Waldisa para realizar o I Seminário Latino-Americano de Museologia. Eram seus objetivos buscar uma aproximação maior com os nossos colegas da América Latina e uma discussão conjunta com os coordenadores e professores dos cursos de Museologia  existentes no Brasil. Com muito esforço, conseguiu realizar o Seminário, e, através daquele evento, pudemos iniciar um intercâmbio profícuo com diversos profissionais de outros países de nosso continente, quebrando o nosso isolamento.

 

Considero que é impossível para os Cursos de Museologia existentes, hoje, no País, discutirem Museologia e museus, sem uma análise dos conceitos apresentados por Waldisa, em todos os seus textos. Acho, sim, que Waldisa é um marco, não só para a Museologia Brasileira, como  para  Museologia da América Latina. Ela representa:

 

 

·          Museu construído com a participação do cidadão;

·          Museologia além do cenário do museu;

·          Fato museal – “relação entre o homem e o objeto”;

·          Interdisciplinaridade, multidisciplinaridade e museologia;

·          Entusiasmo e amizade;

·          Intercâmbio entre os profissionais de museus da América Latina e entre os Cursos de Museologia do País.

 

Sinto saudades das suas contribuições,  do seu entusiasmo, da sua força e da sua alegria.

 

 

14 – Célia, para finalizar, que mensagem você gostaria de enviar para os profissionais de museus?

 

Deixo algumas:

 

·          Que olhem para os museus e para além dos museus;

 

·          Que com o patrimônio Cultural, e a partir da reflexão e da ação sobre o Patrimônio Cultural, possam ser sujeitos da História, promover a atuação de outros sujeitos da História, possibilitando a construção e reconstrução de múltiplos patrimônios culturais, visando ao desenvolvimento social e ao exercício da cidadania;

 

·          Que o fazer museológico produza conhecimento e  esteja impregnado de vida - paixão, desejos, sonhos, troca, objetividade e subjetividade, em permanente abertura para  avaliar os processos museais e para a auto-avaliação;

 

·          Que estejam preparados para atuar nos museus e fora dos museus;

 

·          Que busquem, constantemente, a qualidade formal e a qualidade política, assumindo  o compromisso social  e o exercício da cidadania.

 

Mário, você me deu trabalho. Mas, quem sou eu sem o trabalho?

 

Muito obrigada por me fazer buscar, nos meus “alfarrábios”, as lições do passado para compreender melhor a minha atuação no presente, e por me sentir cheia de vida.


 

Com o meu agradecimento, um poema de Gonzaguinha:

 

CAMINHOS DO CORAÇÃO

 

Há muito tempo que eu saí de casa

Há muito tempo que eu caí na estrada

Há muito tempo que estou na vida

 

Foi assim que eu quis, e assim sou feliz.

Principalmente por poder voltar a todos os lugares onde já cheguei.

Pois lá deixei um prato de comida,

Um abraço amigo, um canto para dormir

E sonhar

 

E aprendi que se depende sempre,

De tanta muita diferente gente.

Todas as pessoas sempre são as marcas

Das lições diárias de outras tantas

Pessoas

 

Que é tão bonito quando a gente entende

Que a gente é tanta gente, onde quer

Que a gente vá.

 

É tão bonito quando a gente sente

Que nunca está sozinho, por mais que

Pense estar.

 

É tão bonito quando a gente pisa firme

Nessas linhas que estão nas palmas de nossas mãos

 

É tão bonito quando a gente vai a vida,

Nos caminhos onde bate bem mais forte

O coração....


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 CAPÍTULO II

 MUSEU: centro de educação comunitária ou contribuição ao ensino formal?[3]

 

 

1 - INTRODUÇÃO

 

 

É com imensa satisfação que participo do I Simpósio sobre Museologia, na UFMG. Com a realização deste evento, pude constatar  o entusiasmo e a garra dos profissionais que tiveram a iniciativa de instalar, nesta Universidade, O Museu de Ciências Morfológicas, que tem como objetivo,  democratizar o ensino, abrir as fronteiras da Universidade, incentivar a realização de ações de ensino, pesquisa e extensão, de forma integrada, em diferentes níveis de ensino. Parabenizo, pois, a iniciativa, principalmente, por ter sido gestada  por  profissionais da área das ciências médicas, que muitas vezes nos fazem sentir como “pobres mortais”, diante da sapiência daqueles que dominam o nosso corpo e o  analisam  como um objeto à parte,” sem a devida contextualização,  sobretudo, dos aspectos culturais. Com certeza, o Museu de Ciências Morfológicas da UFMG irá colaborar, efetivamente, com  a  necessária “humanização” da área médica, e para a indispensável integração entre a Universidade e a Comunidade.

 

Registro, também, o meu entusiasmo, por participar de um Simpósio de Museologia em Minas Gerais, Estado que possui um “patrimônio instituído de grandes proporções, e no nosso entender, ainda carente de ações museológicas efetivas, que poderiam ser concretizadas por meio da existência de um Curso de Museologia, em nível de Graduação ou Pós-Graduação, e que deveria ser o  responsável não só pela formação de profissionais necessários à devida musealização dos acervos já reconhecidos e tombados, bem como também pela realização de programas junto aos diversos segmentos da sociedade, no sentido de qualificar culturalmente e musealizar a prática social, o cotidiano mineiro, tão rico e desprezado pelos nossos museus e escolas. Que este Simpósio represente também,  um momento de reflexão no sentido de incentivar as UFMG e demais instituições participantes a envidarem esforços com o objetivo de suprir essa carência. Minas tem condições e merece o seu Curso de Museologia. A Bahia pode colaborar, e, com certeza, também será enriquecida com essa iniciativa.

 

As reflexões que serão aqui apresentadas, a partir do tema proposto pela organização do Simpósio, qual seja: “Museu: centro de educação comunitária ou contribuição ao ensino formal?” são o resultado da nossa  atuação ao longo dos anos,  no Curso de Museologia da UFBA, desenvolvendo trabalhos de ensino, pesquisa e extensão, em museus e escolas da cidade do Salvador, e, mais recentemente, na elaboração da Tese de Doutorado. Não significa, entretanto, que as considere definitivas, prontas, acabadas. Pretendo que sejam um incentivo ao debate, à reflexão conjunta, ao rico processo de troca, de construção e reconstrução do conhecimento.

 

 

 

2 - RECONSTRUINDO  E DISCUTINDO O TEMA  PROPOSTO

 

 

Em 1987, publicamos o nosso primeiro livro, intitulado: “Museu, Escola e Comunidade: uma integração necessária”. Escolhemos esse título, não só porque acreditávamos que era significativo para as ações que estavam ali registradas, mas, também por considerarmos, já àquela época, que a Escola, o Museu e a Comunidade deveriam  interagir,  realizando ações conjuntas, buscando objetivos comuns. Portanto, no nosso entender,  o Museu  é uma instituição que  tem um compromisso com o processo educacional, seja ele formal ou informal, devendo a escola, também, participar e interagir com a comunidade onde está inserida. Nesse sentido, a participação comunitária não exclui a participação no ensino formal; ao contrário, é necessário a integração, a atuação conjunta. Tanto o museu como a escola devem potencializar os recursos educativos de uma comunidade, realizando o intercâmbio necessário entre o ensino formal e não-formal, um alimentando o outro e se enriquecendo mutuamente.

 

As transformações recentes nos aspectos político e econômico no âmbito internacional, apontam para a busca da superação dos paradigmas até aqui adotados, sobretudo no campo educacional. Analisando esses aspectos, Swartzman ( 1980, p.147), sugere que

 

... a nova matriz de poder mundial que precisamos construir coletivamente deve suplantar, tanto a perspectiva dicotômica, quanto a visão unidimensional na política e na sociedade, para dar lugar a uma orientação multidimensional ou multiparadigmática com crescente conteúdo cultural e uma estratégia equitativa de ação baseada na participação democrática.

 

Nesse sentido, compreende-se que as diretrizes e as metas traçadas para a política educacional, no momento presente, devem apontar para uma ação multidisciplinar que enfoque as diferentes maneiras humanas de ser, de estar no mundo,  e de construção e reconstrução das múltiplas realidades. Enfim, cada vez mais, torna-se necessária uma ação educativa, que tenha como referencial o patrimônio cultural, considerando o seu rico processo de construção e reconstrução. Sendo assim, as atividades pedagógicas deverão buscar, por meio de uma ação integrada com a comunidade onde a escola está inserida, a qualificação do “ fazer cultural ” local, buscando inseri-lo nos contextos nacional e internacional. Comentando sobre a necessidade de se educar os indivíduos para a democracia e a participação nacional e internacional,  SANDER (1995, p.129)  chama a atenção  para o fato de que os países economicamente avançados concebem os seus paradigmas organizacionais e administrativos com base em suas necessidades econômicas, tradições culturais e aspirações políticas. Salienta ainda o referido autor, que “a eficiência e a eficácia organizacional e administrativa nos países avançados se deve, em grande parte, a que seus paradigmas têm raízes na sua própria História, sua própria cultura” . É necessário, pois, considerar as múltiplas realidades da América Latina, buscando-se alternativas organizacionais e administrativas para o Setor público e para a gestão da educação, incrementando a realização de ações locais, desenvolvidas em perspectiva global, que tenham como referencial o patrimônio cultural.

 

Encurtar, pois, as distâncias entre o ensino formal e não-formal,  é urgente e necessário. A vida, o conhecimento construído e reconstruído a cada momento, na vivência do cotidiano, deve ser um referencial essencial para a análise e o enriquecimento da prática pedagógica, proporcionando ganhos significativos para todos os sujeitos envolvidos no processo: professores e alunos dos diversos níveis de ensino, membros da comunidade, pesquisadores, etc. Estamos assumindo, neste trabalho, a definição de comunidade apresentada por Myriam Veras (1997, p.50), qual seja: uma unidade dinâmica, onde se destacam os fatores de relacionamento, de delimitação geográfica e de função. Esclarece a referida autora que as categorias de relações  na comunidade se referem àqueles vínculos básicos que correspondem aos laços mais  resistentes na rede de relações, como a família, o trabalho e a vizinhança. Salienta, ainda, que a dimensão da comunidade em relação ao espaço físico se fundamenta na importância que a proximidade geográfica tem para motivar a aglutinação, em face de determinados tipos de relações e atividades, visto que na sociedade moderna uma grande parte de contatos sociais é desenvolvida fora do círculo de vizinhança. Salienta também,, que a “função”, se refere ao papel relativo desempenhado pela unidade social face das unidades circundantes.  Comentando sobre a necessidade de uma ação concreta e duradoura entre a escola e a comunidade,   SIRVENT  (1984, p.45) toma a educação permanente como um paradigma orientador da educação comunitária e apresenta as hipóteses abaixo relacionadas como fundamentação de estratégias para e educação não-formal:

 

1 - Não existe uma distinção nítida entre a pessoa imatura, que deve aprender (infância e adolescência), e a pessoa madura, que já sabe tudo (adulto). Esta suposição anula a dicotomia existente entre uma etapa da vida, consagrada à aprendizagem e a outra dedicada à produção.

 

2 - A necessidade de educação estende-se por toda a vida do indivíduo, da mesma maneira que a necessidade de alimentação, saúde ou moradia. Isto implica assumir que os indivíduos e os grupos sociais estão expostos constantemente, ao longo de toda sua vida, a situações problemáticas novas, que demandam a aprendizagem de formas de condutas desconhecidas, para superá-las.

 

3 - Existe em uma comunidade uma série de recursos ou de fontes potenciais, para a aprendizagem contínua de jovens e adultos. No caso das populações periféricas, assumem especial importância todas aquelas associações voluntárias que surgiram espontaneamente como resposta a novas ou desconhecidas situações problemáticas, vividas quotidianamente pelo adulto de grupos sociais economicamente carentes.

 

4 - É possível organizar uma ação educativa complexa, que seja resultante de uma rede de interações entre diversos recursos educativos. Não se trata de somar ou adicionar componentes isolados, mas de integrar os mesmos ao redor de objetivos educacionais comuns. Nesta rede insere-se a educação formal ou uma redefinição de seu papel frente à comunidade e aos recursos educativos não-formais e informais da mesma. As instituições do macro-sistema constituir-se-iam num sistema aberto em contínua comunicação, tanto entre si como com o meio em que estão inseridos. As experiências até o momento mostram que as instituições menos flexíveis para se modificar dinamicamente neste processo são as escolares.

 

Por outro lado, a viabilidade de uma integração efetiva entre museu, escola e comunidade, passa, também, por uma revisão de conceitos na área da Museologia. O mundo contemporâneo, as transformações ocorridas nos últimos anos e já registradas anteriormente, sinalizam  para a necessidade de um fazer museológico mais ajustado às diversas realidades da América Latina. A revisão e superação de determinados paradigmas é essencial, considerando-se a necessidade de criação de novos museus e de reformulação dos já existentes, tornando-os instituições relevantes para a cidadania. A Museologia e o museu têm uma importância central no contextos de reconstrução das nações, na busca de um mundo livre e equitativo. Para tanto, torna-se necessária a formulação de novas diretrizes, à luz dos conhecimentos historicamente acumulados, no sentido de utilizar  o patrimônio cultural como um referencial para o exercício da cidadania e  desenvolvimento social, por meio do processo educativo.

 

Buscando atingir o objetivo acima proposto, estamos buscando uma preservação, que está sendo efetivada,  considerando os fenômenos sociais em sua “dinâmica real”, interpretando-os em sua origem, vigência e transformação (SANTOS, 1995 ). Nesse sentido, estão sendo  levadas em conta, sobretudo, as características dos diversos grupos sociais envolvidos no processo, considerando-se, principalmente, as diversidades culturais - as diferentes maneiras humanas de ser, de estar no mundo, de viver, de valorar e de se expressar por meio de diversas linguagens. Para esse  fazer museológico, apoiamo-nos na concepção antropológica de patrimônio, ou seja, todas as manifestações humanas, inclusive a quotidianidade, não mais admitindo os limites estéticos que antes lhe eram impostos, entendendo, também, a cultura em uma concepção ergótica e processual, como tão bem enfatiza Bosi (1982, p.39):

 

A cultura como ação e trabalho. Se a cultura é uma soma de objetos que as pessoas têm ou herdam, as pessoas ricas a têm e as pessoas pobres não a têm. A cultura dos pobres seria um nada, eles precisariam obter aqueles bens para serem cultos. O que é oposto à idéia de trabalho, porque nesta todos têm acesso à cultura: não se trata mais de um problema de classe, o ser humano será culto se ele trabalhar, e é a  partir do trabalho que se formará a cultura. É o processo e não a aquisição do objeto final que interessa.

 

Para analisarmos o contexto urbano como objeto museológico - portanto passível de ser musealizado, e no qual, a maioria dos museus está inserido - é necessário definirmos a cidade como forma, como lugar de forças sociais, como imagem; a cidade como artefato, coisa feita, fabricada pelo homem, segmento do universo material socialmente apropriado pelo homem. Meneses (1985, p.199), ao definir a cidade como um artefato, registra que todo artefato é, ao mesmo tempo, produto e vetor de relações sociais. Sendo assim, a cidade é também lugar onde agem forças múltiplas: produtivas, territoriais, de formação e pressões sociais, etc. Entretanto, para o referido autor, estas duas imagens, ou seja, de artefato e de lugar onde agem forças múltiplas, não esgotam a realidade da cidade, porque esta é também a sua própria imagem, que se vincula a um fato social dinâmico de produção, circulação e consumo de determinados bens urbanos. Salienta que o nível específico do fato social em causa é o das significações e dos bens simbólicos. Ao chamar a atenção para o fato de que as representações urbanas não constituem mera expressão psicológica ou espiritual nem estrito ato cognitivo, mas um dos componentes da prática social global, que inclui o universo de valores, aspirações, legitimações, e critérios de inteligibilidade, Meneses destaca que falar em simbólico urbano é falar em ideologia. Para Castells (1983, p.99), só há simbólico urbano “a partir da utilização das formas espaciais como emissoras, mediadoras e receptoras das práticas ideológicas gerais”.

 

Nesse sentido, a proposta de um museu que esteja integrado com a escola e o Bairro, deve estar voltada para a compreensão do  Bairro como forma, como lugar de ação de forças sociais e como imagem. O objeto do museu será, também, o Bairro e a sua relação com o contexto da Cidade , enquanto fenômeno que a análise científica está recuperando e interpretando; portanto, não estão sendo excluídos a cidade de hoje, o Bairro de hoje com suas contradições, pois ambos só poderão ser compreendidos dentro de uma perspectiva histórica.

 

Quanto ao acervo a ser trabalhado, pode-se identificá-lo como:

 

·         acervo institucional

·         acervo operacional.

 

O acervo institucional será formado, gradualmente, levando-se em consideração os contextos sociais e históricos que as peças documentam, levantando-se as demais referências desses contextos, considerando-se valores modestos, anônimos, sem relevância estética, ou de ineditismo. Considera-se, pois,  de vital importância, nesse sentido, toda  produção cultural que se refira ao universo do cotidiano e do trabalho. Ao acervo institucional deve ser associado, também, materiais arquivísticos e iconográficos, tais como fotografias, plantas, maquetes, depoimentos e testemunhos de várias naturezas, bem como toda a documentação urbana, coletados através de pesquisas sociológicas, históricas e antropológicas.

 

Considera-se acervo operacional, a paisagem, estruturas, monumentos, equipamentos, áreas e objetos sensíveis do tecido urbano, socialmente apropriados, percebidos não só na sua carga documental, mas na sua capacidade de alimentar as representações urbanas.

 

Em síntese, consideram-se os referenciais abaixo relacionados como norteadores das ações a serem executadas:

 

·          reconhece-se o papel ativo do sujeito que conhece e transforma a realidade;

 

·          considera-se o processo educacional como responsável pela formação do cidadão, que deve reconhecer, no seu patrimônio cultural, um referencial para o exercício da cidadania;

 

·          a ação “museu, escola e comunidade” deve se dar, a partir da construção do conhecimento em sala de aula, tomando como referencial o patrimônio cultural local (o Bairro e o Colégio), em suas dimensões de tempo e espaço, na dinâmica do processo social, e sua relação com o País e com o mundo.

 

·          a participação  comunitária é compreendida como o envolvimento dos moradores locais nas atividades que são desenvolvidas em sala de aula, no Bairro e em relação com outras comunidades, contribuindo para a construção do conhecimento, a partir das suas histórias de vida, e, ao mesmo tempo, sendo enriquecidas em interação com os diversos grupos envolvidos;

 

·          considera-se fato museal,  a qualificação da cultura em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social;

 

·          compreende-se o processo museológico como as ações de pesquisa, preservação (coleta, registro e conservação) e comunicação, tendo como referencial o fato museal;

 

·          entende-se como patrimônio cultural, a totalidade da vida, ou seja, o real na sua totalidade: material, imaterial, natural e cultural;

 

·          desenvolve-se a Museologia, com o objetivo de contribuir para uma evolução democrática das sociedades;

 

·          procura-se reconhecer o patrimônio cultural de todos os grupos sociais, utilizando-os como instrumento de educação e desenvolvimento;

 

·          busca-se uma proposta teórico-metodológica, que esteja pautada no diálogo, no argumento e em contextos interativos;

 

·          procura-se obter informações e conhecimentos selecionados, em função das diversas ações que serão desenvolvidas;

 

·          busca-se a socialização das ações museológicas de preservação, pesquisa e comunicação, aceitando que não é necessária a existência de uma coleção para que seja instalado o museu. Neste sentido, a concepção do museu é a seguinte:

  análise e reflexão sobre o patrimônio cultural, na dinâmica do processo social - produção de conhecimento - musealização do conhecimento produzido pelos  técnicos, com a participação dos sujeitos envolvidos no processo;

 

·          entende-se a função do museólogo-educador, como mediador, atuando com os membros envolvidos no processo, considerando-os donos reais do seu passado e atores do presente.

 

Enfim, a partir dos referenciais acima apontados, desenvolveu-se o quadro a seguir, que sintetiza o pressuposto metodológico, que embasa a ação museológica a ser desenvolvida, envolvendo o museu, a escola e a comunidade, de forma integrada:

 

Caixa de texto: RELAÇÃO ESCOLA, COMUNIDADE, PATRIMÔNIO CULTURAL
Caixa de texto: PRÁTICA SOCIAL
(qualificada como 
patrimônio cultural)
Caixa de texto: APROPRIAÇÃO-REAPROPRIAÇÃO DO PATRIMÔNIO CULTURAL PELA COMUNIDADE (processo museológico)
Caixa de texto: CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA PRÁTICA SOCIAL ( escola e comunidade- patrimônio cultural enriquecido na dinâmica do processo social)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

Com o objetivo de apresentar algumas ações concretas, que foram realizadas, tendo como base os referenciais acima apresentados, destacamos, como estudo de caso, três programas executados nos últimos três anos, com a participação de alunos e professores do 10 e 20 Graus, do Curso de Museologia da UFBA e de membros da Comunidade do Bairro de Itapuã.

 

Após a descrição dos mesmos, no item seguinte, tentaremos, dentro do possível, e considerando as nossas limitações, destacar alguns pontos resultantes do processo de ação e reflexão, ao longo do nosso caminhar e que acreditamos possam contribuir para a organização e funcionamento dos museus, para a construção do conhecimento nas áreas da Museologia e da educação.

 

 

 

 

 3 - INTEGRANDO MUSEU, ESCOLA E COMUNIDADE: relatando 

      três programas,  envolvendo diferentes níveis de ensino.

 

 

Os diversos programas que passamos a narrar, foram desenvolvidos pelos Setores de 10 e 20 Graus e de Comunidade, do  Museu Didático-Comunitário de Itapuã - MDCI, situado no Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, Museu este implantado por meio de uma parceria entre o Curso de Museologia da UFBA e o Instituto Anísio Teixeira e originado em nosso projeto de doutorado.

 

1a programação - “A Escola na Feira”:

 

Esta atividade foi desenvolvida na disciplina Educação Artística, com a 5a série do 1o grau, tendo sido desenvolvida em 1994, e encontra-se registrada, em detalhes, em nossa tese de doutorado.  O tema selecionado foi o conteúdo da 3a unidade, “Cores e Monocromia”, e teve a participação da Profa. da Disciplina, Rita Pimentel, dos componentes do Núcleo Básico do Museu Didático-Comunitário de Itapuã, dos alunos da disciplina, dos comerciantes da Feira de Itapuã e  moradores do Bairro. As atividades foram desenvolvidas na Feira do Bairro e na sala de aula, tendo sido realizada, com os seguintes objetivos:

 

Geral:

Desenvolver atividades didáticas relacionadas com a realidade dos alunos, enfocando-a como um patrimônio cultural.

 

 

Específicos:

a)    desenvolver a percepção visual, através da observação;

b)    situar a Feira de Itapuã no contexto do Bairro de Itapuã;

c)    fixar o conceito de monocromia através da comparação de cores;

d)    perceber a utilização de figuras geométricas na constituição das barracas e arrumação da Feira;

e)    refletir sobre a Feira, enquanto patrimônio cultural, a partir dos dados coletados;

f)     coletar dados sobre a Feira de Itapuã, em suas diversas trajetórias, a partir da história de vida dos Feirantes;

g)    aproximar o Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior da comunidade onde está inserido;

h)    divulgar o Museu Didático-Comunitário de Itapuã;

i) musealizar o conhecimento produzido através das ações desenvolvidas.

 

 

 

Desenvolvimento da Programação:

 

Fase preparatória:

 

·        apresentação da proposta aos alunos, com coleta de sugestões;

·        incorporação das sugestões dos alunos à programação;

·        divisão do grupo em equipes, de acordo com os diversos Setores da Feira de Itapuã;

·        visita da Profa. Rosana Nascimento, do curso de Museologia, que atua no Setor de Documentação do MDCI),  à sala de aula, com o objetivo de apresentar os instrumentos para coleta de dados (roteiro de entrevistas e  termo de doação), explicando os procedimentos necessários à aplicação dos mesmos;

·        elaboração do roteiro de visitas à Feira, de acordo com os conteúdos a serem trabalhados;

·        ida da coordenadora do projeto, da Profa. Rita de Cássia S. Pimentel, dos Coordenadores dos Setores do 1o Grau e de Comunidade do MDCI, à Feira de Itapuã, para apresentar aos Feirantes a proposta de trabalho e conseguir a permissão dos mesmos para a realização da programação.

 

Trabalhando na Feira:

 

Após a realização das atividades programadas na fase preparatória, os alunos foram conduzidos à Feira, portando os roteiros de entrevistas preparados em sala de aula, contendo questões a respeito da História da Feira, do trabalho dos Feirantes e das condições atuais da Feira. Foram acompanhados pela Professora de Educação Artística e do estagiário do Curso de Museologia,  Guelson da Costa Cerqueira, responsável, naquele momento, pelo Setor de Comunidade. Nesse primeiro dia, as equipes trabalharam no Mercado de Peixes e na parte fixa da Feira, realizando as entrevistas. Os Feirantes foram muito receptivos, fato que levou o grupo a prosseguir com muito entusiasmo.

 

Na semana seguinte, os alunos voltaram à Feira, desta feita trabalhando nos Setores de confecções e materiais diversos e na Feira móvel. Além de responderem às questões contidas nos roteiros de entrevistas, os Feirantes narravam os diversos problemas existentes, tais como falta de água, falhas na distribuição do espaço, falta de incentivo e dificuldades com a energia elétrica. À medida que o grupo percorria a Feira, a professora os orientava no sentido de observarem a ocupação dos espaços, as cores, a arrumação das barracas e as figuras geométricas na composição das mesmas.

 

Após a coleta de dados, nas aulas seguintes, foi realizado o levantamento das informações coletadas, por equipe, e, com a orientação da professora, os alunos construíram textos sobre a Feira, abordando os diversos aspectos pesquisados. À medida  que os dados eram analisados, a professora abordava os diversos aspectos pesquisados, interpretando-os como produto do trabalho do homem, como um fazer cultural.

 

Foi solicitado, em seguida, a cada equipe, que escolhesse uma técnica para apresentar o conhecimento produzido, a partir das informações coletadas, aplicando, também, os conteúdos sobre figuras, sólidos geométricos e  monocromia. Os alunos confeccionaram desenhos, uma história em quadrinhos e produziram uma dramatização sobre a Feira .

 

As atividades em sala de aula foram acompanhadas pela responsável pelo Setor de 1o Grau do MDCI, Simone Maria de Jesus. Todo o processo foi documentado, em fotos  coloridas e em preto e branco.

 

Divulgando o MDCI  e o conhecimento produzido e entre os Feirantes e moradores de Itapuã:

 

Com o objetivo de apresentar,  à comunidade de Itapuã e aos Feirantes, os resultados do trabalho produzido, foi planejada uma exposição, na Praça Dorival Caymmi, com a participação dos alunos, da professora de Educação Artística, dos componentes dos  Setores de Exposição de 1o Grau, de Comunidade e da Coordenadora do MDCI, que foi intitulada: “A  ESCOLA NA FEIRA”.

 

Divulgação e Mobilização da Comunidade:

 

O Setor de Comunidade do MDCI  preparou um texto para ser distribuído nas instituições do Bairro (escolas, clubes, igrejas, associações, etc.), no comércio local e na Feira . Na semana anterior à exposição, foi realizada a distribuição do texto pelos componentes do Setor, que ao entregá-lo, reforçavam o convite, confirmando o dia e local da exposição. O mesmo texto foi distribuído em todas as salas de aula do Colégio, nos três turnos, com todos os professores e funcionários, e também  afixado nos diversos estabelecimentos comerciais do Bairro.

 

Com o objetivo de motivar os transeuntes e os moradores a participarem da exposição, foram programadas apresentações da dramatização, preparada pelos alunos da 5a série, na Praça Dorival Caymmi, bem como de uma banda de um grupo de jovens da comunidade, da qual fazem parte alunos do Colégio Lomanto Júnior.

 

Preparando e montando a exposição:  

 

O projeto da exposição foi apresentado e discutido por todo o Núcleo Básico do Museu, sendo que, na semana anterior à montagem, os componentes dos diversos Setores se envolveram com a programação, participando das equipes de preparação da exposição, divulgação, montagem e monitoria da exposição. A Coordenadora do Projeto, juntamente com o Prof. Ives Quaglia, visitou o local visualizado para a montagem da exposição, definindo os pontos para fixação dos barrotes e a disposição dos diversos núcleos.

 

Foi escolhido  um sábado, para a apresentação da exposição, por ser o dia de maior movimentação na Feira. Às sete horas, as equipes estavam no Colégio para transportar o material até à Praça. Cada equipe encarregou-se de uma etapa dos trabalhos, sendo que os alunos da 5a série também estavam no local, desde cedo, tendo participado de todo o processo de montagem. A exposição foi montada segundo o planejamento executado. À medida  que os transeuntes iam passando em direção à Feira, paravam, curiosos, e observavam o processo de montagem. Alguns moradores, ex-alunos do Colégio Lomanto Júnior, deram depoimentos, que foram gravados em vídeo, para o acervo do MDCI.

 

Os alunos da 5a série, juntamente com a Profa. Rita  Pimentel, organizaram o cenário para a apresentação da dramatização, reconstituindo uma pequena Feira, com frutas, verduras e  mariscos, colocados em cestos confeccionados com jornal e  colocados em frente à exposição, sendo que as frutas e verduras foram colocadas em cima de carteiras utilizadas  na sala de aula, proporcionando uma integração entre o cenário da peça e o tema da exposição.

 

Os componentes das equipes percorreram a Feira convidando os Feirantes para visitarem a exposição, e a Coordenadora do Projeto, juntamente com o Prof. Ives Quaglia, que é morador do Bairro, acompanhados de alguns componentes do Setor de Comunidade, visitaram as casas comerciais e os Feirantes, distribuindo o Jornal do Colégio, que estava sendo lançado naquele dia, com o patrocínio de alguns comerciantes locais. Durante a distribuição dos jornais, foram tomados depoimentos, gravados em vídeo, oportunidade em que os Feirantes, comerciantes e moradores registraram  a importância da realização de trabalhos conjuntos com a Escola.

 

Às 10h, os alunos apresentaram a dramatização, no centro da Feira,  chamando a atenção de todos que circulavam pelo local. O texto apresentava os problemas detectados através das entrevistas realizadas e apontava a organização e mobilização dos Feirantes como ponto de partida para a solução dos mesmos. Houve uma grande movimentação no sentido de observar a apresentação, e os alunos retornaram ao local da exposição, gritando e convidando a todos para visitá-la. Ao chegarem à Praça Dorival Caimmy, espontaneamente, iniciaram um samba de roda, mobilizando as pessoas que circulavam no local.

 

No período da tarde, houve a apresentação da banda, envolvendo professores, alunos, a equipe do Museu, transeuntes e turistas, no ritmo contagiante da “axé music”.

 

A exposição foi desmontada às 18h, com a participação de toda a equipe.

 

Durante todo o dia, houve uma boa participação dos professores dos diversos cursos do Colégio Lomanto Júnior e do seu Vice-diretor. Foram gravados depoimentos dos mesmos, a respeito dos programas que o MDCI vem realizando no Colégio, junto com a comunidade.

 

Classificando e documentando o conhecimento produzido:

 

R, responsável pelo Setor do 1º Grau, recolheu todo o material produzido no desenrolar da programação, como fotos, textos e entrevistas, organizando em pastas, para em seguida, com a orientação da Coordenadora do Setor de Documentação, Profa. Rosana Nascimento, realizar o processo documental, incorporando o acervo ao banco de dados, colocando-o à disposição dos usuários.

 

2a  Programação:

 

“Releitura da Exposição Labirinto da Moda”

 

Esta programação foi executada no período de setembro a novembro de 1996, tendo sido planejada pelo Setor de 20 Grau do Museu Didático-Comunitário de Itapuã, pretendendo, além de outros objetivos, atingir uma das metas definidas para o Museu, em 96, que foi: “Manter Intercâmbio com Outros Museus da Cidade do Salvador”. As atividades foram desenvolvidas com os alunos do Curso de Magistério, tendo sido realizadas, em duas etapas, sendo que a primeira foi realizada no Museu de Arte da Bahia, quando da apresentação da exposição circulante “Labirinto da Moda”,  organizada pelo Serviço Social do Comércio - SESC, de São Paulo, abordando a moda infantil, em vários períodos, e que foi apresentada no Museu de Arte da Bahia no período de 13 de agosto  a  novembro de 1996, com a realização de oficinas (confecção de roupas, tecidos em tear, renda de bilros, bonecas de pano, cortinas e um brechó para apresentação de dramatizações).

 

A segunda etapa foi realizada no Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, utilizando-se a sala de aula e o espaço do Museu.

 

DESENVOLVIMENTO DA PROGRAMAÇÃO:

 

1a etapa:

 

Fase preparatória:

 

Com o objetivo de preparar os componentes dos diversos Setores do Museu, para a realização do trabalho, foi realizada uma visita, com os mesmos, ao Museu de Arte da Bahia, quando tiveram oportunidade de visitar a exposição  “Labirinto da Moda” e participar das oficinas, com orientação dos monitores. A equipe do MDCI também teve oportunidade de visitar a exposição permanente do Museu de Arte da Bahia, ocasião em que foi realizada uma discussão sobre as diferentes categorias de museus.

 

O Setor de 20 Grau, com a participação dos professores e da Coordenação do Magistério, organizou um cronograma de visitas para todas as turmas do curso, sendo que, quando da realização das mesmas, a cada dia, dois ou três membros do MDCI acompanhavam as alunas e participavam das atividades no Museu de Arte da Bahia, chamando a atenção do grupo para a necessidade de se aproveitar o conteúdo da exposição, para a realização de atividades em sala de aula, tanto nos estágios como, posteriormente, após a conclusão do curso.

 

2a etapa:

 

Após todas as turmas do Magistério terem realizado a visita ao Museu de Arte da Bahia, a equipe do MDCI  propôs ao Prof. Ives Quaglia, responsável por ministrar a disciplina Educação Artística, no 30 ano de Magistério, realizar uma oficina, em sala de aula, com todas as turmas, com o objetivo de aproveitar os conteúdos da exposição, e, de forma criativa utilizá-lo, em sala de aula, planejando atividades, que poderiam ser utilizadas, posteriormente, como futuras professoras. As atividades também objetivavam apresentar, a todo o Colégio, os resultados das reflexões realizadas a partir da visita à exposição “Labirinto da Moda”. Todas as atividades foram acompanhadas pelos componentes do Setor de 20 Grau do MDCI, sendo que o material produzido deveria ser apresentado em uma exposição, a ser montada no espaço do MDCI, com a participação das alunas.

 

Desenvolvendo as oficinas:

 

A proposta de trabalho foi apresentada às diversas turmas, quando os alunos a discutiram e sugeriram os temas e a metodologia que seria utilizada. Cada turma foi dividida em equipes, tendo-se desenvolvido as seguintes atividades:

 

Equipes 1 e 2:

Elaboração de uma estória, escolhendo a faixa etária e a série dos alunos. Confecção de bonecas de pano, correspondentes aos personagens da estória.

 

Equipe 3:

Elaboração de uma estória e confecção de fantoches, para ilustrar a mesma. Preparação dos cenários para apresentação.

 

Equipe 4:

Confecção de cortinas, utilizando retalhos de pano, canudos, fitas, tubos de linha, tampas de garrafa, etc. Cada equipe confeccionou duas cortinas.

 

Equipe 5:

Responsável pela divulgação da exposição. Preparação de cartazes, convites e faixa.

O material utilizado foi coletado em casa, pelas alunas, e também fornecido pelo Museu.

A equipe do Museu decidiu estender, também, a atividade de confecção de bonecas de pano aos alunos do 10 Grau.

 

Divulgando e Montando  a exposição:

 

Os cartazes foram afixados no Colégio e em outras instituições do Bairro, tendo sido colocada uma faixa, na rua principal, em frente ao Colégio. Os convites foram distribuídos com os alunos das diversas turmas e cursos, bem como entre os professores.

 

Os alunos deram o título “Um Dia Fomos Criados, Hoje Vamos Criar”, à exposição, que foi montada no  espaço do Museu, com a participação de todas as equipes e dos componentes dos Setores do MDCI, especialmente do Setores de 20 Grau e Exposição e Programação Visual. Durante a abertura os alunos foram convidados a assistir ao teatro de fantoches, tendo havido uma grande participação dos estudantes do 10 Grau.

 

A exposição ficou  montada durante 10 dias, tendo sido visitada pelos alunos das diversas turmas e turnos.

 

Avaliando o processo:

 

Foi realizada uma reunião, com as turmas que participaram das oficinas e da montagem da exposição, oportunidade em que os alunos analisaram a experiência vivida, ao tempo em que a equipe do Museu enfatizava aspectos considerados importantes para a formação do professor, tais como  incentivo à criatividade,  e a utilização do patrimônio cultural como um referencial para o desenvolvimento das atividades pedagógicas, destacando-se, também, a importância dos museus nesse processo, realizando uma análise das ações desenvolvidas no Museu de Arte da Bahia e no MDCI.

 

Ao final da reunião, os alunos  solicitaram que a exposição fosse montada, novamente, quando do início do ano letivo, para que fosse realizada a recepção aos novos alunos ingressos no Colégio, sugestão que foi aceita pela equipe do Museu. O grupo decidiu, também, que as bonecas e os fantoches confeccionados fossem doados a uma creche do Bairro, após o trabalho com os “calouros”. Ao final da reunião a equipe do Museu convidou as alunas para continuarem participando das atividades do Museu, mesmo após a conclusão do curso.

 

3a  Programação:

 

 

“A COLÔNIA DE PESCA DE ITAPUÃ: uma ação museológica participativa.”

 

Esta programação teve como objetivo desenvolver uma ação museológica, com os membros da Colônia de Pesca Z-6 de Itapuã, realizando uma reflexão conjunta com os pescadores do Bairro, no sentido de compreender a importância do seu fazer cultural, qualificando-o como patrimônio cultural, visando ao exercício da cidadania e ao desenvolvimento social.

 

A atividade foi uma proposta das alunas do Curso de Museologia da UFBA, matriculadas no segundo semestre de 1996, na disciplina Estágio Supervisionado, sob a nossa coordenação, e teve a participação dos pescadores, dos componentes do Núcleo Básico do Museu Didático-Comunitário de Itapuã, especialmente dos Setores de Conservação, Comunidade,  Exposição e Programação Visual. Vale a pena ressaltar que participam dos Setores do Museu, professores e alunos do Curso de Museologia da UFBA e do Colégio, alunos e ex-alunos do Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, que residem no Bairro e em Bairros vizinhos.

 

Fase Preparatória:

Foram realizados contatos com a diretoria da Colônia de Pesca Z-6, para apresentação da proposta de trabalho, tendo-se obtido a aceitação da mesma. Em seguida foram realizadas reuniões, da qual participaram os pescadores presentes na Colônia, tendo-se estabelecido os seguintes objetivos e metas para o projeto:

 

GERAL:

Qualificar culturalmente o trabalho exercido pelos pescadores da Colônia de Pesca Z-6, de Itapuã, desenvolvendo uma ação museológica participativa, visando ao exercício da cidadania e ao desenvolvimento social.

 

Específicos:

a)    Estabelecer uma relação entre  patrimônio cultural e natural;

b)    Identificar as expectativas dos pescadores em relação ao projeto e à ação museológica proposta;

c)    Discutir e selecionar os temas que seriam abordados;

d)    Inserir a Colônia de Pesca no contexto da Cidade do Salvador, qualificando-a como Patrimônio Cultural;

e)    Refletir com o grupo sobre o desenvolvimento das ações museológicas e adequar a sua aplicação ao contexto da Colônia;

f)     Contribuir para aumentar a auto-estima  dos participantes da Colônia de Pesca Z-6;

g)    Realizar uma ação documental com a participação dos membros da Colônia.

 

Após a definição dos objetivos, identificação das necessidades, escolha dos temas e prioridades definidas pelo grupo de pescadores, foram definidas as seguintes metas:

 

·        Realização de uma visita ao MDCI (Museu Didático-Comunitário de Itapuã)

 

·        Formação de uma equipe responsável pela execução do projeto;

 

·        Realização de um evento para a inauguração da nova sede da Colônia de Pesca;

 

·        Elaboração de um diagnóstico sobre o acervo da Colônia de Pesca;

 

·        Aplicação ou adaptação do sistema de documentação do MDCI ao acervo da Colônia de Pesca;

·        Aplicação de procedimentos de conservação ao acervo existente e coletado;

 

·        Organização de um banco de dados sobre a Colônia de Pesca Z-6

 

·        Levantamento dos Sócios da Colônia que participariam da coleta de informações  sobre a Colônia e sobre o Bairro;

 

·        Realização de entrevistas  com membros da Colônia de Pesca, transcrição das mesmas e incorporação ao banco de dados;

 

·        Realização de seminários com a participação dos membros da Colônia;

 

·        Montagem de uma exposição sobre as diversas etapas do trabalho.

 

·        Elaboração de um texto sobre a Colônia Z-6.

 

4- OPERACIONALIZAÇÃO:

 

 

·        Visita ao Museu Didático-Comunitário de Itapuã:

 

Esta atividade teve como objetivo apresentar, aos pescadores, uma ação museológica semelhante à  que seria desenvolvida com os mesmos, na Colônia.  O grupo foi reunido no auditório do Colégio, em companhia de alunos e membros dos diversos Setores, assistiram a um vídeo sobre o Museu, destacando os objetivos, metas e metodologia utilizada nas diversas programações, enfocando, também, aspectos do patrimônio cultural do Bairro, inclusive a atividade de pesca, com entrevistas de pescadores. Após a projeção do vídeo houve uma discussão do mesmo, e, em seguida, uma visita ao espaço do MDCI, com explicações sobre as exposições, o funcionamento dos diversos Setores e explicações detalhadas sobre o processo documental e a organização do banco de dados, tendo sido localizados, pelos pescadores, entrevistas de moradores conhecidos do grupo e fotos do Bairro, em diversos períodos. Também foram fornecidas informações sobre os procedimentos de conservação aplicados ao acervo. Na mesma ocasião foi realizada  uma comparação entre as ações já executadas  no MDCI e a proposta a que seria desenvolvida na Colônia. Em seguida foi formada uma comissão, com a participação dos pescadores, que deveria ser responsável pela divulgação da proposta entre os mesmos, pela coleta do acervo e acompanhamento das demais atividades.

 

 

·        Evento de Inauguração da Sede da Colônia de Pesca:

A equipe executora do projeto, juntamente com os membros do Núcleo Básico do MDCI, montou uma exposição em frente à sede da Colônia Z-6, abordando os seguintes temas:

 

- O Museu  de Itapuã;

- Objetivos e metas do  Projeto.

 

A equipe participou das diversas atividades programadas para o evento, documentando em fotografias e vídeo e realizando a monitoria da exposição.

 

·        Coleta,  Diagnóstico do Acervo e aplicação de procedimentos de conservação:

 

Foram identificados, com a ajuda dos pescadores participantes do projeto, os moradores locais e os membros da Colônia que possuíam acervos referentes à história do Bairro e da Colônia. Contatos foram mantidos, com o objetivo de apresentar os objetivos do projeto, convidá-los a participar, doando ou permitindo que os documentos fossem reproduzidos, fornecendo informações sobre os mesmos e participando das atividades programadas.

 

À medida  que o acervo foi sendo coletado, foi realizada uma seleção, por tema, e, em seguida,  aplicados os procedimentos adequados à limpeza e conservação dos mesmos. Houve um período de treinamento da equipe, fornecido pela museóloga Gilka Santana, que já havia ministrado dois cursos de conservação de papel e fotografia à equipe do MDCI, do qual participou, também, a secretária da Colônia. O acervo da Colônia foi enriquecido com fotografias e outros documentos, como o original do estatuto, registros de inscrição, recibos, etc. Os documentos foram duplicados, inclusive as fotografias, e inseridos, também, no banco de dados do MDCI.

 

·        Pesquisa sobre a História da Colônia e do Bairro de Itapuã:

 

Com a participação dos pescadores, foi elaborada uma relação, com os endereços dos membros da Colônia, que poderiam fornecer informações sobre a história do Bairro e da Colônia, eliminando-se as pessoas que já haviam sido entrevistadas pela equipe do MDCI, evitando-se duplicidade de informações e perda de tempo. Contatos foram feitos com as  pessoas identificadas, quando foram apresentados os objetivos do Projeto, convidando-os a participar do mesmo e solicitando  autorização para a entrevista.

 

Para realização das entrevistas, foram utilizados os instrumentos já elaborados pelo MDCI, como termos de doação e roteiro de entrevistas, que foram gravadas,  transcritas e incorporadas ao banco de dados do Museu e da Colônia. Foi realizado, também, um levantamento bibliográfico sobre a pesca no Brasil e na Bahia.

 

Tomando como referencial os dados coletados, foi elaborado um texto sobre a pesca e sobre a Colônia Z-6.

 

·        Desenvolvimento da ação documental:

 

Após o levantamento do acervo, foi definida  uma divisão por tema e subtemas, pata atender às necessidades do trabalho que seria desenvolvido com os membros da Colônia, sendo que os temas deveriam ser ampliados durante o processo, a partir das doações  e das pesquisas que fossem sendo realizadas. O acervo foi classificado por tema,  cada um recebeu um associado a uma cor de identificação, a saber:

 

·               FOTOGRAFIAS - amarela;

·               HISTÓRIA DA COLÔNIA - azul;

·               ENTREVISTAS - rosa;

·               SÓCIOS DA COLÔNIA - verde;

·               EVENTOS - vermelho;

·               PROJETOS - branco.

 

Todas as etapas do projeto foram registradas em fotografias em  preto e branco e coloridas, as quais foram  incorporadas ao banco de dados do MDCI e da Colônia.

 

·        Discutindo os  Conceitos de Cultura e Patrimônio Cultural:

 

À medida  que as ações de pesquisa, documentação e preservação foram sendo realizadas, foram sendo discutidos, os conceitos de  cultura, patrimônio cultural e cidadania, tomando-se como referencial a experiência e a história de vida dos componentes da Colônia de Pesca. Foi impossível realizar seminários, nos moldes acadêmicos, uma vez que os pescadores não têm um horário fixo de trabalho e, não estão acostumados a esse tipo de atividade, além de que possuírem um ritmo próprio de organizar seus horários e atividades.

Houve o desenvolvimento de uma atividade no mar, com a participação de toda a equipe responsável pelo projeto, quando foi realizado um mapeamento dos marcos existentes na Cidade do Salvador, que são considerados, pelos pescadores, como pontos referenciais para localização dos pesqueiros. A identificação, com nomes específicos, aos marcos referenciais e a cada pesqueiro, é uma tradição que vem sendo transmitida de uma geração a outra, bem como a  localização dos mesmos. Essa atividade foi desenvolvida durante uma manhã, e, à medida  que os pescadores iam mostrando detalhes da embarcação, e da prática da pesca, a equipe fazia a relação com os conceitos de cultura e patrimônio cultural.

 

Os componentes da equipe também participaram de alguns eventos tradicionais do Bairro, dos quais os pescadores participam ativamente, como a Procissão de 10 de Janeiro, organizada pela Igreja local, em que houve participação na decoração do andor e da Festa de Iemanjá, organizada pela própria Colônia.

 

 

·        Montagem de uma Exposição sobre o Projeto:

 

No mês de janeiro de 1997, ao final das atividades do Estágio Supervisionado, das alunas do Curso de Museologia, foi montada uma exposição na Colônia de Pesca, à beira da praia, da qual os pescadores participaram, na montagem e na monitoria. Optou-se por apresentar o mínimo de texto possível. Foi apresentado todo o processo desenvolvido e os resultados já alcançados, utilizando-se fotografias, de todas as etapas do trabalho, e gravuras, relacionadas ao fazer cotidiano dos pescadores. As informações foram afixadas em redes e tarrafas, devidamente preparadas pelos pescadores, que, com bastante entusiasmo, apontavam soluções para a montagem da exposição.

 

Foi escolhido, para realização da exposição, um dia de domingo, devido ao grande número de pessoas que freqüentam o Bairro,  para o banho de mar. Durante todo o dia, as pessoas, em traje de banho, inclusive os vendedores ambulantes, olhavam a exposição e liam um texto resumido, sobre os objetivos do trabalho, que foi preparado para ser distribuído naquela ocasião. Observou-se, também, a visita de moradores locais e de familiares dos pescadores, que ali estiveram, a convite dos mesmos.

 

As estagiárias do Curso de Museologia elaboraram relatórios das atividades desenvolvidas, que foram incorporados aos bancos de dados da Colônia e do Museu Didático-Comunitário de Itapuã.

 

Com o início do ano letivo de 1996 no Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, pretende-se desenvolver uma programação, cujo tema será a atividade pesqueira no Bairro, da qual deverão participar os alunos do 1o e do 2o Graus, quando deverá ser montada a mesma exposição na Escola, com a participação dos pescadores.  

 

 

4 - O MUSEU, A ESCOLA E A COMUNIDADE: contribuições ao processo museológico e à educação.

 

 

Os referenciais apontados no item 2 do presente trabalho permitiram traçar uma concepção básica inicial, que foi o ponto de partida, no sentido de nortear as programações descritas no item anterior. Entretanto, houve o entendimento de que não seriam aplicados como uma receita pronta, mesmo porque, o que se pretendia era uma interação com os diversos grupos participantes das ações executadas. À medida que os programas foram sendo executados, a concepção básica inicial deixou de ser domínio somente da Coordenadora, tomando características próprias, ao longo do caminhar, tendo sido,  portanto, enriquecidas no processo. Portanto, é necessário, neste momento, realizar uma reflexão, buscando apontar as possíveis contribuições, ao processo de integração entre o Museu, a Escola e a Comunidade. É necessário esclarecer que, embora  os três programas tomados como estudo de caso, tenham sido realizados em um museu didático-comunitário, e mesmo considerando as especificidades dessa instituição, acreditamos que as ações ali desenvolvidas possam servir como referencial para qualquer categoria de museu, desde que se realizem as  reduções necessárias, no sentido de adaptá-las a outras realidades. Acreditamos que os programas dos museus são o resultado da concepção de museologia e de museu, assumidas por aqueles que atuam nas instituições museais, e que por meio da sua atuação, no interior ou fora da instituição, podem alimentar a teoria museológica,  e, consequentemente,   provocar a necessária transformação no museu. A instituição “museu não é um dado pronto, acabado. É o resultado das ações humanas que o estão construindo ou reconstruindo a cada momento; portanto, é prática social, é parte do patrimônio cultural. A museologia é processo. A ação museológica pode anteceder-se à existência objetiva do museu. Pode gerar, ou  não, o museu. O museu pode ser o resultado dos avanços da construção do conhecimento, na Museologia, em vários momentos históricos, e, portanto, em estreita  relação com a teoria museológica. Passemos, pois, a alguns resultados alcançados, provenientes de uma ação museológica, que teve, como suporte, a prática social, qualificada como patrimônio cultural:

 

·        Foi possível uma rede de interação de recursos educativos,  integrando os mesmos a objetivos comuns, tornando a escola um sistema aberto, em contínua comunicação com o meio, o que demonstra não existir uma dicotomia entre educação formal e não-formal. As vivências dos Feirantes, dos pescadores e dos próprios alunos foram consideradas como exemplos de superação de problemas, cujas soluções foram analisadas como elementos de aprendizagem. Os resultados obtidos confirmam, portanto, que é possível enriquecer a Pedagogia e a Museologia, com a participação de milhares de sujeitos que estão fora da escola, e que, constantemente, encontram soluções criativas para a solução dos problemas que são enfrentados no cotidiano. Entretanto, para que essa troca efetiva seja realizada, torna-se necessário que o museólogo, o pedagogo ou qualquer outro profissional, que venha a desenvolver uma ação efetiva entre o Museu, a Escola e a Comunidade, desça do seu pedestal de dono do conhecimento, tornando-se um mediador, um professor-aluno, que enriquece e é enriquecido;

 

·        Os recursos e fontes potenciais da comunidade e da Cidade do Salvador, foram utilizados em um processo contínuo de aprendizagem de jovens e adultos, tendo sido possível, também, compreender que, qualquer museu, independentemente da sua categoria e localização, pode trabalhar com os acervos institucional e operacional;

 

·        Os sujeitos envolvidos nas três programações tiveram a oportunidade de agir, de forma participativa e criativa, contribuindo, efetivamente, para a melhoria da qualidade do ensino e para a construção do conhecimento;

 

·        Foi possível aos participantes traçarem suas próprias experiências, enriquecendo as ações museológicas, apontando para a solução de problemas, muitas vezes insolúveis, no interior da academia, presa a cânones e a “padrões museológicos” alheios à nossa realidade. As montagens das exposições, por exemplo, foram realizadas de forma extremamente simples, considerando-se as reais possibilidades oferecidas, em termos de materiais e espaço, e, sobretudo, privilegiando a participação dos sujeitos envolvidos nas ações que as originaram. Desta forma, as regras tradicionais da Museografia tiveram que ser substituídas pelo “fazer possível e criativo”. O que se privilegiou não foi a exposição, enquanto produto estético, pronto, acabado, elaborado pelo técnico, mas as possibilidades de socialização e o desenvolvimento de atitudes de cooperação, organização e solução de problemas, de forma criativa. Não tivemos nenhum pudor em quebrar as regras  aprendidas na academia.

 

·        Do processo de construção do conhecimento é que foi realizada a musealização, processada a partir da prática social (na Escola e no Bairro), na sua dinâmica real, ou seja no processo social, em interação, considerando-se as suas dimensões de tempo e espaço, abordando a cultura de forma integrada  às dimensões do cotidiano . A ação museológica não  objetivou a representação cultural, entendendo a cultura como um domínio à parte, em forma de eventos, ou separando os objetos das práticas culturais que lhes conferiram significado, marcada pela dissociação entre o produtor e o consumidor. Ao contrário, buscou  a qualificação da cultura, através da interação entre os técnicos e os sujeitos envolvidos no processo . Foi com o objetivo de culturalizar as muitas realidades do Bairro e da escola, ampliando as suas dimensões de valor, de consciência e de sentido que as diversas ações foram desenvolvidas,  motivando a realização de novas práticas sociais. O processo  museológico  tornou possível então  a   qualificação da cultura. O cotidiano da Escola e do Bairro, qualificado  como patrimônio cultural, foi o objeto de pesquisa, o vetor de todas as ações desenvolvidas em interação com alunos, professores e moradores locais.

 

·        Buscou-se, através das diversas ações, a apropriação e reapropriação do patrimônio cultural, tornando possível ao cidadão, desde a sua formação, considerá-lo como um referencial para a construção e reconstrução da sociedade. Em se tratando do Curso de Magistério, este aspecto foi de fundamental importância, pois, ao desenvolverem programas a partir da análise da realidade, compreendida enquanto fazer cultural, os alunos vivenciaram, na prática, como planejar, organizar e avaliar programas desse teor, o que as capacitou a desenvolver ações semelhantes quando da sua prática profissional.

 

·        Foi possível constatar que, mesmo no currículo já instituído é possível adequar  os diversos conteúdos programáticos aos interesses dos alunos, tornando o ensino mais próximo da realidade, contribuindo para o processo de reflexão, análise e transformação da realidade. Por meio dos diversos programas desenvolvidos, conseguiu-se revitalizar a escola, sua relação com a comunidade e a participação efetiva no fazer cotidiano da sala de aula,  com os alunos se envolvendo  com a escola e com o seu Bairro. Por outro lado, foi possível, através do planejamento em conjunto, do acompanhamento das diversas ações, realizar com os professores e com a equipe de Museologia um treinamento em serviço, no cotidiano da escola, utilizando o fazer cultural local como referencial, sem retirar os docentes  da sala de aula.

 

·        Foi possível realizar um intercâmbio bastante produtivo entre um museu da Escola e do Bairro, e um museu de Arte, localizado no Centro da Cidade, fato que tornou possível, por parte do grupo envolvido na programação,  compreender que  existem  diferentes categorias de museus, sendo possível, portanto a interação entre os mesmos, contribuindo para a formação do cidadão e para o desenvolvimento social;

 

·        Por meio das ações museológicas integradas à prática de ensino do 1o e 2o Graus, viabilizou-se a participação de estagiários do Curso de Museologia, realizando uma prática museológica,  com base na participação e  na interação com os diversos participantes, produzindo conhecimento a partir dos referenciais da nossa realidade. Por meio dos programas desenvolvidos, foi possível, também, divulgar e ampliar a atuação da Universidade Federal da Bahia (Curso de Museologia), integrando-a à comunidade onde está inserida,  não como entidade superior que leva o conhecimento produzido na academia, mas aberta ao diálogo e à troca, deixando-se enriquecer e possibilitando também um enriquecimento dos demais cursos participantes das programações.

 

Como ressaltamos, no início deste texto,  não pretendemos que as reflexões aqui apresentadas sejam definitivas, prontas, acabadas, esperamos que sejam um incentivo ao debate. Por outro lado, salientamos que, com os resultados acima apresentados não almejamos  uma neutralidade absoluta, apagando as marcas da nossa implicação, em nosso objeto de estudo. Assim como na minha tese de doutorado, me incluo, também na análise que aqui foi realizada, registrando que, mesmo após a conclusão do meu curso de pós-graduação, a minha atuação no MDCI, tem sido, para min, uma fonte infinita de conhecimento e crescimento pessoal. Reforço, mais uma vez, que tem sido um encontro de ação, pensamento, desejo, prazer, paixão e sonho. O que não exclui, naturalmente, as dificuldades. A nossa luta no sentido de integrar o Museu, a Escola e a Comunidade, tem sido permeada por muitas “pedras no meio do caminho”. Transpo-las, tem sido um grande aprendizado, um desafio constante, na busca da melhoria da qualidade do ensino e de uma Museologia mais ajustada à realidade da América Latina.

 

5 - BIBLIOGRAFIA

 

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Vianna, Ilca Oliveira de Almeida. Planejamento Participativo na Escola: um desafio ao educador. São Paulo: EPU, 1986

 

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CAPÍTULO III

PROCESSO MUSEOLÓGICO: critérios de exclusão[4]

        

1- Introdução

 Nos últimos anos, as reflexões em torno da construção do conhecimento, na área da museologia têm aumentado consideravelmente,  permitindo-nos lançar vários olhares sobre as nossas ações, e, consequentemente, nos capacitando a  estabelecer um debate  mais amplo, em torno do nosso campo de atuação, diminuindo a nossa exclusão no meio acadêmico – museólogos  reprodutores do conhecimento produzido em outras áreas.

 

No presente trabalho, abordaremos algumas questões relacionadas ao processo museológico, tomando como referencial vários estudos  sobre o  tema, que, devido ao tempo destinado à presente mesa-redonda, não poderiam ser reapresentados para discussão, mesmo porque, em publicação de nossa autoria, intitulada “Processo Museológico e Educação: construindo um museu didático-Comunitário”, destinamos um capítulo a essa abordagem. Optamos por fazer uma reflexão sobre a exclusão, olhando para o interior da instituição museu e para a aplicação dos processos museológicos; ou seja, realizando uma autocrítica, na qual me incluo, efetuando uma análise, que será aqui debatida, considerando, também, que os museus e as práticas museológicas estão em relação com as demais práticas sociais globais,  portanto, são  o resultado das relações humanas, em cada momento histórico.

 

Por fim, com base na experiência vivida, daremos continuidade ao nosso processo de reflexão, destacando a importância da produção do conhecimento, para a área da museologia, e a relevância da relação teoria-prática, pontuando alguns aspectos que consideramos possam vir a contribuir para a construção de uma ação museológica que seja elaboração histórica na conquista de um espaço de autodeterminação.

 

 

2- Processo Museológico: uma ação de exclusão?

 

 

A análise do processo museológico pressupõe a explicitação de que a sua aplicação se dá em contextos, os mais diferenciados, na relação do homem com o mundo; portanto, esse processo está impregnado, marcado, pelos resultados da própria ação, imerso na realidade concreta, cultural, na qual estão inseridos os sujeitos sociais; assim, a aplicação das ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação, a partir da qualificação do fazer cultural, está condicionada histórico-socialmente.

 

A relação entre o processo museológico e exclusão,  não pode ser entendida de forma dissociada da tentativa de uma aproximação com uma visão real da sociedade como uma construção histórica trespassada por conflitos, antagonismos e lutas, em que  a questão do poder está sempre presente, exigindo ser equacionada e socializada. A relação museu-sociedade tem sido evidenciada pela atuação de técnicos que cumprem, bem ou mal, a política cultural estabelecida pelo sistema vigente, por meio do atendimento a metas e objetivos propostos por determinados segmentos, e que trazem, no seu bojo, na maioria das vezes, a ausência de uma ação comprometida com o desenvolvimento social, ou, quando muito, especificam metas e diretrizes que traduzem uma preocupação com uma aproximação maior entre as instituições museais e os anseios da sociedade, permanecendo, em geral, no papel, devido às diversas barreiras que  inviabilizam a sua execução.

 

Falar de exclusão é falar de desigualdades sociais, tema por demais discutido e aprofundado por vários autores, o que nos isenta da responsabilidade de discuti-lo, em profundidade, mesmo porque não teríamos a competência necessária para fazê-lo. Estamos buscando, a partir da produção bibliográfica existente, alguns suportes necessários para a relação  com o nosso campo de atuação - a museologia.

 

Nesse sentido, apropriei-me da categoria pobreza, analisada por Pedro Demo (1996),  como sinônimo de desigualdade social, quando analisa o bem-estar social, buscando lançar um olhar crítico, de avaliação das nossas ações. O autor chama a atenção para o fato de que pobreza não se restringe ao problema da carência material, percebido através da fome, sobretudo. Salienta que se observarmos bem, a nossa visão de pobreza é muito “pobre”. De um lado, ficamos apenas com a manifestação física, material, deixando de lado a “pobreza de espírito”. De outro, enfatiza, ainda, ignoramos aquilo que é marcadamente o cerne da pobreza; o fundo político da marginalização opressiva. Pobreza, define Demo: “É o processo de repressão do acesso às vantagens sociais”. Prosseguindo, distingue dois horizontes mais típicos da pobreza: pobreza sócio-econômica e pobreza política, chamando a atenção para o fato de uma estar relacionada à outra. O autor caracteriza a pobreza sócio-econômica como a carência material imposta, traduzida na precariedade comumente reconhecida do bem-estar social: fome, favela, desemprego, mortalidade infantil, doença, etc., destacando que esse horizonte é mais pesquisado, possuindo as vantagens metodológicas utilizadas nos trâmites acadêmicos do tipo “indicadores sociais”, porque são quantificáveis. Por pobreza política,  caracteriza a dificuldade histórica de o pobre superar a condição de objeto manipulado, para atingir a de sujeito consciente e organizado em torno de seus interesses. Destaca que a pobreza política se manifesta na dimensão da qualidade, apesar de estar, também, condicionada pelas carências materiais, mas sem se reduzir a essas, o que aponta para o déficit de cidadania. Como qualidade política não se mede, chama a atenção para  o fato de que esse horizonte é menos estudado  devido às dificuldades metodológicas para sua mensuração, e, que, por outro lado, há sempre a intervenção do Estado que tem dificuldade de entender que nem sempre a política social deve ser estatal. Enfatiza que é politicamente pobre o povo que é massa de manobra, ou seja, não é propriamente povo, mas objeto de manipulação das oligarquias, e chama a atenção para o fato de que, mais do que nunca, a superação da pobreza política só pode ser iniciativa primeira do real interessado.(o grifo é nosso).

 

Como já dedicamos algum tempo refletindo sobre  as características da política educativo-cultural brasileira, nos contextos social, político e econômico do país, analisando a sua influência  na atuação das instituições museológicas, em trabalhos já publicados (Santos, 1993, 1996), procuraremos, abordar, neste momento, a relação: Processo Museológico-exclusão, situando, inicialmente, o fazer museológico, a partir de um olhar para  dentro, ou seja, de avaliação das nossas ações, enquanto técnicos, e em interação com o outro; a exclusão, provocada por nós mesmos, em nossa pobreza política e, também, sócio-econômica; encará-las de frente, na prática cotidiana da ação museal e que irá refletir, consequentemente,  nos objetivos e metas das nossas instituições. A escolha desse enfoque está relacionada à carência, por nós constatada, de uma análise que permita caracterizar a ação social do museu a partir do seu interior. Sempre deslocamos o eixo da discussão, em torno do tema museu e sociedade, para a relação com o público, com a comunidade, esquecendo-nos que público e comunidade, também, somos nós, e que é somente  a partir de um processo de crítica e autocrítica, interna e externa,  que  poderemos assumir o nosso compromisso social.

 

Tomarei a gestão das instituições museológicas e a aplicação das ações  de pesquisa, preservação e comunicação como parâmetros para discussão do nosso problema, qual seja: processo museológico:  uma ação de exclusão? Esclarecendo, entretanto, que, para nós, a aplicação do processo museológico não está restrita à instituição museu, ele pode anteceder à existência objetiva do museu ou ser aplicado em qualquer contexto social.  Estamos assumindo, neste trabalho, a definição de fato museal como a qualificação da cultura em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social.

 

A partir desse momento, tentaremos inserir as ações museológicas no contexto da organização e gestão das instituições museais, por considerarmos que devem estar integradas aos objetivos e metas da instituição. Na organização e gestão dos nossos museus ou dos projetos desenvolvidos em nossa área, ou em relação a outras áreas do conhecimento, percebe-se que os sujeitos envolvidos são considerados como categorias estanques, onde a cada um cabe a tarefa de executar as ações previstas e pensadas por algumas “cabeças iluminadas”, pois, em geral, estão excluídos do momento da concepção, da definição dos objetivos e metas do plano diretor da instituição, se é que eles existem, ou sequer foram ouvidos e devidamente esclarecidos sobre o plano de ação a ser executado. Não há espaço para contribuição  do grupo, para troca, para o enriquecimento mútuo, para a crítica salutar, porque a nossa pobreza política não nos permite ver além dos nossos interesses e do nosso próprio umbigo. Além disso, a nossa pobreza sócio-econômica é utilizada para justificar a acomodação,  a estagnação, e a ausência de ações criativas que apontem para as soluções dos nossos problemas.

 

Das atividades de organização e gestão, são excluídas, completamente, as ações museológicas, como em um  “quebra-cabeça” mal-formulado, onde as peças nunca se encaixam, porque, também, as atividades técnicas de pesquisa, preservação e comunicação são aplicadas em compartimentos estanques, em uma completa dissociação entre meio e fim (Santos, 1996, Chagas, 1996)  ou discriminadas por “pesquisadores, cabeças pensantes e fechadas” de outras áreas, que nos consideram como meros reprodutores do conhecimento. Sendo assim, as aplicações das ações museológicas têm sido muito mais resultado da aplicação da técnica pela técnica do que resultado de um processo.

 

Nesse contexto, do ponto de vista da gestão, estão colocadas as condições para a competição desenfreada, que facilita a inclusão ou a exclusão, por meio de práticas impróprias, que a ausência de qualidade política nos faz aceitar passivamente, como, por  exemplo, a  nossa tão conhecida  “puxada de tapete”. A ausência de liderança para administrar os conflitos, identificando-os e tentando superá-los, sem os camuflar, talvez seja uma das nossas grandes carências. Imperam a desigualdade, o estrelismo, o individualismo, a falta de cooperação e a falta da visão da instituição como um todo.

 

Outro aspecto que nos parece interessante ressaltar é a falta de intercâmbio entre as instituições museológicas. A ausências de projetos integrados, mesmo entre as instituições da mesma esfera administrativa, quer seja no âmbito municipal, estadual ou federal, demonstram a falta de correlação entre os nossos acervos, que deveriam ser explorados, trabalhados por meio de uma ação transdisciplinar, que vá além das organizações internas de cada disciplina, buscando os elos indispensáveis à compreensão do mundo, na sua integridade. O nosso isolamento, marcado muitas vezes pelo preconceito, talvez seja uma das causas que impedem o crescimento do processo museológico. Não é raro, entre os profissionais da área, o uso de rótulos e de atitudes separatistas entre os adeptos da nova museologia, dos museus comunitários, dos museus “tradicionais”, o que demonstra a nossa pobreza, a nossa pequenez, e impede a troca salutar, o enriquecimento com a experiência do outro,  o incentivo à criatividade e à abertura de novos caminhos, sem ter que desprezar o conhecimento historicamente já construído. Esse processo interno de desigualdade e exclusão tem provocado, muitas vezes, o desencanto, a baixa auto-estima, a desmotivação para a busca de soluções e, até mesmo, o afastamento de profissionais das nossas instituições.

 

Comentando, ainda, o isolamento das instituições museológicas, cito um exemplo que estou vivenciando: há seis anos venho atuando em um projeto, em uma escola pública da Cidade do Salvador, cujas ações resultaram na implantação de um museu no seu interior, cujos resultados alcançados têm-nos permitido avançar em relação às questões teórico-metodológicas nas áreas da museologia e da educação. Com o objetivo de alargar os horizontes, permitindo a interação com outros processos, por iniciativa da nossa equipe, executamos  vários projetos com outras categorias de museus da nossa cidade, em que alunos e professores, de diferentes níveis de ensino, tiveram acesso, pela primeira vez, a essas instituições. Da escolha dos temas, passando pela operacionalização das ações, até a avaliação, atuamos, como provocadores,  ou seja “forçando a barra”, para que acontecesse a interação necessária com os técnicos dos outros museus, que, com raras exceções, sequer demonstram interesse em conhecer os objetivos das nossas programações.

 

Outro dado que serve de parâmetro para a nossa análise, em relação ao isolamento das nossas instituições, à redução dos seus espaços de atuação, bem como em relação ao nosso museu, é que, desde a sua implantação, até o presente momento,  nunca fomos procurados por profissionais das demais instituições museológicas da nossa cidade, com o objetivo de realizar projetos conjuntos ou para conhecer os processos por nós desenvolvidos, embora já tenham ocorrido solicitações nesse sentido, por parte de instituições do exterior e por parte de escolas de diferentes níveis, da cidade do Salvador;  o que  nos faz  concluir que essa necessidade não é sentida, nem faz parte dos objetivos e metas das instituições museológicas. Infelizmente, não há nenhum movimento nesse sentido. 

 

Tentar refletir sobre as nossas desigualdades e sobre os nossos processos de exclusão é tarefa necessária no sentido de diminuir a nossa pobreza política e a sócio-econômica. Consideramos que é quase impossível uma relação aberta com o outro, no caso, a relação do museu com os diversos segmentos da sociedade, se não encararmos de perto as nossas contradições, em um processo constante de auto-avaliação. Ingênuo seria pensar que elas não existem ou que serão exterminadas, como em um passe de mágica, a partir de uma ação isolada do técnico. Identificá-las, e nos sentirmos também público, comunidade, cidadão, em nossa opinião, é o primeiro passo. Consideramos que existem alguns caminhos a serem apontados no sentido de que cada um de nós possa construir, dentro de um contexto histórico concreto.

 

 

3- Desafios e Perspectivas

 

Acho que um dos primeiros desafios a ser considerado é tomar os pontos relevantes, apontados pelo processo de avaliação, como indicadores para a nossa ação. Nesse sentido, considero que os nossos problemas podem ser situados nos campos da qualidade formal (desafio tecnológico e instrumentação científica) e da qualidade política (desafio educacional, no sentido de conceber futuros alternativos para a sociedade). “O intelectual não vale apenas pelo que “sabe” em termos de domínio técnico, mas igualmente pelo que “vale” em termos de agente de mudança”. (Demo 1996).

 

Ao analisarmos o curso da História, percebemos que as recentes transformações internacionais são o resultado do trabalho de muitas pessoas e comunidades organizadas de diferentes contextos econômicos e culturais. Nesse sentido, Sander (1995) destaca a importância da capacidade de criação e ação humana coletiva na construção e reconstrução de perspectivas intelectuais e na adoção de soluções políticas, por meio da ação governamental e da participação cidadã, exercida desde os mais diversos cenários culturais. O referido autor chama a atenção para o fato de que esses elementos são observados, diariamente, nas organizações sociais, nas quais a intencionalidade humana e a ação organizada e concreta da sociedade política e da sociedade civil são fatores decisivos para a construção de um mundo livre e eqüitativo. Sendo assim, enfatiza que a nova matriz de poder mundial que necessitamos construir coletivamente deve suplantar, tanto a perspectiva dicotômica, quanto a visão unidimensional na política e na sociedade, cedendo lugar a uma orientação multidimensional ou multiparadigmática com crescente conteúdo cultural e uma estratégia eqüitativa de ação baseada na participação democrática.

 

No momento atual, a museologia deve sintonizar-se, em qualquer das suas correntes, com os caminhos da ciência na contemporaneidade. Sendo assim, a problematização de temas, através dos acervos, institucional e operacional, questionará, também, o sentido da ciência, contribuindo para que a própria museologia e a sua prática sejam submetidas, também, à reflexão, uma vez que os museus devem ser considerados como “locus” para a produção do conhecimento.

 

A consolidação de uma política museológica  deverá ser processada tendo como referencial um quadro teórico inerente aos museus e aos processos museais, dando lugar para que se desenvolvam as diretrizes das instituições, preservando as suas especificidades, devendo ser um suporte essencial para a exploração adequada de potenciais ainda não trabalhados.

 

Portanto, a aplicação das ações museológicas, deve estar embasada na teoria e na relação necessária entre a teoria e a prática, possibilitando que ambas sejam fortalecidas e enriquecidas. Retornamos ao conceito de fato museal, já explicitado anteriormente,  qual seja:

a qualificação da cultura em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social,

 

buscando um melhor entendimento desse conceito, já que o consideramos como o suporte essencial para o desenvolvimento do processo museológico. Salientamos, mais uma vez, que em nossa concepção, o processo museológico pode  anteceder a existência objetiva do museu, e deve ter, na pesquisa, o suporte essencial para o seu desenvolvimento. O processo de construção do conhecimento nos conduzirá, então, à musealização, processada na prática social - no interior do museu ou fora dele - em sua dinâmica real, considerando as  dimensões de tempo e espaço, abordando a cultura de forma integrada às dimensões do cotidiano, ampliando as suas dimensões de valor, de consciência e de sentido. Assim, as ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação não objetivam a representação cultural, entendendo a cultura como um domínio à parte, em forma de eventos, ou separando os objetos das práticas culturais que lhes conferiram significado, marcada pela dissociação entre o produtor e o consumidor. Neste processo, busca-se de maneira efetiva, a interação dos técnicos com os demais sujeitos envolvidos, motivando a  realização de novas práticas sociais, ou seja: a nossa proposta teórico-metodológica está pautada no diálogo, no argumento e em contextos interativos, compreendendo que o processo de comunicação permeia todas as ações museológicas, permitindo a integração e o enriquecimento, reconhecendo no patrimônio integral  um  instrumento de educação e desenvolvimento.

As ações de pesquisa, preservação e comunicação referenciadas no patrimônio cultural, não podem estar dissociadas da participação e do desenvolvimento. Sendo assim, a aplicação da técnica pela técnica está superada; pelo menos reconhecidamente superada em nossas atividades de reflexão e avaliação, embora,  na prática, ainda seja o mais recorrente.

A preservação da identidade é necessária, pois é patrimônio comunitário essencial, devendo ser o suporte essencial para o desenvolvimento. Demo (1996) ilustra a relação identidade-desenvolvimento, salientado que o índio quer sua identidade, mas também quer trator, e destaca: “identidade que cultiva a pobreza está na direção errada”. Por outro lado,  não há porque se voltar contra a cultura da elite, porque essa também é patrimônio social e histórico importante. O reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade cultural, e, consequentemente às diversas categorias de museus e aos diversos processos museais, se fazem urgentes e necessários. Trata-se de um dos desafios colocados, no sentido de diminuir as desigualdades e a exclusão.

 

Consideramos, também, que outro  desafio a ser vencido, com qualidade formal e qualidade política, é a gestão das instituições museológicas, alimentada por uma concepção, ou por várias concepções, compreendendo a construção do conhecimento como processo. Destacamos, nesse sentido, o poder realizador da teoria, tornando real os conceitos, ao passar do universo  simbólico que os concebeu ao fazer cotidiano dos envolvidos no processo. As instituições museológicas são o resultado dos avanços da construção do conhecimento na museologia, em vários momentos históricos. Compreendendo os museus como instituição, como o resultado da criação de um grupo, em constante reflexão e, consequentemente, em permanente transformação, reconhecemos que o seu processo será sempre dinâmico, no sentido da recriação.

 

Necessário, pois, se faz refletir sobre a atuação dos cursos de museologia destacando que o seu compromisso maior deva ser com o desempenho qualitativo, preparando profissionais que sejam capazes de produzir conhecimento, buscando, também, a interseção criativa de contribuições conceituais e analíticas de outras disciplinas, contribuindo com a necessária renovação dos processos museais, reconhecendo as especificidades dos diferentes contextos, adequando os procedimentos metodológicos e técnicos às diferentes realidades, com a abertura necessária para a avaliação e para a reflexão crítica.

 

Urge reconhecer a importância dos cursos de formação, no sentido de contribuir, efetivamente, para os avanços teórico-metodológicos, em nosso campo de atuação, ressaltando, entretanto, a necessidade de uma abertura maior no sentido de dotar seus currículos de conteúdos substantivamente relevantes, sem perder de vista que a sua maior missão é a político-cultural. E esse objetivo maior não pode ser alcançado somente nos espaços fechados da academia. Sirvent (1984), analisando a relação entre a educação, formal e a não-formal, sugere que é possível organizar uma ação educativa complexa, que seja resultante de uma rede de interação entre diversos recursos educativos. Não se trata de somar ou adicionar componentes isolados, mas de integrar os mesmos ao redor de objetivos educacionais comuns. Nesta rede, insere-se a educação formal ou uma redefinição de seu papel frente à comunidade e aos recursos educativos não-formais  da mesma. Sugere ainda a referida autora, que as instituições do macrossistema constituir-se-iam num sistema aberto em contínua comunicação, tanto entre si como com o meio em que estão inseridos. Infelizmente, as experiências até o momento mostram que as instituições menos flexíveis para se modificar dinamicamente neste processo são as escolares.

 

Comentando sobre a gestão democrática e sobre a qualidade da educação, Sander (1995) registra que a construção e reconstrução do conhecimento na educação e na gestão educacional, comprometida com a qualidade e a eqüidade,  implicam um grande esforço. Chama a atenção para o fato de que esse esforço assume proporções enormes na América Latina, onde seus países necessitam multiplicar, urgentemente, seus conhecimentos científicos e tecnológicos, para poder participar, ativamente, e beneficiar-se, eqüitativamente, das transformações política e econômica, sem precedentes no mundo moderno. Em trabalho realizado em 1988, Espínola analisa o que foi escrito sobre a qualidade da educação na América Latina a partir de 1980 e, dentre outros aspectos, analisa o impacto da educação em nível da estrutura social. Reconhece-se o sistema educacional como uma engrenagem a mais na estrutura social e a qualidade é avaliada em termos dos efeitos da educação no sistema social mais amplo, questionando-se o peso ou o impacto da educação na estrutura social e avaliando-se sua capacidade para produzir mudanças globais. Os estudos realizados coincidiram em três aspectos:

 

·        A qualidade dos sistemas educacionais na América Latina é deficiente;

·        É necessário realizar diagnósticos dos níveis de qualidade existentes, ou seja, avaliar a qualidade disponível;

·        A situação é tão crítica, que não é possível ater-se aos esforços de medição de qualidade, mas é preciso produzir qualidade.

 

Ao refletir sobre o processo museológico, inserindo-o nas demais práticas sociais globais, a partir de uma autocrítica das nossas vivências, objetivamos, com a análise aqui efetuada, apontar alguns caminhos para que possamos assumir o nosso compromisso social com qualidade, o que,  implica participação, imersa em nossa prática cotidiana. Demo (1994) salienta que qualidade é participação; com efeito, é conquista humana principal, tanto no sentido de ser, mais do que nunca, uma conquista - dada a dificuldade de a realizar de modo desejável - quanto no sentido de ser a mais humana imaginável - porque é, especificamente, a forma de realização humana. É a  melhor obra de arte do homem em sua história, porque a história que vale a pena é a aquela participativa, ou seja, com o teor menor possível de desigualdade, de exploração, de mercantilização, de opressão. No cerne dos desejos políticos do homem está a participação, que segmenta metas eternas de autogestão, de democracia, de liberdade, de convivência.

 

Os desafios são muitos. Entretanto, falar dos processos museais, e da sua aplicação nos diversos contextos, visando ao desenvolvimento social, sem  encarar de frente as nossas contradições, as nossas fraquezas, é uma falácia. A redução das desigualdades e, consequentemente, dos processos de exclusão, em nosso campo de atuação, está diretamente relacionada à nossa mobilização para a participação, desde que estejamos interessados em construir a participação. Só assim estaremos contribuindo para diminuir a nossa pobreza política e a nossa pobreza  sócio-econômica.

 


 

 

4- Bibliografia

 

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CAPÍTULO IV

REFLEXÕES SOBRE A NOVA MUSEOLOGIA[5]

 

 

1 – Introdução

 

 

Foi com grande satisfação que aceitei o convite para integrar o corpo docente do Curso de Especialização do MAE/USP. Acompanhei, durante anos, o esforço dos profissionais dessa instituição no sentido de instalar um Curso de Museologia, dando continuidade às ações da Profa. Waldisa Rússia, que, como pioneira, no estado de São Paulo, iniciou as reflexões em torno da produção do conhecimento na área da Museologia, no Curso instalado no Instituto de Sociologia e Política, capacitando vários profissionais, que, hoje, com empenho e profissionalismo, vêm contribuindo, de maneira significativa para o enriquecimento da Museologia em nosso País.

 

Quero destacar, em especial, o esforço da Profa. Cristina Bruno, coordenadora do Curso de Especialização do MAE/USP, que, com entusiasmo e dedicação, tem trilhado  caminhos, até certo ponto tortuosos, do mundo acadêmico abrindo espaço para uma relação necessária com outras áreas do conhecimento e, ao mesmo tempo,  produzindo e divulgando o conhecimento construído em nosso campo de atuação. Tenho certeza que o Curso de Museologia recém-instalado na USP será um espaço de reflexão e ação, onde a criatividade, a iniciativa e o desempenho dos seus professores e alunos serão responsáveis por projetos que, com certeza, contribuirão, em muito, para melhorar a atuação das instituições museológicas e para incentivar o desenvolvimento de novos processos museais, tendo como referencial o patrimônio cultural.

 

O tema proposto, ou seja, A Nova Museologia, muito me motiva . Considero o Movimento da Nova Museologia um dos momentos mais significativos da Museologia Contemporânea, por seu caráter contestador, criativo, transformador, enfim, por ser um vetor no sentido de tornar possível a execução de processos museais mais ajustados às necessidades dos cidadãos, em diferentes contextos, por meio da participação, visando ao desenvolvimento social. Por outro lado, os processos metodológicos e as técnicas utilizadas, embora em contextos os mais diversificados, trouxeram contribuições significativas para o desenvolvimento da construção do conhecimento na área da museologia, e, consequentemente, para os museus, bem como para o desenvolvimento de processos museais, desenvolvidos fora do espaço restrito do museu, como pretendo explicitar no presente trabalho.

 

Para a abordagem do tema, buscarei realizar uma reflexão a partir dos documentos básicos produzidos pelo ICOM/UNESCO, nos últimos vinte anos, bem como em trabalhos produzidos por profissionais engajados no Movimento da Nova Museologia. Ressalto que a estruturação em itens tem somente o objetivo de facilitar, para o leitor,  a compreensão do desenvolvimento das idéias. Contexto, antecedentes, princípios, metodologia e aplicação do processo em nossa realidade, estarão entrelaçados, um complementando o outro, em um contínuo, de ação e reflexão.  Em um primeiro momento, serão enfocados os antecedentes, os alicerces, as inquietações, o movimento de fora para dentro dos museus e vice-versa. Em seguida, com base nos documentos acima citados, buscarei delinear os princípios básicos e a metodologia, conceituar e apontar alguns aspectos metodológicos da Nova Museologia.

 

Entretanto, necessário se faz registrar que  a classificação Nova Museologia não pode ser evolucionista, pois a realidade social é multidimensional. A prática da Nova Museologia é humana e, consequentemente, não pode ser dissociada de experiências passadas e embrionárias. Nesse sentido, tentarei, com base nas referências analisadas, e na experiência vivida, buscar uma aproximação com a nossa realidade e apontar algumas contribuições ao processo museológico.

 

 

2- Contextualização e Antecedentes

 

 

Falar da Nova Museologia é falar de conflitos, contradições, de épocas marcadas por repressão e, ao mesmo tempo, por um acentuado processo criativo. Os anos 60 foram marcados pelo movimento artístico-cultural, que destaca o novo, com a participação da juventude, na recusa aos modelos estabelecidos, prepara o terreno, lança as sementes. O inconformismo com os esquemas comerciais e com as imposições dos meios de comunicação de massa, a crítica à sociedade de consumo, a recusa a modelos anteriores e a busca de maior liberdade temática ou de linguagem e, ainda, a intenção de provocar a desacomodação ou a desalienação, culminou com o maio francês, que,  segundo (Paes,1993, p. 30) foi o momento maior de contestação do autoritarismo da sociedade, naquele momento. O Historiador Alain Tourrain (1983, p. 85) o considera como “as últimas jornadas revolucionárias da época industrial e o prenúncio dos movimentos sociais e das lutas políticas do futuro”. Talvez possamos apontar “O Maio Francês ”como um vetor no sentido de lançar as bases necessárias para se repensar o museu e a sua relação com a sociedade, de maneira mais efetiva, por meio de ações concretas.

 

Comentando sobre o maio de 68, e sobre a revisão do conceito de patrimônio, René Rivard (1984, p.2) questiona: “seria a primeira batalha organizada contra a instituição museal?” Salienta o autor que na França e em outros países houve uma contestação maciça de todas as instituições, abalando valores, ameaçando posições estabelecidas e, ao mesmo tempo, forçando os responsáveis dessas instituições a olhar com novos olhos suas ações e a repercussão  sobre a sociedade. Nesse contexto, o conceito de  patrimônio é revisto e ampliado, considerando-se o meio ambiente, o saber e o artefato-o patrimônio integral. Vários grupos contribuem para essa nova conceituação, como os ecologistas, os diferentes países emergentes do colonialismo, que reivindicam o retorno dos bens pilhados ou expatriados pelas sociedades ocidentais, os grupos socialistas ou socializantes que reclamam, em nome do patrimônio coletivo, uma acessibilidade aos monumentos, às coleções dos museus, que antes eram patrimônio privado ou reservadas aos detentores do “saber”. Rivard (1984 p.3 ) destaca que essa ampliação da noção de patrimônio terá como conseqüência direta uma revisão dos poderes que assumem a gestão e a valorização dos monumentos, sítios,  museus e de todo lugar considerado patrimônio público.

 

Depois do vendaval que foram os anos 60, os anos 70 deram início à égide da fragmentação: “desdobramentos da contracultura, movimento underground, punk, misticismo oriental, vida em comunidades religiosas ou naturalistas, valorização do individualismo, expansão do uso das drogas” (Habert, 1992, p.74).  Percebe-se um painel de diferentes acontecimentos, de diversos cortes, marcados pelos golpes e pelas revoluções, resultado dos investimentos dos países imperialistas, que procuram reagir à onda de contestação e às lutas revolucionárias da década de 60, cuja conseqüência é a implantação das ditaduras militares na América Latina, a ampliação da intervenção na Indochina, o reforço aos governos colonialistas e de apartheid na África  e a sustentação da política israelense no Oriente Médio.

 

A preocupação em aumentar os níveis de produção ou de como gerar inversão de capital  desloca-se para a necessidade de confrontar as bases dos mecanismos de dominação, através do desenvolvimento de uma consciência popular. Sendo assim, o desenvolvimento passa a ser  compreendido como um processo global de organização de setores populares que se tornaram capazes de enfrentar o Estado e as coalizões dominantes, implicando uma transformação radical da sociedade. Para tanto, era necessário um movimento social organizado que fosse capaz de assumir o controle sobre os processos produtivos da sociedade, o que implicaria uma consciência social crescente. Para alcançar um nível desejável de consciência social, os autores apontam como ferramentas a educação popular, cujo suporte fundamental é a proposta educativa de Paulo Freire, e a investigação participativa, como alternativa para oferecer uma nova explicação da realidade. Vários autores vão se dedicar aos estudos da pesquisa participante e da pesquisa/ação, especialmente nos países de Terceiro Mundo, assumindo o compromisso  do cientista social com os diversos grupos populares. (Borda, 1972, Brandão,1982, Thiollent,1981, Silva, 1986, 1986, Schutter, 1980, etc.). Os trabalhos produzidos na Escola de Frankfurt (Horkheimer, Marcuse, Habermas), do ponto de vista filosófico, vão retomar o conceito de práxis “permitindo acelerar os aspectos de vinculação entre teoria e prática, o que representa uma crítica frontal ao positivismo e, consequentemente, abre perspectivas para a investigação-ação radical” (Silva, 1986, p. 31).

 

Ainda nos anos 70, Paulo Freire era Consultor para Educação do Conselho Ecumênico das Igrejas, em Genebra, e Hugues de Varine estava organizando uma ONG internacional denominada Instituto Ecumênico para o Desenvolvimento dos Povos,  que segundo declaração do próprio Varine ( 1995, p.17 ), Paulo Freire havia sido convidado para presidí-la. Também é  feito a Paulo Freire convite para presidir a Mesa-redonda de Santiago do Chile.

 

Nos últimos vinte anos o mundo passou por transformações radicais como a revolução das comunicações, os aumentos das produtividades industrial e agrícola, bem como da urbanização, além do surgimento de novos centros de poder econômico e político. Comentando sobre o desenvolvimento, no Mundo Contemporâneo, Tenório (1997, p. 11) registra que esse mesmo desenvolvimento produziu o aumento da pobreza, da violência, de doenças e da poluição ambiental, além de conflitos religiosos, étnicos, sociais e políticos e que em um espaço de tempo muito curto o mundo se viu diante de problemas globais, cujas soluções dependem da capacidade de articulação de um espectro mais amplo de agentes sociais. O autor destaca que  “a maior novidade na história recente é a crescente intervenção da sociedade civil, que, de forma organizada, tenta ocupar espaços e propor que os aspectos sociais do desenvolvimento passem ao primeiro plano”.

 

Como registrei na introdução do presente trabalho, a prática da Nova Museologia não pode ser dissociada das experiências passadas. Nesse sentido, considero que as reflexões em torno do papel social dos museus, e, mais especificamente, do seu papel pedagógico e da sua relação com o público, foram acontecendo, em um processo gradual, provocadas pelas mudanças na sociedade como um todo, refletindo no interior das instituições, como a UNESCO, e o ICOM,  como pode ser constatado nos documentos produzidos nos encontros de 1958, e 1971. O seminário regional da UNESCO realizado no Rio de Janeiro, em 1958 é parte de um projeto que tinha como objetivo discutir, em várias regiões do mundo, a função que os museus deveriam cumprir como meio educativo.

 

Em 1971, é realizada a IX Conferência Geral do ICOM, em Paris e Grenoble, com o propósito de discutir o tema : “O Museu a Serviço do Homem, Atualidade e Futuro-o Papel Educativo e Cultural”. Analisando-se as conclusões elaboradas a partir das reflexões ali realizadas, pode-se identificar vários avanços em torno do papel que o museu deve desempenhar na sociedade, sobretudo se compararmos com a Conferência de 1958, realizada no Rio de Janeiro. Em relação aos aspectos pedagógicos, tema principal da Conferência do Rio de Janeiro, percebe-se, em Grenoble, uma preocupação em avaliar a qualidade dos serviços oferecidos, destacando-se que a crescente demanda, havia levado um grande número de alunos e professores aos museus, sem os recursos necessários ao bom atendimento,  aumentado, consideravelmente o número de visitantes, o que tornava inviável a manutenção dos programas com a qualidade indispensável ao processo educacional. Outro aspecto que merece ser mencionado, ainda em relação às questões pedagógicas, é que há uma preocupação, já àquela época,  em transformar a visita guiada em um momento de aprendizado, estimulando o aluno a comparar, estilos formas, a contextualizar, realizar conexões entre arte e ciência, velho e novo, entre uma civilização e outra, chamando-se a atenção para a necessidade de realização de exposições, com base na  interdisciplinaridade.

 

Conforme pode ser constatado, nas conclusões da IX Conferência do ICOM, os anseios por mudança na instituição museu vieram das mudanças ocorridas na sociedade. “Great changes in socite must lead to great changes in museums structure, it was said”. Era necessário, pois redefinir a missão dos museus, seus métodos de exibição das coleções e, talvez, quem sabe, buscar um novo modelo para a instituição. Aliás, naquele evento, é reconhecido um novo modelo de museu, denominado “neighbourhood museum” que tem como objetivo a construção e análise da história das comunidades, contribuindo para a identificação da sua identidade, colaborando para que os cidadãos se orgulhem da sua identidade cultural, utilizando as técnicas museológicas para solucionar problemas sociais e urbanos. O modelo proposto teve como referencial o trabalho desenvolvido pelo Museu de Anacostia, em Nova York, apresentado pelo seu diretor, Jonh Kinard.

 

Nos trabalhos ali apresentados chamam-se a atenção para o fato de que os museus deveriam deixar de atuar como coletores passivos para se tornarem participantes ativos. Nesse sentido, sugerem a realização de exposições que apresentem os problemas e as contradições da  sociedade, destacando, também, as contribuições culturais das minorias. Enfatizam também a necessidade de interação do museu com o meio onde está inserido, destacando a realização de programas que abordaem os problemas da vida cotidiana, buscando a relização de atividades conjuntas com sindicatos, cooperativas do meio rural, fábricas, etc. Merece destaque, nesse contexto de inquietações e busca de avanços, a participação de George Henri Rivère, que, segundo Almeida (1996, p. 112), no pós-Guerra, revolucionou o mundo da museologia ao defender que a população deveria se tornar parte integrante da instituição museu e da sua organização “os consumidores/visitantes serão os próprios atores das atividades museológicas, sendo os grandes motores da mudança”.

 

Estavam, assim, lançados os alicerces para que, em Santiago, em 1972, pudessem ser traçadas as diretrizes no sentido tornar os museus mais próximos dos novos anseios da sociedade, colocando em evidência a prioridade da ação museal no campo da intervenção social, abrindo, também, espaço para se repensar a museologia, de forma global, situando-a entre as ciências sociais. No próximo item, retornaremos à Mesa-redonda de Santiago do Chile, analisando o seu documento básico, devido a sua importância, no sentido de delinear as bases conceituais e filosóficas do que se denominou, posteriormente,  Moviemento da Nova Museologia.

 

Vale a pena registrar que também em  1972 é realizada, em Estocolmo, a Conferência da UNESCO sobre Meio Ambiente Humano. Em trabalho apresentado por Berrueta  (1996, p. 3 ), no Ateliê Internacional sobre a Nova Museologia, realizado no México, o autor chama a atenção para o fato de que desde os anos 70 o conceito de ecodesenvolvimento trazia elementos importantes para o atual conceito de desenvolvimento sustentável,  apresentando-se, também, como uma alternativa para a ordem econômica internacional, priorizando modelos locais, baseados em tecnologias apropriadas, com destaque para as zonas rurais, procurando romper com as dependências técnica e cultural. Destaca ainda o referido autor que o tema da questão ambiental é introduzido, com muita força, desde o início dos anos 70, por meio de uma reflexão crítica, que condena os esquemas tradicionais do desenvolvimento econômico latino-americamo, provocando a adoção de políticas ambientais nos planos de desenvolvimento de muitos paises da América Latina. Considerei por bem registrar as preocupações com o meio ambiente e com o desenvolvimento nesse período, pois, como será analisado no item posterior, essas também serão questões de base da Mesa-Redonda de Santiago.

 

Os anos 70 e 80 foram, então, marcadas por trabalhos museológicos inovadores, desenvolvidos em vários países, embora ainda não houvesse um intercâmbio internacional entre os diversos projetos naquele período e o reconhecimento e o apoio necessários. Destacaram-se as atividades de George Henri Riviére e de Hugues de Varine, presidentes do Conselho Internacional de Museus, que estabeleciam relações entre agentes organizadores de diferentes projetos, em um mesmo país ou entre países diferentes.

 

Nesse novo contexto, não pode deixar de ser destacado o surgimento dos ecomuseus, que foram o produto da insatisfação dos profissionais da área de Museologia, em busca de transformações, tentando afirmá-lo, em realidades bastantes diversificadas, como instrumento necessário à sociedade: um patrimônio global. Bellaigue ( s.1. 19... ) destaca os aspectos abaixo relacionados como princípios básicos para constituição de um ecomuseu:

 

·        identificar um território e seus habitantes; inventariar as possíveis necessidades e seus anseios;

·        atuar, como os membros da comunidade, considerando-os donos reais do seu passado e atores do presente;

·        aceitar que não é necessária a existência de uma coleção para que seja instalado o museu. Neste aspecto, a concepção da instituição será no sentido comunidade-museu e não objeto-museu, como antes se concebia.

 

A referida autora chama a atenção para o fato de que é necessária a definição coerente do território de modo a permitir a comunicação entre a população e o museu, para que o processo de inventário seja realizado envolvendo todo o patrimônio cultural e natural, e que a gestão administrativa e as ações culturais e educativas sejam levadas a cabo através da participação dos técnicos e dos diversos grupos comunitários.

       .

Os contextos, dos anos de 60 e 70 propiciaram, portanto, uma avaliação das instituições, provocada pelo movimento social, atingindo  organismos como a UNESCO e o ICOM, conforme pudemos registrar, anteriormente. Entretanto, nem sempre as diretrizes e metas registradas nos documentos oficiais se transformam em ações concretas. O que se observa é que, no início dos anos 80, apesar da existência de um bom número de ecomuseus, museus comunitários, museus locais e museus ao ar livre, os profissionais que desenvolviam ações museológicas comprometidas com o desenvolvimento social e com a participação encontram resistências no sentido de que seus projetos fossem reconhecidos no universo museológico. A fala do Prof. Mário Moutinho (1995, p. 26) demonstra as dificuldades sentidas nesse sentido, bem como  o descompasso entre o discurso e a prática, dos organismos oficiais:

 

desiludidos com a atitude segregadora do ICOM e em particular do ICOFOM, claramente manifestada na reunião de Londres, de 1983, rejeitando liminarmente a própria existência de práticas museológicas não conformes ao quadro estrito da museologia instituída, um grupo de museólogos propôs-se a reunir, de forma autônoma, representantes de práticas museológicas então em curso, para avaliar, conscientizar e dar forma a uma organização alternativa para uma museologia que se apresentava igualmente como uma museologia alternativa.

 

 

As ações concretas já realizadas, em diferentes países, motivaram os profissionais envolvidos para a busca de intercâmbio, com o objetivo de discutir as experiências de Ecomuseologia, da Nova Museologia, buscando as suas relações com a Museologia instituída. Por iniciativa de  Pierre Maryand e René Rivard, ambos participantes do grupo de ecomuseus de Quebec, em 1984, foi ali realizado o primeiro seminário internacional, destinado a discutir ecomuseus e Nova Museologia. O referido seminário tinha como objetivo:

 

·        criar condições de intercâmbio para discutir assuntos relacionados à Nova Museologia e à Ecomuseologia, em geral;

 

·        definir as suas relações com a Museologia, em geral;

 

·        aprofundar os conceitos e encorajar as práticas relacionadas com a Ecomuseologia e com a Nova Museologia.

 

Moutinho (1995, p. 28), comentando sobre o importante a realçar na declaração de Quebec, registra que:

 

não é de certa forma qualquer novidade conceitual no texto em si, pois desse ponto de vista retoma, com as devidas atualizações o essencial de Santiago, mas sim o fato de ter confrontado a comunidade museal com uma realidade museológica profundamente alterada desde 1972, por práticas que revelam uma museologia ativa, aberta ao diálogo e dotada agora de uma forte estrutura internacional.” (Os grifos são meus).

 

Em Quebec, foi criado um grupo de trabalho provisório com o objetivo de  discutir a organização das estruturas propostas no ateliê, como a criação de um Comitê Internacional/ Ecomuseus/ Museus Comunitários, e uma Federação Internacional da Nova Museologia, que poderia ser filiada ao ICOM. Várias reuniões foram realizadas em Lisboa e Paris, onde, gradualmente, foram sendo estruturadas as organizações propostas. O Comitê Internacional Ecomuseus/ Museus/ Comunitários, que deveria ter sido criado no quadro do ICOM, nunca o chegou a ser, mas a Federação Internacional de Nova Museologia foi efetivamente instituída, com o nome de Movimento Internacional para a Nova Museologia/MINOM, o qual foi, posteriormente, reconhecido pelo ICOM como uma organização afiliada.

 

3Aproximação com a Realidade Brasileira

 

 

A América Latina vive, nos anos 70, “uma história  de exílios e exilados”. Os Estados Unidos, principal  potência imperialista mundial, protagonizam a instalação de ditaduras militares em vários países do continente, como Chile, Argentina, Uruguai, Peru e Bolívia. O golpe de Pinochet, um ano após a realização da Mesa-redonda de Santiago,  talvez tenha sido um dos exemplos mais duros.

 

No Brasil, convivemos com contestação, repressão, tortura, censura e terrorismo oficial. Sob o regime da ditadura militar, acelerou-se o desenvolvimento capitalista e consolidou-se a integração do Brasil ao sistema capitalista monopolista internacional, como país associado periférico.

 

A população de 99.901.037 habitantes começa a ser predominantemente urbana — 52 milhões na cidade e quarenta milhões no campo. Metade da população ativa ganha menos que um salário mínimo e 17,9 milhões são analfabetos maiores de dez anos. Em 1960, os 5% de brasileiros mais ricos absorviam 27,3% da renda nacional. Em 1970, passam a absorver 36,3%. Os mais pobres vêem reduzida sua participação na renda de 27,8% para 13,1%.. É o milagre.

                                           ( Ribeiro, 1985).

Precisamente em 1972,  ano da Mesa-redonda de Santiago, a despeito dos dados apresentados acima, comemorávamos o sesquicentenário da Independência, entronizando os ossos de Pedro I no Monumento do Ipiranga, depois de terem sido conduzidos pelas principais capitais do País, comemorávamos a vitória de Fittipaldi como campeão de Fórmula I e assistíamos à TV colorida, ingressa no País naquele ano.

 

No contexto de expansão do “parque industrial da cultura”, em que o rendimento de uma política cultural se mede pelo aumento do índice de consumo e não pelo volume de iniciativas, era necessário reestruturar os museus para atender aos novos objetivos, dotando-os das condições necessárias para que viessem a ser visitados pelo maior número possível de pessoas, retirando-os do ostracismo. Os museus estão  presentes no processo de controle por meio de comissões, conselhos, etc. Uma política museológica para o País é tentada, a partir de 1975, com a reunião dos dirigentes de museus, realizada em Recife, e nas reuniões de secretários de Educação e Cultura dos estados e dos Conselhos Federal e Estadual de Cultura, realizados em Brasília e em Salvador, em 1976. Os  anos de 64 a 80 foram pródigos em instalação de museus no Brasil. Foi a grande fase dos memoriais, do culto ao herói. Busca-se, através das atividades de preservação, autenticar a nação, enquanto uma realidade nacional. As instituições são  “cristalizadas, percebidas como independentes dos indivíduos que as concebem.”

 

Nesse contexto, era natural que o documento de Santiago e as iniciativas do Movimento da Nova Museologia permanecessem desconhecidos ou nas gavetas dos gabinetes. Mais uma vez, por iniciativa individual, os técnicos, talvez movidos pelas mesmas razões de tantos colegas na França, no Canadá, em Lisboa, no México, etc, começam a trilhar novos caminhos, quebrando barreiras institucionais e filosóficas, na busca desse processo museológico transformador, delineado em Santiago, e do qual sequer tínhamos conhecimento. No Curso de Museologia da UFBA, somente dez anos


 

depois, ou seja, nos anos 80, é que tivemos acesso ao documento da mesa-redonda do Chile. O encontro com o documento de Santiago é, de certa forma, sobretudo nos meios acadêmicos, a legitimação da nossa ação. A concretização dessa ações é o atestado de que, na área da “política oficial de cultura”, há espaços para produção e reprodução. Compreende-se, entretanto, que as dificuldades geradas pelos sistemas autoritários e paternalistas, implantados na América Latina, dificultam e podam a iniciativa comunitária.

 

Na atualidade, acho que, mesmo nos museus ditos oficiais, as discussões começam a ser embasadas pelos princípios da participação, da relação passado-presente, e pelo engajamento nos problemas da sociedade, não por iniciativa da política oficial, mas pela atuação de técnicos que procuram estar atualizados com a evolução do processo museológico e que, mesmo modestamente, têm provocado estas reflexões no interior desses museus, que não são, em sua concepção, o museu gestado em Santiago, e nem poderiam ser, mas que hoje estão sendo influenciados pelas diretrizes ali delineadas, o que, talvez, nos leve a inferir  que a questão da inserção dos museus na sociedade não é de categoria ou tipo de coleção, mas de concepção e dos objetivos que são estabelecidos para esses órgãos. A aplicação destes objetivos nas instituições museológicas, na verdade, deixa transparecer o conceito que os responsáveis técnico-administrativos têm de museologia e de museu. Embora reconheçamos  também que, para muitos de nós, os caminhos apontados pelo Movimento da Nova Museologia sequer começaram a ser trilhados; às vezes, por absoluta falta de conhecimento das ricas experiências construídas nesse processo.

 

Particularmente,  estive envolvida, nos últimos anos, em um projeto de construção conjunta de um museu didático-comunitário, situado no Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, envolvendo professores, alunos, funcionários e membros da comunidade do Bairro de Itapuã, em Salvador-BA, que tem sido um processo de participação, ou seja, de conquista dos diversos segmentos envolvidos, buscando construir, com qualidade formal e qualidade política, uma ação museológica comprometida com o exercício da cidadania e com o desenvolvimento social. Temos consciência que alguns princípios ali adotados foram embasados no conhecimento historicamente construído, no campo da museologia, e, portanto, considerando as práticas da Nova Museologia. O constante processo de ação e reflexão  realizado, ao longo do caminhar, tem nos permitido avançar bastante em relação à organização e gestão de museus, e em relação à  construção do conhecimento, nas áreas da museologia e da educação.

 

 

4- Princípios Básicos e Caracterização

 

 

Neste item, pontuarei os princípios básicos norteadores das ações do Movimento denominado de Nova Museologia, com destaque para a Mesa-Redonda de Santigo, por ser considerada, pelos próprios participantes do movimento, como o  referencial básico, analisando, também, os registros de alguns profissionais que   tiveram uma participação ativa, em diferentes contextos. A partir da análise efetuada, buscarei, também, identificar algumas expressões-chave, buscando uma melhor compreensão do processo-Nova Museologia.

 

Compreender Santiago, é olhar, também, para os seus bastidores, ou seja, para a sua preparação. Nesse sentido, me foram de extrema utilidade os depoimentos do Prof. Hugues de Varine,  quando da sua participação no Encontro sobre a  “Museologia Brasileira e o ICOM: convergências e desencontros?”, realizado em São Paulo, em 1995, quando se discutiram os documentos básicos da Museologia Contemporânea, permitindo fazer mais uma leitura, no sentido de melhor compreender os objetivos daquele evento:

 

 As lições dos bastidores

 

·        A escolha dos expositores, todos latino-americanos, cada um comprometido com a sua realidade, demonstra, por parte dos organizadores, uma abertura, no sentido de ouvir, de deixar aflorar as necessidades concretas daqueles que deveriam tomar para si a responsabilidade de atuar, refletir e transformar as suas múltiplas realidades.

 

·        A escolha dos temas, abordando “questões-chave ”do desenvolvimento:  educação, meio ambiente e urbanismo. No nosso entender, uma das maiores lições de Santiago. Enfim, conseguíamos enxergar além dos museus, para compreender, modificar as ações no seu interior e definir um novo conceito de museu, “levando em consideração a totalidade dos problemas da sociedade”.

 

·        convite ao Prof. Paulo Freire, um dos maiores pedagogos  dos nossos tempos, expulso do nosso país naquela época, demonstra a coragem dos organizadores do evento, como também, em propor um encontro daquele teor em um país da América Latina, quando os países imperialistas procuravam reagir à onda de contestação e lutas revolucionárias dos anos 60, investindo na implantação de ditaduras militares em nosso continente. Com a ausência do prof. Paulo Freire, perderam os participantes, perdeu a museologia, que, com certeza, seria enriquecida com as suas reflexões. Entretanto, ressalto que, apesar da sua ausência, os temas mais marcantes da sua obra, ou seja: a conscientização e a mudança, que levam o educador e todo profissional a se engajar social e politicamente, comprometido com um projeto de sociedade diferente, estiveram e ainda estão presentes, ou melhor, são o cerne das proposições de Santiago. 

 

Em Santiago, é dado o pontapé inicial para uma ação museológica que considera o sistema lingüístico empregado pelas comunidades, reconhece que o ser humano move-se em um mundo essencialmente simbólico e compreende, também, que o cotidiano não é apenas  um resíduo. A vida cotidiana passa a ser considerada entre as múltiplas realidades, como “a realidade por excelência”, que não se esgota na presença imediata, mas abarca fenômenos que não estão presentes “aqui e agora”, o que significa que a experimentamos  em diferentes graus de aproximação e distância, espacial e temporal. A cultura e a identidade serão consideradas, pois, fenômenos construídos e reconstruídos em processos de interação, em “um jogo diferenciador”, constrativo, dinâmico, concretizado na dinâmica do dia-a-dia. O conhecimento da nossa cultura passa, portanto, inevitavelmente, pelo conhecimento de outras; a nossa cultura será uma cultura possível, dentre tantas outras.

 

Na noção de museu integral, inicialmente delineada em Santiago, além da concepção de museu, que leva em consideração a totalidade dos problemas da sociedade, acreditamos, também, que ali é dado um outro enfoque aos problemas  da relação do homem com a natureza, abrindo espaço para uma sociologia da natureza e para uma biologia que não concebe mais a vida como “uma qualidade restrita aos organismos” e não se encerra mais nos processos físico-químicos, mas abre-se aos fenômenos sociais. O organismo é então contextualizado em seu meio, sendo que a própria idéia de  “meio” também se transformou: “é um sistema global de interferências biopsicossociais”. É ecológico e etológico”.

 

Nos anos 70, como já foi registrado anteriormente, começamos a “conceder uma importância concreta ao fato de o homem ser, ao mesmo tempo, o produto e o criador de sua sociedade e de sua cultura” (Bordenave, 1988,p.7). Portanto, começa-se a delinear, em Santiago, talvez de forma não intencional, o que, no nosso entender, é o marco mais significativo da evolução do processo museológico na contemporaneidade: a passagem do sujeito passivo e contemplativo para o sujeito que age e transforma a realidade. Nessa perspectiva, o preservar é substituído pelo apropriar-se e reapropriar-se do patrimônio cultural,  buscando a construção de uma nova prática social.

 

Comentando sobre o essencial, o mais inovador,  de Santiago, Hugues de Varine,  (1995, p. 18)  destaca duas noções básicas:

 

·        a de museu integral, que leva em consideração a totalidade dos problemas da sociedade;

·        a de museu, enquanto ação, enquanto instrumento dinâmico de mudança social.

 

 

Além disso, chama a atenção para o fato de que “esquecia-se assim, aquilo que havia se constituído, durante mais de dois séculos, na mais clara vocação do museu: a missão de coleta e conservação. Chegou-se, em oposição, a um conceito de patrimônio global a ser gerenciado no interesse do homem e de todos os homens.”

 

Ao analisarmos o papel ativo do sujeito na construção do processo museológico, não poderíamos deixar de ressaltar, como afirma Kosik (1976, p.22), que:

 

“... a dialética da atividade e da passividade do conhecimento humano manifesta-se sobretudo no fato de que o homem, para conhecer as coisas em si, deve primeiro transformá-las em coisas para si; para conhecer as coisas como são independentemente de si, tem primeiro de submetê-las à própria práxis; para poder constatar como são elas quando não estão em contato consigo, tem primeiro de entrar em contato com elas. O conhecimento não é contemplação. A contemplação do mundo se baseia nos resultados da práxis humana. O homem só conhece a realidade na medida em que ele cria a realidade humana e se comporta antes de tudo como ser prático.”

 

A atuação do sujeito, submetido aos diversos condicionamentos, sobretudo às determinações sociais, introduzindo no conhecimento uma visão da realidade socialmente transmitida, tem sido, portanto, um dado marcante no processo de construção do conhecimento museológico, no mundo contemporâneo, principalmente a partir de 1972, após a realização da Mesa-Redonda de Santiago do Chile e do I Seminário Internacional, para discutir o Ecomuseu e a Nova Museologia.

      

As propostas do seminário de Quebec tiveram como base o extrato da declaração de Santiago, a seguir:

 

“Que o Museu é uma instituição a serviço da sociedade na qual é parte integrante e que possui em si próprio os elementos que lhe permitem participar na formação das consciências das comunidades a que serve”. (UNESCO, 1992)

 

Como resultado do Seminário de Quebec, os participantes firmaram os seguintes pontos:

 

·        Museologia atua com vistas a uma evolução democrática das sociedades;

 

·        A intervenção dos museus no quadro dessa evolução passa: por um reconhecimento e uma valorização das identidades e das culturas de todos os grupos humanos inseridos no seu meio ambiente, no quadro da realidade global do mundo; por uma participação ativa desses grupos no trabalho museológico; (o grifo é meu)

 

·        Existe um movimento, caracterizado por práticas comuns, que pode assumir formas diversas, em função dos países e dos contextos, que deverão conduzir surgimento de um novo tipo de museu correspondente a estas novas perspectivas;

 

·        Nestas condições, a interdisciplinaridade e a função social conduzem a uma mudança do papel e da função do museólogo, o que implica uma formação nesse sentido.

 

Comentando sobre os princípios básicos da “Nova Museologia”, Moutinho (1989, p.31) recomenda que ela deve ser considerada, pelas pessoas integradas nesse processo, como meio (agente, instrumento), a par de outros, de desenvolvimento integral das populações e com as populações. Considera que o que há de novo nas práticas da “Nova Museologia” é a demonstração da capacidade (e a prática disso) das populações se auto-organizarem para gerir o seu tempo e o seu futuro. Destaca o referido autor que:

 

a concepção, o desenrolar e a avaliação dos projetos da Nova Museologia dependem sempre de uma percepção correta das condições históricas e ambientais locais, em que a intervenção se realiza.

 

Considerando os aspectos acima mencionados, a Museologia, concebida nessa nova perspectiva, tem um papel fundamental no resgate do “mundo vivido”, descrito por Habermas (citado por Freitag, 1990, p.2) e caracterizado como:

 

... a maneira como os atores percebem e vivenciam sua realidade social. Compõe-se da experiência comum a todos os atores, da língua, das tradições e da cultura partilhada por eles. Ela representa aquela vida social, cotidiana, na qual se reflete “o óbvio”, aquilo que sempre foi, o inquestionado.

 

A proposta básica da “Nova Museologia” está pautada no diálogo, no argumento em contextos interativos, sendo, portanto, o “mundo vivido” o espaço social onde será realizada a razão comunicativa. De certa forma, a proposta da “Nova Museologia” sugere uma “libertação” da razão instrumental a que os museus estavam e, ainda, continuam submetidos, atrelados ao Estado racional legal, calcado em um sistema jurídico e em uma burocracia efetiva, etc., o que pode ser evidenciado, através da política de preservação paternalista, imposta pelos governos, onde a decisão do que deve ser preservado, a coleta e a guarda das coleções estão sempre nas mãos dos mais poderosos.

 

Os princípios básicos que norteiam as ações da “Nova Museologia” podem, então, ser  resumidos nos seguintes pontos:

 

·        reconhecimento das identidades e das culturas de todos os grupos humanos;

 

·        utilização da memória coletiva como um referencial básico para o entendimento e a transformação da realidade;

 

·        incentivo à apropriação e reapropriação do patrimônio, para que a identidade seja vivida, na pluralidade e na ruptura;

 

·        desenvolvimento de ações museológicas, considerando como ponto de partida a prática social e não as coleções;

 

·        socialização da função de preservação;

 

·        Interpretação da relação entre o homem e o seu meio ambiente e da influência da herança cultural e natural na identidade dos indivíduos e dos grupos sociais;

 

·        ação comunicativa dos técnicos e dos grupos comunitários, objetivando o entendimento, a transformação e o desenvolvimento social.

 

Pode-se, então, identificar, a partir das reflexões acima realizadas,  algumas expressões-chave :

 

Patrimônio Global – o homem  -  o meio ambiente - o saber e o artefato. Ou seja, o real, na sua totalidade: cultural, natural, material e imaterial, em suas dimensões de tempo e espaço. Um patrimônio criado, importado ou transmitido. O patrimônio integral.

 

 

Museu Integral – o museu que tem a ênfase no homem - sujeito do ato de conhecer e de transformar o conhecimento e o mundo - na sua relação com o meio, que aborda a totalidade dos problemas da sociedade,  tendo como elementos básicos:

 

um território -  limites geográfícos e afinidades culturais, um testemunho presente, com todas as suas belezas e contradições, produto do tempo e do espaço territorial. Um patrimônio global e coletivo.

um patrimônio - o patrimônio global;

 

e uma população- habitantes de um território que são responsáveis pela organização e gestão do museu e pela preservação e uso do  patrimônio, conscientes das suas afinidades e  diferenças, bem como das relações de conflito com o seu meio ambiente;

 

Museologia Ativa - experiências com base nos referenciais da Nova Museologia: ecomuseus, museus comunitários, museus de vizinhança, etc.

 

Desenvolvimento Comunitário – processo educacional, no sentido de  liberar o homem para que seja sujeito da sua própria história. Estou me apropriando do conceito de desenvolvimento comunitário emitido por Hugues de Varine (1987, p.29), qual seja: “O conjunto de conceitos, atos, esforços, visando favorecer o avanço social, cultural, econômico e, em geral, humano, de uma certa comunidade, por iniciativa de seus membros tratados, às vezes, individualmente, às vezes coletivamente.” O autor destaca os seguintes conceitos, nos quais o desenvolvimento comunitário se apoia:

 

desenvolvimento - compreendido como o senso global e não somente no aspecto econômico do termo. A conjugação do homem e da sociedade, harmoniosa e  harmonizada a partir de uma adesão contínua e de uma constante inovação espiritual e tecnológica;

 

quadro comunitário natural, englobando sucessivamente a família, o meio profissional, o bairro ou a aldeia, a cidade, o país, a região;

 

um desenvolvimento pesquisado, à escala dessas comunidades sucessivas e simultâneas. Foi desejado, concebido, realizado e criticado, individualmente, e coletivamente por essas comunidades e por seus membros.

 

Enfim, a Nova Museologia pode ser então caracterizada como um movimento, organizado a partir da  iniciativa de um grupo de profissionais, em diferentes países,  aproveitando as brechas, ou sejam, as “fissuras”, dentro do sistema de políticas culturais instituídas, organizando museus, de forma criativa, interagindo com os grupos sociais, aplicando as ações de pesquisa, preservação e comunicação, com a participação dos membros de uma comunidade, de acordo com as características dos diferentes contextos, tendo como objetivo principal utilizar o patrimônio cultural, como um instrurmento  para o exercício da cidadania e para o desenvolvimento social.

 

 

5 – Processo Metodológico

 

Acho que é mesmo impossível definir uma única metodologia para a ação museológica embasada nos princípios da Nova Museologia, pois os valores vigentes, em cada sociedade e em cada setor de atuação, podem alterar as propostas metodológicas. Sendo assim, pode existir  uma grande diversidade de processos entre os pequenos museus comunitários, entre os ecomuseus, entre os museus didático-comunitários, entre os museus de vizinhança, etc. A partir dos referenciais básicos,  apresentados no item anterior, abordarei as  questões metodológicas gerais, considerando que, na diversidade, há pontos comuns, e que os métodos e as técnicas aplicados, dentro de uma certa coerência, devem facilitar a consecução dos objetivos propostos, ou seja, devem ser coerentes com os princípios adotados.

 

Percebe-se pois que os processos aplicados aos projetos embasados nos princípio da Nova Museologia são apoiados nas propostas de educação transformadora e de pesquisa/ação, ou da ação/pesquisa, como define Hugues de Varine (1987, p. 101) :

 

é na ação que uma comunidade se forja e se faz reconhecer como força política e entidade social de forma total. É na ação que ela adquire suas características próprias, que ela existe. Ela é porque ela age, e cada um dos seus membros, participando de uma tal ação, fará a prova e tomará consciência de sua capacidade autônoma de pensar e de ser. Assim, apoiando-se uma sobre a outra, comunidade e indivíduo afinarão progressivamente sua experiência, seu conhecimento dos obstáculos e dos meios, a expressão dos objetivos e dos métodos.

 

Os objetivos da ação-transformação da pesquisa-ação podem ser identificados nos trabalhos de marxistas como Engles, Rosa de Luxemburgo, Kausty e nas obras de Marx, que os bocheviques e Gramisc fazem avançar neste século. Também, pode-se considerar que  a maneira “peculiar  adotada pela investigação-ação de conceber a ciência e o mundo reincorpora a tradição filosófica através dos escritos de pensadores como Gentile, Luckás e a tradição sociológica nas obras de See, Hilferding, Velen, Mills e outros.” Silva ( 1986 p.30). A autora destaca, também, que as obras de Freud e Piaget enriqueceram as reflexões em torno da relação entre a teoria e a prática.

 

Michel Thiolent (1986, p.14), define a pesquisa-ação como um tipo de pesquisa social de base empírica, que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou solução de um problema coletivo, no qual, os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. Brandão,  (1982, p.27 ) comenta que em vez de se preocupar somente com a explicação dos fenômenos sociais depois que eles aconteceram, o objetivo da pesquisa-ação é de favorecer a aquisição de um conhecimento e de uma consciência crítica do processo de transformação pelo qual o grupo que está vivenciando, para que desempenhe de forma cada vez mais lúcida e autônoma seu papel de protagonista e ator social. Resumindo os principais da pesquisa-ação, Thiolent (1986,p.16) apresenta os seguintes aspectos:

 

·        há uma explícita interação entre pesquisadores e as pessoas implicadas na situação investigada;

 

·        dessa interação resulta a ordem de prioridade dos problemas a serem pesquisados e das soluções a serem encaminhadas sob forma de ação concreta;

 

·        objeto da investigação não é constituído pelas pessoas e sim pela situação social e pelos problemas de diferentes naturezas encontrados na situação investigada;

 

·        objetivo da pesquisa-ação consiste em resolver ou, pelo menos, em esclarecer os problemas da situação observada;

 

·        há, durante o processo, um acompanhamento das decisões e das ações e de toda a atividade intencional dos atores da situação;

 

·        a pesquisa não se limita a uma forma de ação (risco de ativismo); pretende-se aumentar o conhecimento dos pesquisadores e o conhecimento ou o nível de consciência das pessoas e grupos considerados.

 

As concepções de museu integral e de desenvolvimento comunitário, analisados no item anterior, estão pautados em uma perspectiva pedagógica que busca a produção do conhecimento, com o objetivo de aumentar a consciência e a capacidade de iniciativa dos grupos, visando à transformação. Como na proposta de educação transformadora, o museu integral é constituído a partir do estudo da realidade vivida pelo grupo e da percepção que o grupo tem dessa mesma realidade. Percepção esta refletida nas exposições temáticas, que abordam os problemas e são o resultado de um processo de  reflexão e construção conjunta do grupo, ou seja, técnicos e membros da comunidade, ambos se enriquecendo, mutuamente. A declaração de Oaxtepec (1984) registra que “a participação comunitária evita as dificuldades de comunicação características do monólogo museográfico, empreendido pelo especialista”. Almeida (1996, p.112), comenta que o museu, nessa perspectiva, é considerado um meio e não um fim, destacando que existe uma interação entre ele e o mundo em transformação. É um instrumento cultural a serviço da população. Salienta que os membros da comunidade são os principais responsáveis pela organização e gestão do museu, e que esse processo reflete a identidade da comunidade. Chama a atenção para o fato de que, em conseqüência,  não existem dois museus locais iguais, visto serem fruto de “gentes diferentes”. Destaca que, em vez dos objetos, é o homem criador/guardador/destruidor de objetos o elemento central da museologia.

 

Comentando sobre a importância da utilização da pesquisa-participante pelos museus comunitários, Gonzalez ( s.1. 19...)destaca:

 

Poderíamos assegurar que somente uma concepção que considera o museu como um instrumento cultural  dinâmico de educação popular que é criado  pela comunidade e para a comunidade, poderia assumir a importância e o valor que constitui a investigação participativa como uma orientação  metodológica, que vê na apropriação coletiva do saber, na produção coletiva de conhecimentos, a possibilidade de tornar efetivo o direito que os diversos grupos sociais têm para realizar a preservação autogestiva de sua história e de sua cultura.

 

Compreende-se, portanto, que dois conceitos básicos e complementares estão aqui envolvidos: a participação e a autogestão, sem as quais é impossível desempenhar as ações museológicas propostas pelo Movimento da Nova Museologia. Mendonça (1987, p. 22) conceitua a participação como a variável que define e indica o que e como alguém faz algo, em uma organização. Afirma que participação envolve uma gama de indagações teleológicas como: distribuíção de poder, autoridade,  propriedade,  trabalho,  mecanismo de coordenação e integração e processo de tomada de decisão. Destaca que a autogestão é considerada como o meio mais aprefeiçoado de participação.

 

Comentando sobre a participação, Demo (1994, p.44) a define como a conquista humana principal, tanto no sentido de ser mais do que nunca uma conquista- dada a dificuldade de a realizar de modo desejável-quanto no sentido de ser a mais humana imaginável - porque é a forma de realização humana. Salienta ainda que:

 

 

 

É a melhor obra de arte do homem em sua história, porque a história que vale a pena é aquela participativa, ou seja, com o teor menor possível de desigualdade, de exploração ,de mercantilização, de opressão. No cerne dos desejos do homem está a participação,  que sedimenta metas eternas de autogestão, de democracia, de liberdade, de convivência.

 

Pode-se identificar a homogeneidade, a coerência, a auto-organização  e a continuidade  nas organizações autogovernadas. São expressas através da realização  dos objetivos, da deliberação sobre os meios de alcançar as metas, execução das políticas e da divisão dos benefícios da vida da organização. São identificadas as seguintes políticas em  organizações de autogestão:

 

 

·        a tomada de decisão é o resultado da autoridade delegada de baixo para cima;

 

·        a comunicação é a característica mais importante, porque o direito de tomar decisões é uma mera formalidade sem a informação adequada e atualizada;

 

·        sob a autogestão não há propriedade privada baseada na exploração do trabalho dos outros;

 

·        a meta é desenvolver os talentos dos trabalhadores a fim de desenvolver todo o sistema;

 

·        o líder é o delegado eleito do grupo, por  consideração. O líder funciona como a expressão viva das necessidades técnicas e políticas do grupo.

 

A avaliação é um processo contínuo, que acompanha todas as etapas dos projetos a serem desenvolvidos: diagnóstico, planejamento e operacionalização. Gonzalez  (1990) comentando sobre o processo de avaliação nos museus comunitários, destaca que  deve ser compreendida sob os seguintes aspectos:

 

Permanente e sistêmica, já que é uma atividade constante, embora existam momentos especiais em que é necessário intensifica-la;

 

Grupal e participativa, porque a avaliação não pode ser responsabilidade individual, pois requer a opinião e as propostas do grupo de trabalho, em  conjunto.

 

Educativa, porque é conhecimento, crítica e autocrítica e porque gera reflexão e compreensão da realidade comunitária.

 

Comentando sobre a abertura dos museus, para o meio onde está inserido, buscando a interação com as populações,  Rivard (1984, p.9) salienta que este novo olhar sobre a natureza e sobre o universo é produto de um conjunto de métodos e de técnicas tomadas de empréstimo a disciplinas bem diferentes. Vários métodos e técnicas encontram-se,  interpõem-se e se complementam buscando uma compreensão mais global dos fenômenos, não somente na sua respectiva dinâmica, mas também na dinâmica que os ligam e os mantêm.   O autor enfatiza que a pluridisciplinaridade se escreve ainda, e sempre, na via dos métodos sistêmicos e não no método sistêmico, chamando a atenção para o fato de que essa abordagem transdisciplinar não deve ser considerada uma teoria ou uma disciplina, mas uma nova metodologia, que permite reunir e organizar os conhecimentos, objetivando a eficácia da ação.

 

Como foi registrado no início deste item, não é possível propor um modelo para a diversidade de projetos e de possibilidades de se trabalhar com o patrimônio cultural, visando ao desenvolvimento social. Buscou-se identificar algumas políticas e princípios, sem a preocupação de apresentar uma relação ordenada de passos a serem seguidos. Os caminhos , por certo, são os mais variados, conforme afirma Hugues de Varine (1995,p ) “não há jamais duas situações e duas populações parecidas: não poderá também haver duas soluções idênticas e se, por acaso, dois projetos se parecem, é certo que os caminhos que os conduziram não foram o mesmo”. 

 

 

6Contribuições ao Processo Museológico

 

É possível, com base na reflexão realizada até o presente momento, apontar algumas contribuições  que o Movimento da Nova Museologia tem trazido ao processo Museológico. Esclareço que estou considerando o processo museológico, na relação teoria-prática: museologia/museografia. A análise que será realizada, neste item, também está embasada  nas reflexões realizadas no contexto de construção e reconstrução do Museu Didático-Comunitário de Itapuã, projeto no qual estive envolvida, e já citado anteriormente.

 

Admitindo que o patrimônio cultural é o referencial básico para o desenvolvimento das ações museológicas, considero que os processos museais de museologia ativa gestados, ao longo dos anos,  contribuíram, de modo efetivo, para a ampliação do conceito de patrimônio, na medida em que o conceitua como a relação do homem com o meio, ou seja, o real, na sua totalidade: material, imaterial, natural e cultural, em suas dimensões de tempo e espaço. Consequentemente, os bens culturais a serem musealizados também foram ampliados. Nesse sentido, as ações museológicas não serão processadas somente a partir dos objetos, das coleções, mas tendo como referencial o patrimônio global, tornando assim  necessária uma ampla  revisão dos métodos a serem aplicados nas ações de pesquisa, preservação e comunicação, nos diferentes contextos.

 

Por outro lado, a ampliação do conceito de patrimônio está relacionada à criação de novas categorias de museus, como ecomuseus, museu comunitário, museu de vinzinhança, etc., que não estão fechados nas paredes de um edifícios, mas realizam as ações museológicas em um território, com uma população. Essas novas categorias de museus, abertas a uma população e a um território, irão contribuir, também, para que as ações museológicas possam ser processadas fora do espaço restrito do museu, abrindo assim, amplas possibilidades para a realização de novos processos de musealização . Do ponto de vista metodológico, foi um vetor a incentivar a busca de soluções criativas. A seguir, realizo uma análise das contribuições dos novos processos para as ações  museológicas de pesquisa, preservação e comunicação: 

 

A pesquisa:

 

Construção do conhecimento, tomando como referencial o cotidiano, qualificado como patrimônio cultural. Este conhecimento é construído na ação museal e para a ação museal, em interação com os diversos grupos envolvidos, objetivando a construção de uma nova prática social. Não se trata, da pesquisa que se esgota na mera descrição e análise dos objetos. A pesquisa  alimenta todas as ações museológicas, em processo.

 

Preservação:

 

Consideram-se as seguintes etapas:

 
coleta- o acervo é o conjunto dos bens dinâmicos, em transformação em uma comunidade, e não somente uma coleção. Esse acervo é propriedade privada ou coletiva dos indivíduos, não é adquirida nem pertence ao museu. Trabalha-se  com o acervo institucional, ou seja: material arquivístico e iconográficos, plantas maquetes, depoimentos e testemunhos, etc., e com o acervo operacional: as áreas do tecido urbano socialmente apropriadas como paisagens, estruturas, monumentos, equipamentos, as técnicas do saber e do saber fazer, com os artefatos, com o meio rural, etc.

 

classificação e registro – o processo documental não se limita ao registro do acervo. Busca-se , através da cultura qualificada, produzir conhecimento, elaborado no processo educativo, por meio das ações de pesquisa. Há uma documentação dos dados coletados, que são sistematizados, de acordo com as características das diversas realidade que estão sendo musealizadas, formando o banco de dados do museu, referente à realidade local, a partir das ações de pesquisa, por meio da ação interativa entre os técnicos e os grupos envolvidos. Busca-se a qualificação da cultura, da análise e compreensão do patrimônio cultural na sua dinâmica real e não a seleção de determinados aspectos para armazenamento e conservação. O banco de dados é o referencial básico de informação, aberto à comunidade, que é alimentado, constantemente, pelos diversos processos, em andamento no museu.

 

Os instrumentos utilizados na documentação são criados e adaptados a cada realidade, discutidos com os diversos grupos envolvidos na ação museológica e absorvidos pelos mesmos, para a sua aplicação. O processamento do conhecimento produzido e sua inclusão no banco de dados se dá com a participação dos componentes do museu, ao mesmo tempo em que os técnicos participam na elaboração dos instrumentos de coleta de dados, estabelece-se um processo dialógico no qual o museólogo e os demais grupos envolvidos são enriquecidos, tanto na fase do planejamento como na execução, havendo, também, um aumento da auto-estima de ambos quando o produto do seu trabalho é utilizado para a compreensão da realidade e para a construção de um novo conhecimento, atingindo, assim, os objetivos propostos na ação documental.

 

Conservação:Busca-se a formação de atitudes preservacionistas. Estabelece-se um processo no sentido de compreender os objetivos da preservação, no fazer cotidiano das pessoas. A conservação é, então, um processo de reflexão para uma ação que se dá em um contexto social e não somente a aplicação de técnicas em determinados acervos. Esforços são concentrados na busca da sensibilização e na formação de conservadores, na própria população, a partir de suas aptidões e atitudes.

 

Comunicação: A comunicação não está restrita à exposição. Faz parte do processo museológico, embora seja importante registrar que sempre fica  uma distância entre o material “inerte” que é exposto e o processo vital que lhe deu origem. Ao contrário do procedimento mais usual dos museus, em que a exposição é o ponto de partida no sentido de estabelecer uma interação com o público, nesta ação museológica a exposição é, ao mesmo tempo, produto de um trabalho interativo, rico, cheio de vitalidade, de afetividade, de criatividade e de reflexão, que dá origem ao conhecimento que está sendo exposto e a uma ação dialógica de reflexão, estabelecida no processo que antecedeu a exposição e durante a montagem, além de ser ponto de partida para outra ação de comunicação.

 

As demais ações museológicas de pesquisa e preservação, já analisadas anteriormente, também são um processo de comunicação, uma vez que são gestadas por meio de um processo constante de interação em uma ação pautada no diálogo, levando-se em consideração as características dos grupos envolvidos, e as diversas maneiras de estar no mundo e de se expressar, por meio de diferentes linguagens.

 

É interessante ressaltar que as ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação estão integradas entre si, aos objetivos dos diferentes projetos e às características dos diversos grupos sociais, em um processo constante de revisão, de adaptação e de renovação.

 

Com certeza, esse novo caminhar nos conduz, urgentemente, à necessidade de se repensar o perfil do profissional museólogo, tanto no aspecto formal como no aspecto político. Nesse sentido, considero que o Movimento da Nova Museologia fornece dados importantes para se repensar, tanto os currículos dos cursos de museologia como  o papel que as universidades devem desempenhar junto à sociedade. O Movimento da Nova Museologia foi um impulso necessário à renovação, contribuindo, efetivamente, com o enriquecimento do processo museológico e, sobretudo, com um fazer museológico mais ajustado às diversas realidades. Da construção concreta de museu, com base na interação e na participação, conseguimos avançar também em relação aos aspectos teórico-metodológicos da Museologia.

 

 

7 – Considerações Finais

 

 

O movimento, e não uma Nova Museologia, foi um vetor na busca de novos caminhos, que, a cada etapa avaliada, descobre-se não ter sido encontrado o ideal, mas o possível. Portanto, O Movimento da Nova Museologia no instrumenta para seguir adiante buscando o desenvolvimento constante da ciência museológica. É necessário, pois, reconhecer o papel do movimento denominado de Nova Museologia, sem contudo confundí-lo com a Museologia propriamente dita. Está claro, também, que as experiências da Nova Museologia nos fazem compreender que há formas diferentes de administrar museus e desenvolver processos museais. Os vários exemplos construídos nos últimos 30 anos, e referidos no presente texto, demonstram a factibilidade e a viabilidade de processos museais gestados a partir da iniciativa e da participação dos cidadãos, desmistifica a crença de que há um único modelo de construir museus e de se trabalhar com o patrimônio cultural. 

 

Enfim, acho que o movimento da Nova Museologia nos apontou os caminhos do respeito à diferença e à pluralidade, para a construção de uma museologia que está aberta às múltiplas realidades, ao crescimento do técnico, que passa a reconhecer seus limites e abre-se para o crescimento conjunto, a partir da interação com as comunidades, assumindo o seu compromisso social, na busca da cidadania e do desenvolvimento social. No nosso entender, este é o seu maior mérito: a sua contemporaneidade.

 

Entretanto, é necessário ressaltar que os princípios da Nova Museologia não são a “panacéia” para a solução de todos os problemas  dos museus e da Museologia. Há, com certeza, muitos aspectos que não serão resolvidos. Por outro lado, é preciso estar atento aos disfarces, à apropriação do discurso que não foi assimilado de forma consciente, ou seja, na vivência da construção conjunta, na relação teoria-prática, na experiência vivida, e é utilizado para a manipulação e para o modismo. Da mesma forma, o respeito a outras práticas museais também é essencial, pois somente na diversidade é que poderemos fazer escolhas, ter iniciativa e participar. Nesse sentido, encerro a minha reflexão, com uma referência de Keneth Walker, citado por Mendonça (1987, p.52) :

 

Tem-se chegado a um ponto que se sabe que a participação não é uma fórmula mágica, mas que requer um trabalho paciente. Nenhuma das formas de participação que foram aplicadas até agora resolveram completamente os problemas. É muito possível que esse problemas, como tantos outros de relações humanas, nunca sejam resolvidos de forma definitiva. Mais importante que buscar soluções totais é reconhecer que se trata de um processo prolongado de aprendizagem, cuja primeira etapa é aprender a aprender.


 

 

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 CAPÍTULO V 

Estratégias Museais e Patrimoniais Contribuindo para a Qualidade de Vida dos Cidadãos: diversas formas de musealização. [6]

 

 

 

1 - Apresentação

 

 

Buscaremos apresentar uma reflexão sobre as estratégias museais, realizando uma análise, que será discutida, considerando que os museus e as práticas museológicas estão em relação com as demais práticas sociais globais, sendo, portanto, o resultado das relações humanas, em cada momento histórico.

 

Abordaremos alguns referenciais básicos, considerados significativos para o desenvolvimento da Museologia Contemporânea, que funcionam como vetores no sentido de tornar possível a execução de processos museais mais ajustados às necessidades dos cidadãos, em diferentes contextos, por meio da participação, visando ao desenvolvimento social.

 

Tomaremos como referencial a experiência vivida, nas áreas da Educação e da Museologia, destacando a importância da produção do conhecimento e a relevância da relação teoria-prática, apresentando o desenvolvimento de projetos que têm contribuído, de forma marcante, para a melhoria da qualidade de vida das pessoas envolvidas, tornando possível a construção de uma ação museológica, que visa à conquista da autodeterminação, reconhecendo, no patrimônio integral, um instrumento de educação e desenvolvimento.

 

Por fim, buscaremos estabelecer as relações entre as diferentes formas de musealização, procurando destacar os princípios básicos que funcionaram como suporte para a sua aplicação, nos diferentes períodos e contextos, fazendo, também, um apelo à busca  do intercâmbio, com base no respeito à diferença, ou seja às diversas formas de musealização, destacando a importância do surgimento de novos questionamentos e da construção de novos caminhos, por meio de um processo constante de aprendizado.  

 

 

 

 

 

 

2 - Museologia Contemporânea: algumas reflexões

 

 

 

Nos últimos 30 anos produzimos e  provocamos grandes transformações no campo da Museologia. Considerando que o fazer museológico é o resultado das relações humanas, em cada momento histórico, em relação com as demais práticas sociais globais, podemos, talvez, afirmar que a Museologia, em transformação, é resultado de um mundo em transformação. A contemporaneidade  tem sido marcada por processos sociais  ricos, no sentido de reconhecer a diversidade, o respeito à diferença e, sobretudo, por um forte apelo para que exerçamos a nossa cidadania, com a consciência de que podemos ser sujeitos da história. Talvez possamos afirmar que a ação participativa seja uma das características mais marcantes  da contemporaneidade.

 

As inquietações ocorridas nos anos 60 abriram espaço para, posteriormente, se repensar o conceito de patrimônio e a relação do museu com a sociedade. Nesse contexto de buscas, reflexões e práticas museológicas até então desconhecidas, assistimos ao que, no nosso entender, tem sido  a contribuição mais significativa para a Museologia, na contemporaneidade, a participação de diversos segmentos da sociedade na construção e reconstrução dos processos museais. Das ações de  contemplação, ou de apreciação de uma museografia que era planejada e executada somente por uma equipe técnica, que detinha o conhecimento sobre as coleções, partimos para uma ação integrada, por técnicos e sujeitos sociais, que visam apropriar-se e reapropriar-se do patrimônio cultural.

 

Entretanto, a contemporaneidade tem sido marcada, também, por contrastes, por avanços  e recuos, que nos surpreendem, a cada momento, com a crescente produção de conhecimento, em diferentes áreas, como os até então inimagináveis avanços tecnológicos, e,  ao mesmo tempo, nos deixam assustados com a falta de ética, com a violência, com os contrates entre países e regiões de um mesmo país, com a concentração de renda entre um grupo de privilegiados, e, sobretudo, com a péssima qualidade de vida de vários segmentos da sociedade.

 

A participação, as inquietações com as práticas museológicas dissociadas dos anseios da sociedade e os marcantes contrastes desse mundo que estamos construindo têm nos estimulado a buscar  soluções criativas, que têm contribuído, efetivamente, para a construção do conhecimento na área da Museologia, para se repensar o nosso campo de atuação e os nossos cursos de formação e, sobretudo, para construir processos museais que têm como objetivo principal, a partir das reflexões sobre o patrimônio cultural, a compreensão da nossa identidade cultural, em seu rico processo de construção e reconstrução, compreendendo-a como o suporte essencial para o nosso desenvolvimento social, e, consequentemente, para a melhoria da qualidade de vida. Compreendemos que a qualidade implica participação, conquista, em busca da autogestão, da democracia e da liberdade. A musealização é então  processada na prática social - no interior do museu ou fora dele - em sua dinâmica real, no tempo e no espaço, abordando a cultura de forma integrada às dimensões do cotidiano, ampliando as suas dimensões de valor, de consciência e de sentido.

 

Entretanto, é necessário registrar que os caminhos percorridos são os mais diversos, pois a realidade social é multidimensional, assim como os processos museais contemporâneos não estão dissociados das experiências passadas, pois estão em relação, e, consequentemente, em permanente reconstrução. Por isso, optamos por fazer uma análise sobre o tema proposto, a partir da experiência vivida, acumulada ao longo dos anos, pois estão em relação com as atividades desenvolvidas no momento presente.

 

 

3 – Educador-Educando,  musealizando com o outro

 

 

Optei por fazer, neste item,  uma reflexão sobre o meu caminhar, como museóloga– educadora-educanda- em busca de uma melhor compreensão das estratégias museais, utilizadas ao longo dos anos. Estamos considerando, como estratégia, os caminhos escolhidos para a concretização dos objetivos traçados, nos diferentes projetos. As estratégias representam, portanto, “as escolhas relativas às formas e aos instrumentos necessários para a realização do trabalho” (Tentório, 1997). Pretendo, com a análise aqui efetuada, e que será o suporte para o desenvolvimento do próximo tópico, lançar mais um olhar sobre os caminhos percorridos, tentando contribuir, a partir da experiência vivida, com o enriquecimento ao debate em torno do tema proposto. Solicito, pois, a compreensão dos senhores, no sentido de entender a análise da minha atuação profissional, ou seja, de História de Vida, como referencial  para a compreensão  do tema indicado para a presente Mesa redonda.

 

Ao iniciar o Curso de Museologia, na Universidade Federal da Bahia, em 1970, trazia uma formação de professora de 1o  Grau e uma vivência de participação em grupos de “Juventude Estudantil Católica”  que me proporcionaram os suportes necessários no sentido de indicar os caminhos que por mim deveriam ser percorridos, a fim de assumir o meu compromisso social. Ainda como estudante, a minha grande preocupação era trazer o público ao museu. Questionava: “Por que manter salas de exposições tão ricas, recheadas de objetos, se não havia uma utilização dos mesmos por parte da população?”.  A solução para mim, talvez pela formação de educadora, estava na relação museu-escola. Já àquela época, delineava a minha área de atuação na Museologia e, posteriormente, quando passei a ministrar aulas no Curso de Museologia, não tinha a menor dúvida que atuaria  com ação cultural e educativa dos museus. Dos Museus, sim, porque para mim,  àquela época, a Museologia era a ciência dos museus, e a coleção era o vetor da ação por executar, com professores e alunos.

 

A minha experiência com alunos e professores foi então iniciada no Museu de Arte Sacra da Universidade Federal da Bahia, quando os técnicos realizavam a pesquisa em torno do Histórico do Museu e das coleções, e em seguida, transmitiam as informações aos alunos e professores nas visitas guiadas realizadas pelos diversos grupos, nas várias salas do Museu, quando a ênfase era dada às características do monumento e dos objetos.  Pretendia-se divulgar a instituição museu e o seu acervo, aumentar o número de visitas àquela instituição, torná-lo conhecido na comunidade escolar. Posteriormente, os programas foram evoluindo, em sua concepção, pois começou a haver uma busca da contextualização dos objetos, o que exigia uma pesquisa além do objeto, ou seja, características econômicas, sociais e políticas dos diversos períodos relacionados às coleções. Passa-se a compreender o objeto como resultado das relações sociais que os produziram, em diferentes épocas e contextos.  Busca-se a participação do aluno, utilizando diferentes técnicas de trabalhos em grupo, cujo objetivo principal era fazer com que, a partir da observação-percepção do objeto, o aluno pudesse compreender o estilo, a técnica utilizada e as características dos diversos contextos, em um determinado tempo e espaço. Trabalha-se com o professor, motivando-o a utilizar os conteúdos abordados, relacionando-os com os temas da sua disciplina, principalmente as disciplinas  História e Geografia. 

 

Ao longo do caminhar, percebemos que os objetos expostos nos museus poderiam ser utilizados, também, como referencial para a compreensão do presente. Nesse sentido, foram planejadas atividades, a partir dos temas das coleções, nas quais os alunos eram convidados a participar, realizando atividades práticas, contextualizando e construindo a relação passado-presente, com a orientação de técnicos.

 

Podemos considerar que os avanços ocorridos, nessa fase, em relação aos aspectos teórico-metodológicos dos diversos projetos, desenvolvidos e citados anteriormente, vieram, por conta das reflexões realizadas no mestrado em educação,  que contribuíram, de maneira primordial para a melhoria do processo de aprendizagem por parte dos alunos com os quais trabalhava, fazendo com que eu também avançasse, como educadora, tanto em relação aos programas desenvolvidos com os alunos do 1o e 2o Graus, quanto em relação aos alunos do Curso de Museologia, não só no andamento da Disciplina Ação Cultural e Educativa dos Museus como nas atividades práticas do Estágio Supervisionado, pois todos os programas eram realizados com a participação dos estudantes matriculados nessa disciplina.

 

Quando fomos convidados para coordenar a montagem do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA, pelo então Reitor Macêdo Costa, a nossa concepção de museu era essencialmente educativa, e, portanto, a instituição deveria ser pensada, concebida, com esse objetivo. Nesse sentido, toda a museografia ou seja, a aplicação das ações de pesquisa, preservação e comunicação deveriam ser executadas com  um fim educativo. Após a montagem da exposição para a inauguração do Museu, preocupados em aproximar ao nova instituição da comunidade do bairro,  procuramos o Colégio Azevedo Fernandes, o maior situado na área, para iniciarmos essa ação de integração. O nosso objetivo era apresentar o Museu de Arqueologia aos professores e realizar um planejamento, com a participação dos mesmos, com o objetivo de adequar os conteúdos das disciplinas às coleções expostas no Museu. Após o contato com os professores fomos expor as nossas  propostas para os alunos, e, para nossa surpresa, os mesmos manifestaram um grande interesse em estudar a história do bairro, registrando que, apesar de estudarem em uma escola situada em pleno Centro Histórico da Cidade do Salvador, jamais haviam recebido informações sobre a sua evolução histórica. A iniciativa daquele grupo nos motivou, a mim e aos estagiários do Curso de Museologia, a aceitar o desafio de, com a participação dos mesmos, pesquisar e construir uma metodologia que privilegiasse a participação, quando os temas abordados deveriam surgir do questionamento e do interesse dos alunos. Do planejamento à operacionalização, experimentamos o prazer do crescimento proporcionado pela  possibilidade da criação compartilhada. A sugestão do tema, pelos alunos foi o vetor no sentido de nos  mobilizar para realizar, pela primeira vez, no Curso de Museologia, um trabalho Museológico fora do espaço do museu- o patrimônio cultural da cidade foi o nosso objeto museológico.

 

Para analisarmos o contexto urbano como objeto museológico - portanto passível de ser musealizado- definimos a cidade como forma, como lugar de forças sociais, como imagem; a cidade como artefato, construída pelo homem, e socialmente por ela apropriada. Também, pela primeira vez, os professores das diversas disciplinas técnicas do curso, no estágio supervisionado, realizaram um projeto integrado, a partir de temas comuns: O Pelourinho e o Terreiro de Jesus. As ações de pesquisa, preservação e comunicação foram aplicadas ao fazer cultural local, com a participação dos alunos do Curso de Museologia e do 1o Grau, e integradas às diversas disciplinas do currículo do primeiro grau, das várias áreas de ensino. A ampliação do conceito de patrimônio possibilita, também, a sua  utilização de forma interdisciplinar, multidisciplinar e transdisciplinar. ( Santos, 1988).

 

Posteriormente, por iniciativa dos professores e alunos, trabalhamos com o acervo do Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA, analisando vários aspectos do fazer cultural do índio, a partir das coleções ali expostas e as questões indígenas no Estado da Bahia, inclusive os conflitos de terra. Naquela oportunidade,  buscou-se, também, entender o museu no contexto do bairro, em relação com outros equipamentos, como a  escola, as irmandades religiosas, as associações e outros museus locais.

 

Podemos considerar que esse processo interativo nos fez avançar, tanto na área da educação, como na área da Museologia. O processo de musealização do espaço urbano, realizado em interação com os alunos, professores e moradores locais, proporcionou a adoção de métodos e técnicas até então desconhecidos no Curso de Museologia, permitindo-nos avançar, não só em relação à aplicação  das ações museais, em diferentes contextos, tendo como objeto de estudo o patrimônio global, ou seja, o homem, o meio ambiente, o saber e o artefato, em suas dimensões de tempo e espaço, bem como em relação à construção de processos museológicos  gestados a partir da interação com diversos sujeitos sociais. Aprendemos, na interação com o outro, a lançar um olhar museológico sobre a nossa cidade, a sair do museu, para entrar no museu e musealizar fora do museu. Nesse contexto, portanto, a museologia já estava sendo aplicada na relação com o homem, criador e transformador de cultura.

 

Do Centro Histórico passamos para o Rio Vermelho, outro bairro da Cidade do Salvador, novamente lançando mais um olhar museológico, em interação com alunos e professores do 1o Grau, realizando ações com professores das diversas disciplinas, a partir da observação e análise do patrimônio cultural local,  embasados na experiência já desenvolvida com o Colégio Azevedo Fernandes e com a Comunidade do Pelourinho, e, dessa feita, deixando publicado material pedagógico para ser utilizado por professores de todas as áreas de ensino, a partir do tema “O Bairro do Rio Vermelho”. ( Santos, 1990).

 

Essa História de vida profissional está sedimentada em nosso compromisso social, assumindo que somos capazes de agir e  refletir, transformando a realidade. Assim, optei por realizar uma tese de doutorado, que tivesse como objeto de estudo a implantação de um Museu em um colégio público da Cidade do Salvador. (Santos, 1996).  Mais uma vez, busquei  sair do espaço fechado da universidade, evitando construir uma tese que fosse destinada somente à academia. Assumimos que há possibilidade de produzir conhecimento em todos os níveis de escolarização e que este conhecimento pode ser construído em uma determinada ação de caráter social, reconhecendo o papel ativo dos observadores na situação pesquisada e dos membros representativos dessa situação.

 

Escolhemos para desenvolver a ação proposta, o Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, situado na Rua Prof. Souza Brito s/no, na Estrada do Farol, em Itapuã, em Salvador-BA, por possuir um Curso de Magistério. Pretendíamos, a partir das atividades, que seriam planejadas e desenvolvidas, em sala de aula, com professores, alunos e funcionários do referido curso, envolver professores e alunos do 1oe 2o Graus, bem como membros da comunidade local.

 

A escolha do Bairro de Itapuã como área-objeto de estudo deveu-se  à necessidade de realizar um estudo sistemático, a partir da escola, envolvendo a comunidade local e buscando, através das ações planejadas com os diversos segmentos envolvidos, a compreensão e a reflexão sobre o seu patrimônio cultural, na dinâmica do processo social. Compreendo que essa escolha veio em decorrência do meu caminhar, ao longo dos anos, como educadora e museóloga. Foi o meu crescimento, na relação com os alunos e professores, e membros das diversas comunidades onde atuei, que proporcionou a base necessária para realizar um processo museal que antecedeu a existência objetiva do museu. Hoje, considero a ação museológica como uma ação educativa e de interação, que produz conhecimento e busca a construção de uma nova prática social. Portanto, a ação museológica é, por mim compreendida, como uma ação educativa e de comunicação.

 

Quanto ao acervo que está sendo musealizado, podemos identificá-lo como acervo institucional e como acervo operacional. O acervo institucional está sendo formado, gradualmente, levando-se em consideração os contextos sociais e históricos, que as peças documentam, levantando-se as demais referências desses contextos, considerando-se valores modestos, anônimos, sem relevância estética, ou de ineditismo. Está sendo considerada de vital importância, nesse sentido, toda a produção cultural que se refira ao universo do cotidiano e do trabalho. No acervo institucional estão sendo, também, agregados materiais arquivístico e iconográfico, fotografias, plantas, maquetes, depoimentos e testemunhos de várias naturezas, bem como toda a documentação urbana disponível. Quanto ao acervo operacional, são considerados: a paisagem, estruturas, monumentos, equipamentos, áreas e objetos sensíveis do tecido urbano, socialmente apropriados, percebidos não só na sua carga documental, como também na sua capacidade de alimentar as representações urbanas.

 

Os recursos e fontes potenciais da comunidade e da Cidade do Salvador estão sendo utilizados em um processo contínuo de aprendizagem de jovens e adultos, tendo sido possível, também, compreender que, qualquer museu, independentemente da sua categoria e localização, pode trabalhar com os acervos institucional e operacional. Nos diversos projetos desenvolvidos, ao longo desses seis anos, tivemos a oportunidade de integrar, relacionar e aproximar objetos, coleções, patrimônio global, patrimônio instituído, sair do museu, voltar para o museu, considerando as diversas categorias existentes na Cidade do Salvador, buscando, na totalidade, compreender a Museologia como um processo, no qual as ações de pesquisa, preservação e comunicação, são aplicadas, tendo como referencial os objetivos e diretrizes definidos com a participação dos sujeitos envolvidos.

 

A problematização de temas, selecionados a partir do núcleo básico:

 

·          Identidade;

·          Espaço;

·          Tempo e

·          Transformação,

 

está possibilitando a aplicação das ações museológicas, submetidas a um constante processo de reflexão, ou melhor, de ação-reflexão,  contribuindo, também, para que a Museologia e sua prática sejam questionadas e enriquecidas.

 

Nos esquemas apresentados nas páginas seguintes, realizamos uma síntese das concepções adotadas, em relação à missão, aos objetivos e à atuação dos sujeitos envolvidos, buscando facilitar a compreensão dos processos acima descritos.

 

4 – Estratégias Museais: caminhos em busca da qualidade e da participação

 

 

A partir das reflexões sobre os dados apresentados no item anterior, buscarei apresentar, nos itens a seguir, algumas estratégias utilizadas, a partir das concepções de Museologia adotadas, e já explicitadas, buscando uma melhor compreensão dos caminhos escolhidos para alcançar os nossos objetivos e a nossa missão,  destacando  desta feita, a forma e os instrumentos utilizados. As estratégias escolhidas foram  respostas às ameaças, às oportunidades identificadas ao longo da execução dos diversos projetos, quando da análise dos diferentes contextos. Foram apontadas a partir do conhecimento acumulado, da criatividade, das conjecturas e da projeção dos participantes envolvidos nas diversas ações.

 

 

Museologia com Ênfase no Objeto-Coleção

 

Estratégias Utilizadas:

 

·          Selecionar os objetos e as informações bibliográficas;

 

·          Promover o aumento do número de visitantes ao Museu, através das visitas de escolares e professores;

 

·          Utilizar os objetos como fonte de informação, através da visita guiada;

 

·          Realizar palestras para professores e coordenadores;

 

·          Treinar e capacitar o pessoal do Museu para trabalhar com o público;

 

·          Escolher temas, a partir das coleções expostas, relacionando-os com os conteúdos das disciplinas;

 

·          Preparar material didático, com a participação do professor;

 

·          Preparar instruções para realizar a leitura dos objetos;

 

·          Descrever as características e os elementos que compõem os objetos;

 

·          Comparar objetos entre si, destacando semelhanças e diferenças, a partir da observação dos alunos;

 

·          Converter o objeto em significante cultural-contextualização;

 

·          Preparar instrumentos para avaliação, e avaliar, continuamente;

 

·          Acompanhar o trabalho do professor, em sala de aula, fornecendo feedback para a equipe do Museu;

 

·          Levantar temas da atualidade, buscando realizar a relação passado-presente, estimulando os alunos a comparar estilos, formas, a contextualizar, a realizar conexões entre velho e novo, entre uma civilização e outra.

 

 

Museologia com Ênfase na relação Homem-Patrimônio Global

 

Estratégias Utilizadas:

 

·          Promover a participação dos cidadãos-beneficiários[7], realizando reuniões para definição da missão e dos objetivos a serem alcançadas;

 

·          Delimitar um território, tanto em seus aspectos geofísicos como nos aspectos culturais;

 

·          Constituir grupos de trabalho, buscando a definição de temas e de problemas e das estratégias a serem utilizadas, a partir da reflexão sobre o patrimônio cultural local, de acordo com o interesse e a iniciativa do grupo;

 

·          Promover uma constante ação de comunicação entre os técnicos e os cidadãos-beneficiário;

 

·          Buscar parcerias para apoio científico e financeiro;

 

·          Promover a apropriação e a reapropriação do patrimônio cultural, por meio das ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação, tornando possível ao cidadão, desde a sua formação, considerá-lo como um referencial para o exercício da cidadania;

 

·          Treinar o professor para o planejamento e a execução de projetos, tendo como referencial o patrimônio cultural;

 

·          Aplicar as ações museológicas, promovendo a interação entre as mesmas, de acordo com os objetivos estabelecidos;

 

·          Aplicar as ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação, com a participação dos cidadãos-beneficiários, socializando-as, partindo da heterogeneidade, o domínio do conhecimento sistematizado, para a homogeneidade, ou seja, o domínio desse  mesmo conhecimento pelos grupos com os quais estamos atuando, buscando a troca e o enriquecimento;

 

·          Promover a gestão e a organização do Museu, com a participação dos grupos envolvidos;

 

·          Avaliar e reformular a estrutura organizacional do Museu, de modo a obter maior autonomia e flexibilidade;

 

·          Utilizar o patrimônio cultural como referencial para a realização de atividade pedagógicas, buscando a melhoria da qualidade do ensino;

 

·          Potencializar os recursos educativos da comunidade, realizando o intercâmbio necessário entre o ensino formal e o não-formal, um alimentando o outro;

 

·          Aplicar as ações museológicas, considerando como ponto  de partida a prática social e não somente as coleções;

 

·          Promover a participação dos moradores locais nas atividades a serem desenvolvidas, contribuindo para a construção do conhecimento, a partir das suas histórias de vida, qualificando-as como parte do patrimônio cultural;

 

·          Promover a formação de acervos, considerando o conjunto de bens dinâmicos, em transformação, em uma comunidade;

 

·          Processar a classificação e o registro dos dados coletados de acordo com as características das diversas realidades que estão sendo musealizadas, por meio da ação interativa entre os técnicos e os “cidadãos-beneficiários”;

 

·          Elaborar os instrumentos a serem utilizados na ação documental, de acordo com as características do acervo a ser musealizado, envolvendo os participantes na confecção e na aplicação da ação documental;

 

·          Promover a formação de atitudes preservacionistas, a partir da aplicação das ações de conservação, no cotidiano das pessoas;

 

·          Planejar e executar exposições, musealizando o conhecimento produzido em interação com os cidadãos-beneficiários;

 

·          Promover o intercâmbio com outros museus e processos museais em andamento, nos âmbitos local, nacional e internacional;

 

·          Buscar a coerência e a prática, evitando os disfarces, o modismo e o paternalismo;

 

·          Sistematizar os dados coletados, a partir das ações desenvolvidas nos diversos projetos, realizando um trabalho contínuo de ação-reflexão.

 

 

 

5- Estabelecendo Relações, aproximando Processos

 

É impossível considerar os diversos processos apresentados como se fossem compartimentos estanques, parados no tempo e no espaço. Muito ao contrário, estão, e sempre estiveram, em relação. É assim que hoje, ao sair do Museu Didático-Comunitário de Itapuã para realizar um intercâmbio com outros museus da Cidade do Salvador, não podemos desprezar a experiência construída nos processos museais gestados e desenvolvidos com os acervos do Museu de Arte Sacra, com o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFBA, com o Museu Eugênio Teixeira Leal,  com o Museu de Arte Moderna e tantos outros, bem como com o contexto urbano do Centro Histórico da nossa Cidade. Acho mesmo que esse caminhar, enriquecido com o crescimento da produção do conhecimento na área da Museologia, ao longo dos anos, nos faz hoje considerar que é necessário reconhecer que há diferentes formas de se aplicar o processo museológico, assim como há diferentes formas de organizar e gerir museus, e que, a partir da nossa concepção de museologia, podemos retirar, de cada um, os recursos potenciais para a consecução dos nossos objetivos.

 

A missão e os objetivos definidos, bem como as estratégias utilizadas não estão condicionadas às categorias de museus com os quais estamos acostumados a atuar, porque somos nós que construímos a instituição e os processos museais. Portanto, missão, objetivos e estratégias são definidas a partir da nossa concepção de Museologia, refletida e enriquecida com a participação dos sujeitos envolvidos no processo de musealização.

 

A análise desse nosso caminhar nos indica que dois aspectos foram essenciais  para a aplicação das diversas formas de musealização apresentadas, tendo como objetivo maior a melhoria da qualidade de vida e o exercício da cidadania:

 

·        Compromisso social (qualidade política);

·        Instrumentação Científica e desafio tecnológico (qualidade formal).

 

A instrumentação científica forneceu o suporte necessário para que pudéssemos avançar, tanto em relação à definição dos objetivos a serem alcançados, como em relação à operacionalização dos diferentes projetos, colocando a técnica a serviço da sociedade, buscando as transformações possíveis, desejadas, sonhadas e alcançadas por meio da qualidade política, ou seja, do nosso compromisso social, na troca, no crescimento conjunto, buscando, cada vez mais o aumento da participação, o envolvimento dos cidadãos-beneficiários.

 

Constato que, nos diferentes processos descritos, quer seja construindo a ação a partir do objeto, da coleção, do contexto urbano, quer seja aplicando a ação museal, tendo como referencial a relação do homem com o patrimônio cultural, o que temos almejado, a nossa missão tem se dado, por meio da Museologia e da educação, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida.  As estratégias utilizadas foram definidas a partir das características dos diferentes contextos, desafios apresentados e conquistas conseguidas, não podendo  e não devendo ser consideradas como uma receita pronta. Com certeza, ao realizarmos outras formas de musealização, as utilizaremos como referencial para a reflexão e ação, mas as circunstâncias, os diversos contextos, nos indicarão outras formas, ou seja, outras respostas às ameaças e oportunidades. Entretanto, os resultados alcançados a partir das estratégias utilizadas servirão como referencial para não cometermos os mesmos erros.

 

Consideramos que as práticas museológicas desenvolvidas ao longo dos anos com base nos princípios do “Movimento da Nova Museologia” têm contribuído, efetivamente, para o enriquecimento da produção do conhecimento em nosso campo de atuação e para a melhoria da qualidade de vida. Consideramos, também, como da maior urgência a quebra do isolamento, ou seja, a abertura dos museus instituídos e dos outros processos museais, no sentido de realizar o intercâmbio necessário, no respeito à diferença, buscando a troca salutar, o enriquecimento com a experiência do outro, o incentivo à criatividade e à abertura de novos caminhos. É inadmissível que após mais de 20 anos de experiências concretas, em diferentes contextos e países, com resultados divulgados e conhecidos pelos nossos pares, ainda estejamos vivendo em “feudos”, aplicando rótulos, nos recusando a enriquecer com a experiência do outro. O que está em jogo é o uso que estamos fazendo da Museologia. Por outro lado, estamos cansados de assistir à apropriação do discurso que não é coerente com a prática, dos falsos adeptos da Museologia dita social, quando, compreendemos que a Museologia propriamente dita implica  ação social. Aprender com a diferença, sem camuflar os nossos propósitos é princípio básico da ética profissional.

 

As formas de musealização serão sempre renovadas, enriquecidas, desde que tenhamos iniciativa e a determinação necessária à abertura de novos caminhos. Com certeza, os problemas nunca serão resolvidos de forma definitiva. O que temos realizado é resultado de um processo prolongado de aprendizagem que nos tem feito crescer, nos aspectos pessoal e profissional e que nos conduz a, junto com o outro,  construir novos questionamentos e buscar novos caminhos.

 

Analisando esse caminhar profissional, que sempre esteve imerso de desejo, paixão e sonho, considero que a busca maior esteve sempre relacionada, como já foi explicitado no decorrer do presente trabalho, a um forte anseio de promover, por meio da Museologia e da educação, o desenvolvimento social, visando a uma melhor  qualidade de vida. Qualidade que tem sido construída, geralmente, em contraposição às circunstâncias oferecidas, tentando diminuir as formas dadas de determinação externa, na construção diária, permanente, de um espaço de autodeterminação. 


 

 

6 - Bibliografia

 

 

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RIVARD, René. El Futuro da La Museologia. Cadernos de Museologia. Lima: Pontíficia Universidad Catolica del Peru. Museo de Arte Popular, 1989, p. 35

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______. Que Le Musée S’ Ouvre – ou une nouvelle muséologie: les écomusées et les musées ouverts. Québec, 1984 .mimeo.

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_______. Integrando a Escola ao Bairro. Salvador: Instituto Anísio Teixeira - Secretaria de Educação. 1990. 129p.

 

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_______. Processo Museológico e Educação: construindo um museu didático-comunitário. Lisboa: ISMAG/UHLT ( Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias). Centro de Estudos de Sociomuseologia. 1996.

 

_______. Repensando a Ação Cultural e Educativa dos Museus. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA. 1993. 2a edição ampliada. 136p.

 

_______. Documentação Museológica, Educação e   Cidadania. Ciência e Museu; Museu Goeldi/CNPq, set. 1993 - 35-40.

 

_____. A Escola e o Museu no Brasil: uma História de Confirmação dos Interesses da Classe Dominante. Cadernos Museológicos (3). Lisboa: Centro de Estudos de Sociomuseologia. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia. 1994.

 

_______. A preservação da Memória Enquanto Instrumento de Cidadania. Cadernos de Museologia (3) Lisboa: Centro de Estudos de Sociomuseologia. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia. 1994.

 

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______. Formação de Pessoal Para Museus, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável - O Papel da Universidade. Estudos de Museologia/Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Departamento de Promoção. Rio de Janeiro: IPHAN, 1994.

 

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­­­­­________ . Uma Abordagem Museológica do Contexto Urbano. Cadernos de Museologia (5) Lisboa: Centro de Estudos de Sociomuseologia. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologia. 1996.

 

________ . Museu-Casa: Comunicação e Educação. Anais do II Seminário sobre Museus-Casas. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1998.

 

________.  Processo Museológico: Critérios de Exclusão. Anais da II Semana dos Museus da Universidade de São Paulo. São Paulo: USP ( Pró-Reitoria de Extensão Universitária), 1999.

 

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CAPÍTULO VI

A Formação do Museólogo e o seu Campo de Atuação[8]

 

                                  

 

1- Introdução

 

 

Foi com prazer que recebi o convite para participar do XV Congresso Nacional de Museus, promovido pela Associação Brasileira de Museologia, para apresentar as minhas reflexões sobre um tema que considero da maior relevância, qual seja “A Formação do Museólogo e o seu Campo de Atuação”, inserindo-o no tema geral proposto para este evento, “Museu & Museologia para o Século XXI – perspectivas para Países Periféricos”. Agradeço, pois, aos colegas organizadores do evento, pela possibilidade de troca, de avaliação da formação dos profissionais, para a qual estamos contribuindo, ao  tempo em que, estamos, também, tendo a  oportunidade  de avaliar a nossa atuação. 

 

A minha análise será efetuada tomando como referencial a minha atuação no Curso de Museologia da UFBA, onde atuei por 25 anos, como coordenadora, chefe de departamento e professora, desenvolvendo ações de ensino, pesquisa e extensão, de forma integrada e em relação com vários grupos com os quais desenvolvi diversos projetos, ao longo dos anos. Nesse longo caminhar, tive a oportunidade de atuar e aprender, em uma rica relação de troca,  com os alunos do Curso de Museologia realizando experiências no interior do museu e fora do museu, no interior da universidade e fora da universidade, na relação com os diversos sujeitos sociais participantes das ações desenvolvidas.

 

Atualmente, como professora aposentada da UFBA, tenho atuado em diversos projetos, no Brasil e no Exterior, o que me tem  permitido continuar atuando com a formação do museólogo, bem como na formação de cidadãos em um rico processo de ação e reflexão, que nos tem motivado a utilizar o patrimônio cultural como suporte fundamental para o desenvolvimento social e para o exercício da cidadania.

 

É, pois, com base na experiência vivida, que tentarei enfocar o tema proposto para a presente Mesa-redonda, acreditando que os pontos aqui levantados irão alimentar o debate, a reflexão conjunta. Registro, entretanto, que a experiência vivida não está esvaziada, alheia à construção do conhecimento que tem ocorrido na área da Museologia, ao longo dos anos; ao contrário, temos buscado o embasamento necessário ao desempenho das nossas ações, e ao mesmo tempo temos refletido e sistematizado as experiências vividas, buscando a relação necessária entre a teoria e a prática, contribuindo, também,  para a produção do conhecimento, em nosso campo de atuação.

 

É, pois, misturando vida, ação, reflexão, que apresentarei, inicialmente, embora de forma rápida, devido ao limite do tempo, algumas considerações sobre a Museologia, por considerar ser o suporte, a base necessária que alimenta a atuação do museólogo, sem a qual a sua ação acabará no ativismo, sem fundamento, sem conteúdo. Em seguida  farei alguns comentários sobre a formação do museólogo em nosso pais, para, posteriormente, apresentar alguns tópicos que considero sejam relevantes para a sua  formação. Por fim, tentarei enfocar algumas possibilidades para o seu campo de atuação, dentre as múltiplas possibilidades oferecidas pela sociedade, em um país da América Latina.   

 

 

2- Considerações sobre a Museologia

 

 

Não pretendo, e nem poderia, neste momento, enfocar, de forma mais abrangente, as questões relacionadas aos aspectos teórico-metodológicos da Museologia. Tentarei resumir os pontos que considero mais relevantes, em uma análise de contexto, buscando o suporte necessário para discutir e apoiar a discussão sobre o nosso tema, “A Formação e a Atuação do Museólogo”.

 

As inquietações, a ânsia por mudanças, e  a grande motivação para a participação provocaram quebras de paradigmas, a adoção de novos paradigmas, e de múltiplos paradigmas nas três últimas décadas. Retomo aqui algumas reflexões por mim apresentadas sobre a Museologia, na contemporaneidade, no encontro do MINOM, realizado em Salvador, também neste mês de novembro, por considerá-las atuais. (Santos, 1999).[9]

 

Nos últimos 30 anos produzimos e  provocamos grandes transformações no campo da Museologia. Considerando que o fazer museológico é o resultado das relações humanas, em cada momento histórico, em relação com as demais práticas sociais globais, podemos, talvez, afirmar que a Museologia, em transformação, é resultado de um mundo em transformação. A contemporaneidade  tem sido marcada por processos sociais ricos, no sentido de reconhecer a diversidade, o respeito à diferença e, sobretudo, por um forte apelo para que exerçamos a nossa cidadania, com a consciência de que podemos ser sujeitos da história. Talvez possamos afirmar que a ação participativa seja uma das características mais marcantes  da contemporaneidade.

 

As inquietações ocorridas nos anos 60 abriram espaço para, posteriormente, se repensar o conceito de patrimônio e a relação do museu com a sociedade. Nesse contexto de buscas, reflexões e práticas museológicas, até então desconhecidas, assistimos ao que, no nosso entender, tem sido  a contribuição mais significativa para a Museologia, na contemporaneidade: a participação de diversos segmentos da sociedade na construção e reconstrução dos processos museais. Das ações de  contemplação, ou de apreciação de uma museografia que era planejada e executada somente por uma equipe técnica, que detinha o conhecimento sobre as coleções, partimos para uma ação integrada, por técnicos e sujeitos sociais, que visam apropriar-se e reapropriar-se do patrimônio cultural.

 

Entretanto, a contemporaneidade tem sido marcada, também, por contrastes, por avanços  e recuos, que nos surpreendem, a cada momento, com a crescente produção de conhecimento, em diferentes áreas, como os até então inimagináveis avanços tecnológicos, e, ao mesmo tempo, nos deixam assustados com a falta de ética, com a violência, com os contrastes entre países e regiões de um mesmo país, com a concentração de renda entre um grupo de privilegiados, e, sobretudo, com a péssima qualidade de vida de vários segmentos da sociedade.

 

A participação, as inquietações com as práticas museológicas dissociadas dos anseios da sociedade e os marcantes contrastes desse mundo que estamos construindo têm nos estimulado a buscar  soluções criativas, que têm contribuído, efetivamente, para a construção do conhecimento na área da Museologia, para se repensar o nosso campo de atuação e os nossos cursos de formação e, sobretudo, para construir processos museais que tenham como objetivo principal, a partir das reflexões sobre o patrimônio cultural, a compreensão da nossa identidade cultural, em seu processo de construção e reconstrução, compreendendo-a como o suporte essencial para o nosso desenvolvimento social, e, consequentemente, para a melhoria da qualidade de vida. Compreendemos que a qualidade implica participação, conquista, em busca da autogestão, da democracia e da liberdade. A musealização é então  processada na prática social - no interior do museu ou fora dele - em sua dinâmica real, no tempo e no espaço, abordando a cultura de forma integrada às dimensões do cotidiano, ampliando as suas dimensões de valor, de consciência e de sentido.

 

Admitindo que o patrimônio cultural é o referencial básico para o desenvolvimento das ações museológicas, considero que os processos museais  gestados, ao longo dos anos,  contribuíram, de modo efetivo, para a ampliação do conceito de patrimônio, na medida em que o conceitua como a relação do homem com o meio, ou seja, o real, na sua totalidade: material, imaterial, natural e cultural, em suas dimensões de tempo e de espaço. Consequentemente, os bens culturais a serem musealizados também foram ampliados. Nesse sentido, as ações museológicas não serão processadas somente a partir dos objetos, das coleções, mas tendo como referencial o patrimônio global, tornando assim  necessária uma ampla  revisão dos métodos a serem aplicados nas ações de pesquisa, preservação e comunicação, nos diferentes contextos.

 

Por outro lado, a ampliação do conceito de patrimônio está relacionada à criação de novas categorias de museus, como ecomuseu, museu comunitário, museu de vinzinhança, etc., que não estão fechados nas paredes de um edifício, mas realizam as ações museológicas em um território, com uma população. Essas novas categorias de museus, abertas a uma população e a um território, irão contribuir, também, para que as ações museológicas possam ser processadas fora do espaço restrito do museu, abrindo, assim, amplas possibilidades para a realização de novos processos de musealização. Do ponto de vista metodológico, foi um vetor a incentivar a busca de soluções criativas. A seguir, realizo uma análise das  ações  museológicas de pesquisa, preservação e comunicação, a partir das reflexões acima realizadas: 

pesquisa

 

Construção do conhecimento, tomando como referencial o cotidiano, qualificado como patrimônio cultural. Este conhecimento é construído na ação museal e para a ação museal, em interação com os diversos grupos envolvidos, objetivando a construção de uma nova prática social. Não se trata da pesquisa que se esgota na mera descrição e análise dos objetos. A pesquisa  alimenta todas as ações museológicas, em processo.

 

Preservação

Consideram-se as seguintes etapas:

 

coleta - o acervo é o conjunto dos bens dinâmicos em transformação em uma comunidade, e não somente uma coleção. Esse acervo é propriedade privada ou coletiva dos indivíduos, não é adquirido nem pertence ao museu. Trabalha-se  com o acervo institucional, ou seja: material arquivístico e iconográficos, plantas, maquetes, depoimentos e testemunhos, etc., e com o acervo operacional: as áreas do tecido urbano, socialmente apropriadas, como paisagens, estruturas, monumentos, equipamentos, as técnicas do saber e do saber fazer, com os artefatos, com o meio rural, etc.

 

 

classificação e registro – o processo documental não se limita ao registro do acervo. Busca-se, através da cultura qualificada, produzir conhecimento, elaborado no processo educativo, por meio das ações de pesquisa. Há uma documentação dos dados coletados, que são sistematizados, de acordo com as características das diversas realidade que estão sendo musealizadas, formando o banco de dados do museu, referente à realidade local, a partir das ações de pesquisa, por meio da ação interativa entre os técnicos e os grupos envolvidos. Busca-se a qualificação da cultura, da análise e da compreensão do patrimônio cultural na sua dinâmica real e não a seleção de determinados aspectos para armazenamento e conservação. O banco de dados é o referencial básico de informação, aberto à comunidade, que é alimentado, constantemente, pelos diversos processos em andamento no museu.

 

Os instrumentos utilizados na documentação são criados e adaptados a cada realidade, discutidos com os diversos grupos envolvidos na ação museológica e absorvidos pelos mesmos, para a sua aplicação. O processamento do conhecimento produzido e sua inclusão no banco de dados se dá com a participação dos componentes do museu, ao mesmo tempo em que os técnicos participam da elaboração dos instrumentos de coleta de dados, estabelecendo-se um processo dialógico no qual o museólogo e os demais grupos envolvidos são enriquecidos, tanto na fase do planejamento como na execução, havendo, também, um aumento da auto-estima de todos quando o produto do seu trabalho é utilizado para a compreensão da realidade e para a construção de um novo conhecimento, atingindo, assim, os objetivos propostos na ação documental.

 

 

Conservação- busca-se a formação de atitudes preservacionistas. Estabelece-se um processo no sentido de compreender os objetivos da preservação, no fazer cotidiano das pessoas. A conservação é, então, um processo de reflexão para uma ação que se dá em um contexto social e não somente a aplicação de técnicas em determinados acervos. Esforços são concentrados na busca da sensibilização e na formação de conservadores, bem como com a própria população, a partir de suas aptidões e atitudes.

 

Comunicação- A comunicação não está restrita à exposição. Faz parte do processo museológico, embora seja importante registrar que sempre fica  uma distância entre o material “inerte” que é exposto e o processo vital que lhe deu origem. Ao contrário do procedimento mais usual dos museus, em que a exposição é o ponto de partida no sentido de estabelecer uma interação com o público, nesta ação museológica a exposição é, ao mesmo tempo, produto de um trabalho interativo, rico, cheio de vitalidade, de afetividade, de criatividade e de reflexão, que dá origem ao conhecimento que está sendo exposto e a uma ação dialógica de reflexão, estabelecida no processo que antecedeu a exposição e durante a montagem, além de ser ponto de partida para outra ação de comunicação.

 

 

As demais ações museológicas de pesquisa e preservação, já analisadas anteriormente, também são um processo de comunicação, uma vez que são gestadas por meio de um processo constante de interação em uma ação pautada no diálogo, levando-se em consideração as características dos grupos envolvidos, e as diversas maneiras de estar no mundo e de se expressar, por meio de diferentes linguagens. É interessante ressaltar que as ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação estão integradas entre si, aos objetivos dos diferentes projetos e às características dos diversos grupos sociais, em um processo constante de revisão, de adaptação e de renovação.

Podemos definir, então, o  fato museal como a qualificação da cultura (patrimônio global) em um processo interativo de ações de pesquisa preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social.

 

 

Concluímos, então, que o processo museológico na contemporaneidade, como resultado da relação teoria/prática, tem contribuído, efetivamente para o desenvolvimento da Museologia e para a sua aplicação (museografia), do qual podemos, então, destacar os seguintes aspectos:

 

·        Ampliação do conceito de patrimônio;

 

·        Ampliação dos bens culturais a serem preservados;

 

·        Aplicação do processo museológico a partir da relação: HOMEM-PATRIMÔNIO GLOBAL

 

·        Incentivo à apropriação e reapropriação do patrimônio cultural, para que a identidade seja vivida na pluralidade e na ruptura;

 

·        Socialização da função de preservação;

 

·        Desenvolvimento das ações museológicas, considerando como ponto de partida a prática social e não somente as coleções;

 

·        Criação de novas categorias de museus e aplicação de diferentes processos museais;

 

·        Revisão dos métodos a serem aplicados nas ações de pesquisa, preservação e comunicação;

 

·        Ação comunicativa dos técnicos e dos grupos sociais, objetivando o entendimento, a transformação e o desenvolvimento social;

 

·        Revisão do perfil do museólogo e ampliação do seu campo de atuação.

 

 

No momento atual, a Museologia deve sintonizar-se, em qualquer das suas correntes, com os caminhos da ciência na contemporaneidade. Sendo assim, a problematização de temas, através dos acervos, institucional e operacional, questionará, também, o sentido da ciência, contribuindo para que a própria Museologia e a sua prática sejam submetidas, também, à reflexão.

 

Com certeza, esse novo caminhar nos conduz, urgentemente, à necessidade de se repensar o perfil do profissional museólogo e o seu campo de atuação, análise que passarei a realizar nos itens seguintes, abordando a qualidade formal, ou seja, instrumentação científica, necessária à atuação do profissional, e a qualidade política, ou seja, o seu compromisso social.

 

 

3- A Formação do Museólogo: alguns indicadores para reflexão

 

 

Os cursos de Museologia geralmente tinham  como referencial  para montagem de seus currículos o  MUSEU. A ênfase, o enfoque central, era a coleção. Pretendia-se formar o curador de museus que, ao longo do desempenho profissional, reproduzia o conhecimento produzido nas diversas áreas, relacionadas com as categorias específicas de museu: história, arte, etnologia, etc. Nesse contexto, forma-se o conservador, o catalogador, o expositor, através de um ensino meramente descritivo pautado na aplicação de um conjunto de técnicas. Ao longo do processo histórico, observa-se uma tentativa de relacionar a teoria à prática, dando ênfase à interdisciplinaridade. Os cursos de pós-graduação vão proporcionar a oportunidade de interação com diversas áreas afins às categorias específicas de museus. Assim, os historiadores de arte e artistas plásticos vão atuar nos museus de arte, os antropólogos e etnólogos nos museus de arqueologia e etnologia etc. A prática no museu vai, então, estar relacionada às diversas áreas de atuação.

 

A Museologia, nesse contexto, é considerada como a ciência do museu, uma ciência auxiliar dos grandes ramos do conhecimento. Ressaltamos, entretanto, que o processo de formação do profissional é dinâmico e, como tal, apresenta avanços e retrocessos, de acordo com a concepção, com o caminhar da Museologia ao longo do processo histórico. Portanto, estas características não podem ser enfocadas de forma linear. Podemos encontrar cursos de Museologia que, em sua grade curricular e no desempenho das atividades pedagógicas, apresentam, em relação à evolução do processo museológico, aspectos que podem ser considerados avançados e, ao mesmo tempo, mantêm atividades e programas que refletem a ênfase na coleção, no Museu, enquanto realidade objetiva, dissociado da prática social, em seu processo de construção e reconstrução.

 

 

O Curso de Museologia da UFBA, implantado em 1970, apesar de adotar um currículo, àquela época que se poderia considerar avançado em relação a outros congêneres existentes no País, pois apresentava um elenco de disciplinas bastante amplo nas áreas da Sociologia, da Antropologia, da Filosofia e da História, oferecia uma carga horária mínima de disciplinas específicas, necessárias à formação do profissional museólogo.

 

Em 1979, foi realizada a primeira reforma do currículo, tendo havido, logo após,  o seu reconhecimento, pelo Conselho Federal de Educação, através do Decreto 83.327, de 16 de abril de 1979. Com a primeira reforma curricular, foram aumentadas as cargas horárias e a creditação das disciplinas específicas, acrescentadas outras disciplinas, com o objetivo de atender às características regionais e do mercado de trabalho, sendo que outros professores, já graduados pelo Curso, assumiram essas disciplinas. A base legal para estruturação do currículo foi, e ainda é, hoje, o Parecer no 971/69, do Conselho Federal de Educação, aprovado em dezembro de 1969.

 

Em 1986, após a regulamentação da profissão do museólogo no País, através da Lei 7.287, de 18.12.84, regulamentada pelo do Decreto 94.775 de 15.10.85, foi realizada uma ampla discussão sobre o perfil do profissional, sua área de atuação, os avanços da Museologia e o papel dos museus na sociedade contemporânea, através de um Seminário de Avaliação do Curso, com a participação de museólogos egressos da UFBA e corpos docente e discente. Tomando como referencial os resultados obtidos no referido Seminário, o Colegiado realizou a segunda reforma do currículo, que foi implantado em 1989.

 

Nos últimos anos, os avanços ocorridos no processo museológico, para o qual contribuiu, também, a produção científica do próprio corpo docente do Curso de Museologia da UFBA,  permitiram o embasamento necessário a uma reflexão constante, em  sua vida acadêmica,  fornecendo os subsídios necessários,  para que fosse  realizada mais uma avaliação da sua atuação,  no sentido de adequá-lo aos avanços  que hoje se apresentam, contribuindo, também, para ampliar a nossa concepção em relação à  atuação do profissional museólogo, no mercado de trabalho a ele destinado e ao próprio objeto de estudo da Museologia. A prática da avaliação constante do   Curso,  tem sido muito saudável  no sentido de apontar para a necessidade de uma revisão constante do perfil do profissional que estamos formando. Por meio dessas constantes reflexões, evidencia-se a necessidade do Colegiado do Curso de delinear um perfil para o profissional Museólogo e atualizar o seu currículo, realizando os ajustes necessários no sentido de fornecer a capacitação indispensável ao profissional, no presente momento, com base em uma constante reflexão entre a teoria e a prática.

 

Urge reconhecer a importância dos cursos de formação, no sentido de contribuir, efetivamente, para os avanços teórico-metodológicos, em nosso campo de atuação, ressaltando, entretanto, a necessidade de uma abertura maior no sentido de dotar seus currículos de conteúdos substantivamente relevantes, sem perder de vista que a sua maior missão é a político-cultural. E esse objetivo maior não pode ser alcançado somente nos espaços fechados da academia. Sirvent (1984), analisando a relação entre a educação formal e a não-formal, sugere que é possível organizar uma ação educativa complexa, que seja resultante de uma rede de interação entre diversos recursos educativos. Não se trata de somar ou adicionar componentes isolados, mas de integrar os mesmos ao redor de objetivos educacionais comuns. Nessa rede, insere-se a educação formal ou uma redefinição de seu papel frente à comunidade e aos recursos educativos não-formais  da mesma. Sugere ainda a referida autora que as instituições do macrossistema constituir-se-iam num sistema aberto em contínua comunicação, tanto entre si como com o meio em que estão inseridos. Infelizmente, as experiências até o momento mostram que as instituições menos flexíveis para se modificar dinamicamente neste processo são as escolares. (Santos, 1999). Em nosso campo de atuação, fica patente essa estagnação, a acomodação e a falta de revisão, uma vez que, ainda hoje, o instrumento legal que orienta a montagem de cursos de Museologia, é o parecer do CFE, de 1969, já citado anteriormente. É necessário destacar, também, a resistência das universidades em se tornarem instituições abertas à comunidade, reestruturando seus currículos de forma a desenvolver projetos integrados com outras instituições e com a sociedade civil organizada. Insistem em manter estruturas curriculares ultrapassadas, com disciplinas isoladas, em compartimentos estanques, realizando as ações de pesquisa, registradas em teses e relatórios destinados ao mesmos, ou seja, ao interior da academia ou das academias. 

 

É necessário, pois, refletir sobre a atuação dos cursos de Museologia destacando que o seu compromisso maior deve ser com o desempenho qualitativo, preparando profissionais que sejam capazes de produzir conhecimento, buscando, também, a interseção criativa de contribuições conceituais e analíticas de outras disciplinas, contribuindo com a necessária renovação dos processos museais, reconhecendo as especificidades dos diferentes contextos, adequando os procedimentos metodológicos e técnicos às diferentes realidades, com a abertura necessária para a avaliação e para a reflexão crítica. Destacamos, pois, nesse processo, dois aspectos que consideramos sejam essenciais para a formação do museólogo: a instrumentação científica e desafio tecnológico (qualidade formal) – a instrumentação científica fornece o suporte necessário para a definição dos objetivos a serem alcançados, bem como para a operacionalização dos diferentes projetos. À medida que se coloca a técnica a serviço da sociedade, buscando as transformações necessárias, na relação com os sujeitos sociais, estaremos assumindo o nosso compromisso social, ou seja a qualidade política. Demo,  (1991), salienta muito bem:“ O intelectual não vale apenas pelo que “sabe” em  termos de domínio técnico, mas, igualmente[10] pelo que “vale” em termos de agente de mudança”. Na mesma direção, Freire, (1985 ), destaca:

 

quanto mais me capacito como profissional, quanto mais sistematizo minhas experiências, quanto mais me utilizo do patrimônio de todos e ao qual todos devem servir, mais aumenta minha responsabilidade com os homens. Se o compromisso só é válido quando está carregado de humanismo, este, por sua vez, só é conseqüente quando está fundado cientificamente.

 

As especificidades de cada realidade, de cada região, deverão ser respeitadas e enfocadas, em núcleos temáticos que deverão estar em relação com outras áreas do conhecimento e com a área da Museologia, devendo, para tanto, de acordo com as diversas condições locais, definir-se a categoria de curso que se deseja implantar – graduação, especialização ou pós-graduação. Consideramos importante que se busque alcançar os objetivos abaixo relacionados, com a atuação dos curso de Museologia,

 

·        Desenvolver um processo museológico comprometido com o desenvolvimento social e com a prática da cidadania;

·        Contribuir, por meio do processo museológico, para gerar um processo de preservação do patrimônio global, visando ao desenvolvimento  humano sustentável;

·        Promover a formação de profissionais que potencializem suas instituições como agentes de desenvolvimento  regional;

·        Contribuir para a construção do conhecimento, na área da Museologia;

·        Proporcionar meios para que as instituições museais melhorem e ampliem seus campos de atuação, no meio social onde estão inseridas;

·        Melhorar o desempenho e a qualificação dos profissionais que atuam em instituições culturais e educacionais;

·        Desenvolver e aplicar tecnologias, na área da Museologia, observando-se as necessidades regionais;

·        Criar oportunidade de ampliar conhecimentos, rever conceitos e modificar procedimentos de trabalho;

·        Contribuir para a superação de carências de conhecimentos atualizados, na área da Museologia, de parte dos que candidatam a cursos de stricto sensu;

·        Oferecer aos profissionais da área subsídios da reflexão contemporânea na Museologia, capacitando-os para a aplicação de metodologias e técnicas nos campos da conservação, da documentação e da comunicação museológica.

 

Do ponto de vista da organização e da gestão dos processos museais, o museólogo  deve proporcionar uma orientação motivadora, referenciada por uma concepção, ou por várias concepções, que deverão ser enriquecidas com a participação dos demais sujeitos envolvidos. A competência formal o instrumentará para a definição conjunta dos objetivos, das metas e das estratégias, de acordo com as necessidades e as características de cada contexto. Alguns aspectos são considerados essenciais:

 

·        Participação ativa – implicação com o objeto de estudo (imersão no processo, na totalidade – ação, pensamento, desejo, prazer e sonho);

·        Clareza de objetivos e do papel a ser desempenhado, apoio na teoria. Abertura para o enriquecimento com o outro, determinação;

·        Gerência co-participada (troca, respeito à idéia do outro) – comunicação permanente;

·        Inovação, descoberta crítica – Reconstrução ( intervenção inovadora).

 

Ao longo do nosso caminhar, foi possível  delinear um perfil para o museólogo, ( que apresentamos na página a seguir), a partir da produção do conhecimento, tendo como referencial a prática social, qualificada culturalmente, e devidamente musealizada, em interação com os diversos segmentos envolvidos no processo, quais sejam: alunos, professores do Curso de Museologia e da Rede Estadual de Ensino, com a qual vêm sendo realizados diversos projetos, profissionais já graduados em Museologia, que estão atuando em Salvador, em outras capitais e no Exterior, e membros da comunidade local com os quais atuamos em projetos de extensão. A seguir, apresentamos um esquema, (Santos,1995) resultado do  nosso desempenho nas  atividades de ensino, pesquisa e extensão, salientando que não pretendo apresentar um esquema definitivo, pronto, acabado, mas alguns indicadores em processo, pois consideramos a Museologia em constante processo de construção e reconstrução, e, consequentemente, a atuação do profissional não só irá alimentar o processo museológico como será alimentado por ele.


 

4- Campo de Atuação do Museólogo

 

 

O mundo contemporâneo, as transformações ocorridas nos últimos anos e já registradas anteriormente, sinalizam  para a necessidade de um fazer museológico mais ajustado às diversas realidades da América Latina. A revisão e superação de determinados paradigmas é essencial, considerando-se a necessidade de criação de novos museus e de reformulação dos existentes, tornando-os instituições relevantes para a cidadania. A Museologia  e o museu têm uma importância central no contexto de reconstrução das nações, na busca de um mundo livre e eqüitativo. Para tanto, torna-se necessária a formulação de novas diretrizes, à luz dos conhecimentos historicamente acumulados, no sentido de utilizar  o patrimônio cultural como um referencial para o exercício da cidadania e  o desenvolvimento social, por meio do processo educativo. Se consideramos que a aplicação do processo museológico se dá na relação: HOMEM-PATRIMÔNIO INTEGRAL, já sinalizamos para a ampliação do campo de atuação do museólogo. 

 

O desenvolvimento das ações museológicas, hoje, não está restrito ao espaço fechado dos museus. Nos últimos anos, temos assistido à implantação e desenvolvimento de processos museais, em contextos os mais variados, com resultados  significativos para os sujeitos envolvidos e para a construção do conhecimento na área da Museologia. Por outro lado, esse fazer museológico, fora dos museus, tem contribuído, também, para se repensar a instituição museu, provocando alguns avanços, por meio de um processo de avaliação dessas instituições.

 

Seria impossível hoje, delimitar-se um campo de atuação do museólogo, reduzindo a sua atuação ao espaço restrito dos museus ou de outras instituições. Mais do que nunca, a presença desse profissional se faz necessária, em qualquer contexto social, sobretudo se considerarmos a necessidade urgente de buscar um desenvolvimento que não deve ser sustentado em um modelo pautado na racionalização tecnológica, tomado como um objetivo que se esgota nele mesmo e por ele mesmo, e que tem gerado a “pobreza modernizada”, que segundo Perrot, (1994),  trata-se  da pobreza daqueles grupos ou indivíduos que depois de terem perdido uma boa parte de seus valores e de seu modo de vida não têm tido acesso às vantagens do desenvolvimento econômico. Segundo a referida autora, a pobreza modernizada é reconhecida  pelo fato de ter sido espoliada cultural e socialmente, sem ter sido recompensada economicamente. Considero que o museólogo, ao assumir o seu compromisso social, tem uma responsabilidade no sentido de atuar, quer seja no interior do museu ou fora dele,  no sentido de construir, com os diversos segmentos da sociedade, um desenvolvimento que seja apoiado no respeito às identidades culturais.

 

Já tive a oportunidade de analisar vários problemas relacionados com as políticas educacionais e cultural em nosso País, (Santos, 1988, 1993, 1995) e cada vez mais reconheço a necessidade de uma atuação integrada entre as áreas da Museologia e da Educação, no sentido de realizar projetos capazes de inserir, no cotidiano da escola, temas e discussões relevantes, relacionados à qualificação do fazer cultural dos alunos, professores e membros das diversas comunidades, proporcionando a interação necessária entre as escolas e os diversos contextos, onde estão inseridas. As ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação estarão, assim, sendo aplicadas, nos diferentes contextos, em interação com a prática pedagógica, contribuindo para a formação de cidadãos, utilizando o patrimônio cultural como um suporte fundamental para o exercício da cidadania e para o desenvolvimento social.

 

 

 

 

 

 

5- Considerações Finais

 

 

Tenho consciência de que este texto ficou muito longo para quem vai falar em uma  Mesa-redonda, mas sou contaminada por essa vontade de sistematizar as idéias, em forma de texto, para que  não se percam em um auditório, e possam ser  reutilizadas, refletidas, enriquecidas, por mim e por outras pessoas, em nosso fazer cotidiano. Desejo, assim, que este fórum seja ampliado, o que acredito seja um dos objetivos dos congressos e encontros.

 

Quero registrar, mais uma vez, que nunca teremos um perfil pronto, acabado, para o profissional museólogo, razão pela qual enfatizo a necessidade de uma revisão constante, baseada em processo de avaliação que deve ser assumido, como uma prática cotidiana, nos cursos de Museologia, no interior dos museus, fora dos museus e na relação com os sujeitos sociais com os quais estejamos atuando e na troca com profissionais de outras áreas e de áreas afins. Essa ação, no meu entender, tem sido bastante retardada, devido a nossa acomodação, o que é lamentável, pois estamos perdendo  “o trem da história”.

 

Para finalizar, deixo para os colegas a mesma mensagem que apresentei em entrevista realizada por nosso Colega Mário Chagas, quando me fez a seguinte pergunta:

 

“Célia, que mensagem você gostaria de enviar para os profissionais  dos museus?”

 

Deixo algumas, para os profissionais dos museus e para todos que atuam com a Museologia:

 

·        Que olhem para os museus e para além dos museus;

·        Que, com o patrimônio Cultural, e a partir da reflexão e da ação sobre o Patrimônio Cultural, possam ser sujeitos da História, promover a atuação de outros sujeitos da História, possibilitando a construção e reconstrução de múltiplos patrimônios culturais, visando ao desenvolvimento social e ao exercício da cidadania;

·        Que o fazer museológico produza conhecimento e esteja impregnado de vida - paixão, desejos, sonhos, troca, objetividade e subjetividade, em permanente abertura, para  avaliar os processos museais e para a auto-avaliação;

·        Que estejam preparados para atuar nos museus e fora dos museus;

·        Que busquem, constantemente, a qualidade formal e a qualidade política, assumindo  o compromisso social  e o exercício da cidadania.

 

Finalizando, realmente, registro o meu contentamento, por ser uma museóloga que tem atuado no museu e fora  do museu, que tem provocado a criação de novos processos museais e que tem, hoje, o feedback de um grupo de alunos do terceiro ano do Curso de Magistério, de um Colégio Público, da Cidade do Salvador, quando realizaram uma paródia, com a letra da  música Cidadão, de Lúcio Barbosa, interpretada por José Ramalho, fazendo uma leitura sobre o MDCI (Museu Didático-Comunitário de Itapuã), projeto do qual lancei a semente e que o grupo está fazendo germinar e frutificar:

 

 

 

 

Uma adaptação da Música “Cidadão”

 

Tá vendo aquele museu, moço?

Ajudamos a levantar

Foi um tempo de paixão

Era uma grande sedução

Tivemos que trabalhar.

Hoje depois dele pronto

Oio pra cima e fico tonto

Mas me chega um cidadão,

E me diz admirado

Tu taí cheio de vida

Quanta história pra contar.

Os domingos foram ganhos

Trabalhando e lutando

Para vida construir

E pra completar a festa

Dessa história o que nos resta

É fazer parte também.

Tá vendo aquele museu moço?

Aprendemos muito lá

Hoje nós agradecemos

Pelo seu merecimento

Por muito nos ajudar

A preservar a natureza

Dando uma lição de esperteza

Pra vidas procriar.

O museu está aberto

Venha conhecer de perto

Quanta vida tem por lá.

Lá a arte é bem vinda

Por se tratar de muitas vidas

Eu me pus a agradecer

Pois tudo que lá se plantava

A tendência era crescer.

Tá vendo aquele museu moço?

Onde muita vida tem

Pus a brita e o cimento

Me enchi de conhecimento

Lá eu aprendi também.

Lá sim  valeu a pena

Tem arte e conhecimento

E eu posso ajudar.

Foi lá que alguém me disse:

“Amigo deixe de tolice

Não se deixe amedrontar

O museu está aberto

Venha conhecer de perto

A cultura está por lá”.


 

 

6- Bibliografia

 

 

BAHIA, Universidade Federal da Bahia. Subsídios para Montagem de Currículos Plenos. Cursos de Graduação. Salvador: Superintendência Acadêmica, 1976.

 

Dryden, Gordon. Revolucionando o Aprendizado/Jeannette Vos. São Paulo; Makron Books, 1996.

 

Demo, Pedro. A Nova LDB: ranços e avanços. Campinas, SP: Papirus, 1997. –  (Coleção magistério; formação e trabalho pedagógico).

 

_________. Educação e Qualidade. Campinas, SP: Papirus, 1996. – (Coleção magistério; formação e trabalho pedagógico).

 

Conhecimento, cidadania e meio ambiente/ Arnoldo José de Hoyos Guevara... et al. – São Paulo: Petrópolis, 1998. – ( Série temas transversais; v.2)

 

CURSO DE MUSEOLOGIA, currículos adotados em 1979 e 1986.

 

__________. Dados Sobre o Curso de Museologia. Mimeo.

 

________. Proposta para o curso de especialização.

 

_______. Proposta para Reforma do Curso de graduação.

 

BRASIL, Conselho Federal de Educação. Parecer no 971/69, aprovado em 5 de dezembro de 1969. Mimeo.

 

Bruno, Maria Cristina Oliveira. Considerações sobre o profissional de museu e sua formação. Anais da II Semana de Museus da Universidade de São Paulo. São Paulo: USP, 1999.

 

Freire, Paulo. Educação e Mudança. Rio de janeiro: paz e terra, 1983. p.20

 

Funari, Pedro Paulo Abreu. Considerações sobre o profissional de museus e sua formação. Anais da II Semana de Museus da Universidade de São Paulo. São Paulo: USP, 1999.

 

ISMAG. Departamento de Ciências do Patrimônio. Currículo do Curso de especialização em Museologia. Lisboa, s.d.

 

Kelly, Albert Victor. O currículo: teoria e prática . São Paulo: Harper & Row do Brasil, 1981.

 

Medo e ousadia; o cotidiano do professor/ Iara Shor, Paulo Freire. Rio de Janeiro: paz e terra, 1986.

 

Perrot, Marie-Dominique. Educação para o desenvolvimento e perspectiva intercultural. In: Educação, desenvolvimento e cultura: contradições teóricas e práticas/Antonio Faundez (org) São Paulo: Cortez, 1994.

 

Resende, Antônio Muniz de. O Saber e o poder na universidade: dominação ou serviço? . São Paulo: Cortez, 1984.

 

UNIVERSIDADE LUSÓFONA DE HUMANIDADES E TECNOLOGIAS. Currículo do Curso de Especialização em Museologia e Educação. Lisboa, 1994.

 

Universidad  Nacional da Costa Rica. Programa de Museologia para Latinoamerica y Caribe. Mimeo.

 

USP. Museu de Arqueologia e Etnologia. Proposta de Currículo do Curso de Especialização em Museologia. Mimeo.

 

Telmo, Isabel Cottinelli.  O Patrimônio e a Escola do passado ao futuro. Lisboa: Texto Editora, 1991.

 

Santos, Boaventura de Sousa. Introdução a uma ciência pós-moderna. Rio de Janeiro; Graal, 1989.

 

Santos, Maria Célia T. Moura. Caracterização do Profissional Museólogo. mimeo.

 

________. Processo Museológico e Educação: construindo um museu didático-comunitário, em Itapuã. Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia.1995.  

 

_________.  Entrevista a Mário Chagas. Mimeo.

 

_______. Repensando a Ação Cultural e Educativa dos Museus. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA. 1993. 2a edição ampliada. 136p.

 

­­­­­________ . Uma Abordagem Museológica do Contexto Urbano. Cadernos de Museologia (5) Lisboa: Centro de Estudos de Sociomuseologia. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. 1996.

 

 

______. Formação de Pessoal Para Museus, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável - O Papel da Universidade. Estudos de Museologia/Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Departamento de Promoção. Rio de Janeiro: IPHAN, 1994.

 

_______ . Repensando a Ação Cultural e Educativa dos Museus. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA. 1990. 90p.

 

_______. A Preservação da Memória Enquanto Instrumento de Cidadania. Cadernos de Museologia (3) Lisboa: Centro de Estudos de Sociomuseologia. Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. 1994.

 

Scheiner, Tereza Cristina Moletta. Formação de profissionais de Museus: desafios para o próximo milênio. Anais da II Semana de Museus da Universidade de São Paulo. São Paulo: USP, 1999.

 

Sirvent, Maria Teresa. (org). Educação Comunitária. A Experiência do Espírito Santo. São Paulo: Brasiliense, 1984.

 

Simon, Schwartzman. Ciência, Universidade e Ideologia. Rio de janeiro: Zahar, 1980.

 

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[1] Museólogo, Prof. Da Escola de Museologia da Universidade do Rio de Janeiro – UNIRIO, Mestre em Memória Social e Documento-UNIRIO/Doutorando em Ciências Sociais-UERJ-Universidade Estadual do Rio de Janeiro.

[2] Entrevista concedida em 1998.

[3] Texto apresentado no I Simpósio sobre Museologia da Universidade Federal de Minas Gerais, realizado em Belo Horizonte, no período de 19 a 21 de março de 1997, sob o patrocínio do Museu de Ciências Morfológicas.

[4] Texto apresentado na II Semana de Museus da Universidade de São Paulo, realizado no período de 30 de agosto a 03 de setembro de 1999.

[5] Texto preparado para seminário no Curso de Especialização em Museologia do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo-MAE/USP, realizado em  setembro de 1999.

[6] Texto apresentado no VIII Atelier do Movimento Internacional da Nova Museologia, “Patrimônio e Juventude, Desafios para o Século XXI”, realizado em Salvador-Bahia-Brasil, no período de 03 a 07 de novembro de 1999.

[7] Estamos nos apropriando do termo cidadão-beneficiário,  proposto pelo Prof. Fernando Tenório, da EBA/FGV, para incorporar o conceito de cidadania à formulação, à implementação e à avaliação dos diversos projetos executados.

[8] Texto apresentado no XV Congresso Brasileiro da Associação Brasileira de Museologia, realizado no Rio de Janeiro, no período de 22 a 26 de novembro de 1999.

[9]CAPÍTULO V

[10] O grifo é meu.



 

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Índice autores

 



 Novos Textos

OS MUSEUS E A BUSCA DE NOVOS HORIZONTES[1]

 Maria Célia Teixeira Moura Santos[2]

 Introdução

 O meu contentamento foi grande ao receber o convite para proferir esta palestra de abertura no III Fórum de Profissionais de Reservas Técnicas de Museus, organizado pelo COFEM  e pelo COREM-BA. A minha satisfação deve-se, especialmente, a três  aspectos que  quero ressaltar: o primeiro diz respeito à iniciativa dos Conselhos Federal e Regional de Museologia em realizar este evento, retomando, apesar das dificuldades encontradas na atual conjuntura, o exercício da reflexão, da discussão de temas e problemas que são fundamentais para o desenvolvimento dos museus e da Museologia. Por outro lado, essa iniciativa também demonstra que esses órgãos não estão preocupados somente com as ações burocráticas de fiscalização do exercício da profissão, o que considero salutar. Portanto, com alegria, parabenizo-os pela realização deste encontro, desejando que durante estes quatro dias possamos realizar uma troca efetiva.

 O segundo aspecto relacionado à minha satisfação com o convite é que, pela primeira vez, fui convidada para proferir uma palestra em um encontro no qual serão discutidos temas relacionados com a preservação, especificamente das reservas técnicas. Após o susto com o impacto do convite, causado, talvez, pela atuação da maioria dos museus, em compartimentos estanques, passei a considerá-lo como um desafio, um estímulo para aprofundar alguns aspectos que venho refletindo ao longo dos últimos oito anos,  dentre os quais, destaco a necessidade de pensar o museu e as ações museológicas a partir de uma rede de interação, a ser estabelecida no interior do museu e fora dele, evitando, assim, a compartimentalização e a aplicação da técnica pela técnica. Este é, pois, mais um motivo de  satisfação por estar aqui com vocês.

 O último aspecto é de ordem afetiva, porém não o considero menos relevante, é que nos últimos três anos estive afastada de Salvador, desenvolvendo ações museológicas em outras “paragens” e, neste encontro, espero, não só matar a saudade de colegas daqui e de fora como retomar o convívio salutar com colegas, alunos e ex-alunos do Curso de Museologia, dos quais, infelizmente, não sei se por força da minha aposentadoria ou se pela própria dinâmica da vida, tem havido um involuntário distanciamento. Este é, portanto, para mim, um momento feliz de reencontro. 

 Para abordagem do tema, optei por realizar uma reflexão a partir da concretude do agora, ou seja, da análise da minha experiência, considerando que esta tem-se dado em relação com os diversos sujeitos sociais com quem tenho atuado, ao longo dos anos, aplicando ações museológicas, no interior do museu e fora dele. Espero, pois, apontar para novas possibilidades, novos horizontes, no sentido de construir e reconstruir a Museologia e os museus a cada dia, evitando pensar o futuro como algo distante e inatingível, ou, talvez, como descompromisso, transferindo para outros as possibilidades que temos de, em nossa inserção no mundo, nos tornar seres históricos, éticos, capazes de optar, de decidir e de romper. É, pois,  compreendendo que a Museologia e o museu são resultado das nossas ações, em um determinado tempo histórico, que posso pensar o futuro que será construído a partir do agora, ou seja, é acreditando na relação dialética, em que mundo e consciência se dão ao mesmo tempo, que construo e reconstruo a ação museológica, que se dá no presente e poderá indicar possibilidades futuras.

 Ressalto, também, que a busca de novos horizontes não está sendo aqui compreendida de forma romântica como algo melhor do que o presente, mas como a possibilidade de, a partir da ação-reflexão, produzir um conhecimento que será apropriado por outros atores sociais, estimulando novas utopias, novo olhar crítico sobre os museus e sobre a Museologia, podendo contribuir, também, para que cada homem ou mulher possa ter uma consciência crítica de sua presença no mundo.

 Nos itens apresentados para a discussão do tema, faço, inicialmente, uma análise da ação museológica e da sua aplicação, como ação interativa, a partir do processo de argumentação estabelecido no interior do museu e fora dele, com o objetivo de explicitar as concepções de museu e de Museologia que embasaram os processos museológicos desenvolvidos nos dois estudos de caso, que serão apresentados, posteriormente, os quais foram desenvolvidos em dois contextos distintos. Identifico, em seguida, possibilidades que podem ser apontadas para a Museologia e para a atuação dos museus a partir da análise da aplicação da ação museal registrada nos dois estudos de caso, possibilidades essas que poderão, ou não, dependendo do olhar de cada um de vocês, ser consideradas como “novos horizontes”.

Reflexões sobre as Ações Museológicas: embasamento para desenvolvimento do tema[3]

 Considero que o patrimônio cultural é o referencial básico para o desenvolvimento das ações museológicas. Os processos museais gestados, ao longo dos anos, contribuíram, de modo efetivo, para a ampliação do seu conceito, na medida em que, para sua aplicação, o patrimônio cultural é compreendido como a relação do homem com o meio, ou seja, o real, na sua totalidade: material, imaterial, natural e cultural, em suas dimensões de tempo e de espaço. Conseqüentemente, os bens culturais a serem musealizados também foram ampliados. Nesse sentido, as ações museológicas não são processadas somente a partir dos objetos, das coleções, mas tendo como referencial o patrimônio global, na dinâmica da vida, tornando assim necessária uma ampla revisão dos métodos a serem aplicados nas ações de pesquisa, preservação e comunicação, nos diferentes contextos.

 Por outro lado, a ampliação do conceito de patrimônio está relacionada, também, à criação de novas categorias de museus, como ecomuseu, museu comunitário, museu de vizinhança, etc. Essas novas categorias de museus, abertas a uma população e a um território, contribuíram, também, para que as ações museológicas pudessem ser processadas fora do espaço restrito do museu, abrindo, assim, amplas possibilidades para a realização de novos processos de musealização. Do ponto de vista metodológico, foi um vetor a incentivar a busca de soluções criativas, bem como para avaliar as práticas museológicas aplicadas em outras categorias de museus.

 O fazer museológico é compreendido, então, como um processo, caracterizado pela aplicação das ações de pesquisa, preservação e comunicação, conforme  explicitado a seguir:

 ·  a atividade de pesquisa tem como objetivo a construção do conhecimento, tomando como referencial o cotidiano, qualificado como patrimônio cultural, ou seja, observação, análise e interpretação da realidade, qualificada como patrimônio cultural. Esse conhecimento é construído na ação museal e para a ação museal, em interação com os diversos grupos envolvidos. Não se trata, da pesquisa que se esgota na mera descrição e análise dos objetos. A pesquisa alimenta todas as ações museológicas, em processo.

 ·        na ação de preservação são destacadas as seguintes etapas:

 Coleta - o acervo é o conjunto dos bens dinâmicos, em transformação em uma comunidade, e não somente uma coleção. Trabalha-se com o acervo institucional, ou seja: materiais arquivísticos e iconográficos, plantas, maquetes, depoimentos testemunhos, etc., e com o acervo operacional: as áreas do tecido urbano socialmente apropriadas como paisagens, estruturas, monumentos, equipamentos, as técnicas do saber e do saber fazer, com os artefatos, com o meio rural, etc.

 Classificação e Registro – o processo documental não se limita ao registro do acervo. Busca-se, por meio da cultura qualificada, produzir conhecimento, elaborado no processo educativo, realizando ações de pesquisa. Há uma documentação dos dados coletados, que são sistematizados, de acordo com as características das diversas realidades que estão sendo musealizadas, formando o banco de dados do museu, referente à realidade local, a partir das ações de pesquisa, por meio da ação interativa entre os técnicos e os grupos envolvidos. Busca-se a qualificação da cultura, da análise e compreensão do patrimônio cultural na sua dinâmica real e não somente a seleção de determinados aspectos para armazenamento e conservação. O banco de dados é o referencial básico de informação, aberto à comunidade, e que deve ser alimentado, constantemente, pelos diversos processos em andamento no museu.

 Os instrumentos utilizados na documentação são criados e adaptados a cada realidade, discutidos com os diversos grupos envolvidos na ação museológica e absorvidos pelos mesmos, para a sua aplicação. O processamento do conhecimento produzido e sua inclusão no banco de dados dão-se com a participação dos componentes do museu. Ao mesmo tempo em que os técnicos participam da elaboração dos instrumentos de coleta de dados, estabelece-se um processo dialógico no qual o museólogo e os demais grupos envolvidos são enriquecidos, tanto na fase do planejamento como na da execução, havendo, também, um aumento da auto-estima de todos quando o produto do seu trabalho é utilizado para a compreensão da realidade e para a construção de um novo conhecimento, atingindo, assim, os objetivos propostos na ação documental.

 Conservação - busca-se a formação de atitudes preservacionistas. Estabelece-se um processo no sentido de compreender os objetivos da preservação, no fazer cotidiano das pessoas. A conservação é, então, um processo de reflexão para uma ação que se dá em um contexto social e não somente a aplicação de técnicas em determinados acervos. Esforços são concentrados na busca da sensibilização e na formação de conservadores, na própria população, a partir de suas aptidões e atitudes.

 ·        quanto à comunicação, não está restrita ao processo de montagem das exposições. A exposição é parte integrante do processo museológico, mas é importante registrar que sempre fica uma distância entre o material “inerte” que é exposto e o processo vital que lhe deu origem. Ao contrário do procedimento mais usual dos museus, em que a exposição é o ponto de partida no sentido de estabelecer uma interação com o público, na ação museológica aqui proposta, a exposição é, ao mesmo tempo, produto de um trabalho interativo, rico, cheio de vitalidade, de afetividade, de criatividade e de reflexão, que dá origem ao conhecimento que está sendo exposto e a uma ação dialógica de reflexão, estabelecida no processo que antecedeu a exposição e durante a montagem, além de ser ponto de partida para outra ação de comunicação. 

As demais ações museológicas de pesquisa e de preservação, já analisadas anteriormente, também são um processo de comunicação, uma vez que são gestadas por meio de um processo constante de interação em uma ação pautada no diálogo, levando-se em consideração as características dos grupos envolvidos e as diversas maneiras de estar no mundo e de se expressar, por meio de diferentes linguagens. É interessante ressaltar que as ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação estão integradas entre si, aos objetivos dos diferentes projetos e às características dos diversos grupos sociais, em um processo constante de revisão, de adaptação e de renovação.

 É necessário salientar que, como processo, a ações museológicas não podem esgotar-se em si mesmas, na mera aplicação da técnica pela técnica. Portanto, para que a Museologia seja aplicada, com o objetivo de atingir, por meio da interpretação e uso do patrimônio cultural, a inclusão social e o exercício da cidadania, é necessário que seja aplicada com competência formal e política, ou seja, é necessário desenvolver a face educativa da Museologia. O processo museológico é compreendido como ação que se transforma, que é resultado da ação e da reflexão dos sujeitos sociais, em determinado contexto, passível de ser repensado, modificado e adaptado em interação, contribuindo para a construção e reconstrução do mundo. Daí, o sentido de associarmos o termo processo às ações de musealização, compreendido como uma seqüência de estados de um sistema que se transforma, por meio do questionamento reconstrutivo, e que, ao transformar-se, transforma o sujeito e o mundo. A utilização do termo processo permite atribuir, portanto, as dimensões social e educativa à Museologia.

 Compreender a ação museológica como ação educativa significa, portanto, caracterizá-la como ação de comunicação, porque é buscando as interfaces das ações de pesquisa, preservação e comunicação que conseguimos nos distanciar da compartimentalização das disciplinas. A interação com os nossos pares e com os demais sujeitos sociais envolvidos nos diversos projetos, nos quais estejamos atuando, tornará possível estabelecer metas e objetivos que não se esgotam na aplicação da técnica, isolada, descontextualizada, evitando, assim, a dissociação entre os meios e o fim. Portanto, considero que o processo museológico é um processo educativo e de comunicação, capaz de contribuir para que o cidadão possa ver a realidade e expressar essa realidade, qualificada como patrimônio cultural, expressar-se e transformar a realidade. Nesse sentido, o processo museológico é ação educativa e de comunicação. Assim, definimos o fato museal como:

  a qualificação da cultura em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social.

 Portanto, considero que o trabalho dos museus com a comunidade, ou seja, com os grupos com os quais estejamos realizando projetos, em relação, construindo na troca, no respeito mútuo, é o resultado das concepções de Museu e de Museologia que adotamos. Pesquisa, preservação e comunicação, em interação, questionadas e problematizadas, deverão ser, pois, os vetores no sentido de se produzir conhecimento, assumindo o compromisso de contribuir com a construção de uma sociedade ética, mais eqüitativa e solidária.

 Estudos de casos: aplicação da ação museológica interativa

 Nos dois estudos de caso que apresentarei, a seguir, vou-me limitar a analisar a aplicação do processo museológico, salientando que este não foi desenvolvido de forma mecânica, mas tendo como referencial básico as diversas realidades, dos diferentes contextos. Portanto, não é meu objetivo apresentar, nesta palestra, os resultados alcançados, de uma forma mais ampla, mesmo porque não teríamos o tempo necessário. 

 ·        Ações museológicas no Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior: o Museu Didático-Comunitário de Itapuã[4]

 Compreendendo que não podemos dissociar a atuação do professor universitário de uma prática efetiva na comunidade, e acreditando que essa prática só se concretiza no momento em que professor, aluno e grupos comunitários passam a atuar de forma integrada e participativa, questionando, construindo e analisando conjuntamente, buscamos desenvolver  uma tese de doutorado, que permitisse a realização de uma atuação integrada entre o Curso de Museologia, Doutorado em Educação da Universidade Federal da Bahia-UFBA, Secretaria de Educação do Estado da Bahia-Instituto Anísio Teixeira, 1o e 2o Graus do Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior e os moradores do Bairro de Itapuã, em Salvador-Bahia-Brasil, buscando a apropriação e reapropriação do patrimônio cultural, visando ao exercício da cidadania e à construção de uma nova prática social.

 Como resultado da interação entre os técnicos e os demais sujeitos sociais envolvidos no processo, foi possível, por meio dos diversos programas desenvolvidos, “culturalizar” alguns aspectos das muitas realidades do bairro e da Escola, ampliando as suas dimensões de valor, de consciência e de sentido. Da ação integrada entre os vários níveis de ensino, ou sejam, 1o, 2o e 3o Graus e Pós-Graduação, foi realizada de uma ação museológica de cunho educativo e uma ação educativa integrada ao processo museológico, obtendo-se, como resultado, a implantação de um Museu Didático-Comunitário, em permanente construção.

 Resumidamente, apresentamos, a seguir,  a concepção, a organização e a gestão do Museu Didático-Comunitário de Itapuã – MDCI, em que a musealização do fazer cultural se deu de forma participativa, com a atuação de alunos, professores e moradores locais, desenvolvendo ações de pesquisa, preservação e comunicação, sendo essa musealização compreendida como uma ação educativa e de interação, produzindo conhecimento a partir das reflexões sobre o patrimônio cultural local.

 ·       Concepção, Organização e Gestão  do Museu

 Os programas foram desenvolvidos com a participação de alunos, professores, funcionários do Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior, técnicos do Instituto Anísio Teixeira, alunos e professores do Curso de Museologia da UFBA e de moradores locais. Foram realizadas atividades de pesquisa, preservação e comunicação, integradas às atividades das diversas disciplinas do 1o e 2o Graus.

 A ação museológica no MDCI foi desenvolvida com dois tipos de acervo:

 INSTITUCIONAL - materiais arquivísticos e iconográficos: fotos, plantas, audiovisuais, maquetes, depoimentos e testemunhos, documentação urbana e sobre a história do Colégio, considerando toda a produção cultural relacionada ao universo do cotidiano e do trabalho.

 OPERACIONAL - áreas do espaço urbano: paisagens, estruturas, monumentos, equipamentos, etc.

 A pesquisa foi o suporte essencial para o desenvolvimento das ações museológicas. Do processo de construção do conhecimento, em vários níveis de ensino, é que foi sendo constituído o acervo.

 A interação entre o processo museológico e o processo educativo permitiu a organização de um grupo de trabalho cooperativo, responsável pela gestão e organização do museu, que teve como base a estrutura do seguinte Núcleo Básico:

 NÚCLEO BÁSICO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No curso da gestão,  foi-se delineando a estrutura do Museu. À medida que o grupo foi-se ampliando, a Coordenação e os demais componentes sentiram a necessidade de definir  atribuições e de designar pessoas, de acordo com as suas características e as motivações de cada um para o desempenho das diversas atividades. Os Setores foram sendo estruturados no decorrer das atividades museológicas, de acordo com o desenvolvimento das programações. O funcionamento dos mesmos possibilitou o andamento dos trabalhos, com organização, evitando-se o acúmulo de tarefas que envolvessem todos os componentes do Núcleo, além de tornar possível atingir as metas determinadas pelo Núcleo Básico, com mais facilidade. Foram, então, estruturados os seguintes Setores:
 

Coordenação; Documentação; Comunidade; 1o  2o Graus; Conservação; Exposição e Programação Visual.

 O Núcleo Básico foi de extrema importância no sentido de reunir as pessoas, de integrá-las, de possibilitar a divulgação das diversas ações, tornando-as enriquecidas por meio da colaboração dos membros dos diversos Setores. Salientamos também a sua importância no sentido de desenvolver atitudes de respeito às idéias do outro, de ser o espaço onde os problemas, as dificuldades e as divergências eram colocados em evidência de uma forma aberta, sincera, tornando o ambiente bastante saudável, evitando os ressentimentos, favorecendo a amizade, a descontração e possibilitando aos componentes avaliarem a si próprios e aos demais componentes do grupo. É necessário ressaltar, entretanto, que as divergências, os conflitos, estavam presentes, e, às vezes, não eram ser resolvidas com facilidade. O que consideramos importante é a atitude de sinceridade, de maturidade em enfrentá-los, quando aprendemos, reciprocamente, tentar superá-los, sem camuflagens. A liderança da Coordenação nesse momento era de fundamental importância no sentido de identificar os problemas e de se colocar, abertamente, em relação aos mesmos,  incentivando o grupo para que tivesse a mesma atitude.   

 Destacamos, também, que a atuação participativa no Núcleo Básico contribuiu para o aumento da auto-estima dos componentes, pois se sentiram valorizados, ao verem suas opiniões serem aceitas, respeitadas, com todos colaborando efetivamente para o andamento dos trabalhos, sentindo-se, realmente, colaboradores ativos, co-autores, nas diversas ações. Essa auto-estima também era evidenciada quando os componentes participavam de atividades, no Colégio ou fora dele, com o objetivo de apresentar os trabalhos desenvolvidos no MDCI, oportunidade em que se percebia a satisfação, o orgulho, de estarem construindo o Museu do Colégio no Bairro de Itapuã.

 Identificamos, portanto, na organização deste Museu, o Núcleo Básico como o ponto de referência, o núcleo central, no sentido de democratizar a gestão, de possibilitar a construção conjunta do MDCI. O Núcleo estruturou-se, cresceu e  fortificou-se, no concreto das ações. Destacamos que a metodologia adotada privilegiava a interação, a participação, contribuindo efetivamente para que todos os membros envolvidos se tornassem participantes ativos na gestão e organização do Museu.

 A gestão e a organização do MDCI foram alimentadas, em todo o processo, pela concepção inicial. Nesse sentido, destacamos o poder realizador da teoria, tornando real os conceitos, ao passar do universo simbólico, que os concebeu, ao fazer cotidiano dos  participantes. Construímos um processo museológico que motivou a existência de um Museu Didático-Comunitário. Este Museu é o resultado dos avanços da construção do conhecimento na Museologia em vários momentos históricos.

 ·       Ações museológicas com os diversos níveis de ensino

 O cotidiano da Escola e do bairro, qualificado  como patrimônio cultural, foi o objeto de pesquisa, o vetor de todas as ações desenvolvidas em interação com alunos, professores e moradores locais. As ações muselógicas de pesquisa, preservação e comunicação foram desenvolvidas pelos componentes dos diversos Setores do Museu, a partir do planejamento realizado nas diversas disciplinas, relacionando os conteúdos programáticos das mesmas aos temas escolhidos pelos vários segmentos envolvidos. As programações foram desenvolvidas na carga horária destinada às diversas disciplinas, envolvendo os moradores locais, funcionários do Colégio e instituições do bairro. Foram trabalhados os seguintes temas:

  A História do Colégio Estadual Governador Lomanto Júnior;

O Bairro de Itapuã; A Lagoa do Abaeté;

A Preservação, na Escola e no Bairro;

Preservação, Qualidade de Vida e Cidadania;

O Jovem no Brasil de 500 anos. 

 O que se buscou, em todos os momentos, foi uma análise e interpretação da realidade, ou das muitas realidades, a partir dos pontos de interesse dos diversos segmentos envolvidos, produzindo, através da pesquisa, um conhecimento que foi apropriado e reapropriado pelos sujeitos envolvidos nas diversas programações. O processo de compreensão, de qualificação do fazer cotidiano, considerado como patrimônio cultural, foi se dando ao longo do caminhar, no desenvolvimento  da pesquisa.  

 Por meio da ação interativa e da reflexão, tomando como referencial a observação e a análise da realidade, conseguiu-se culturalizar aspectos da realidade local, em interação com outras realidades. Nesse fazer museológico, pesquisa e comunicação não se dissociaram, integraram-se, construindo conhecimento, com base no diálogo, em contextos interativos.

 As ações de pesquisa também permitiram a aproximação entre técnicos, alunos de 1o e 2o Graus, estudantes de Museologia, professores e moradores locais. Por seu intermédio foi possível construir conhecimento, tomando como referencial o cotidiano, qualificado como patrimônio cultural. Este conhecimento, portanto, foi sendo construído na ação museal e para a ação museal, objetivando a construção de uma nova prática social no fazer cotidiano da Escola e em interação com os moradores locais.                                                                                                         Este museu não está centrado na coleção. Tem  a pesquisa como suporte essencial para o desenvolvimento das ações museológicas. Do processo de construção do conhecimento em vários níveis é que se deu a constituíção do acervo.

 ·        MUSEU SACACA DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: um museu em movimento[5]

 O Museu Sacaca do Desenvolvimento Sustentável está localizado na cidade de Macapá, no Estado do Amapá, região Norte do Brasil. O Estado do Amapá é, hoje, um campo fértil para a atuação desse complexo museológico, que produz conhecimento, compreendido como um processo educativo, no sentido de formar cidadãos críticos e aptos a exercerem a sua cidadania, tendo como suporte a sua identidade cultural.

 Em dezembro de 1991, foi criado, em Macapá, o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá – IEPA, funcionando com dois centros de pesquisa: de Plantas Medicinais e o Zoobotânico, tendo sido, também, incorporados ao referido Instituto, os Museus de História Natural Costa Lima e o Museu de Plantas Medicinais Waldemiro Gomes.

 Em 1995, os museus incorporados ao IEPA são fechados, para reestruturação das exposições, tendo sido reabertos, em 1997, com a denominação de MUSEU DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Durante o período de reforma do Museu, a equipe dedicou-se à discussão do projeto de montagem da nova exposição e, enquanto isso, concentrou seus esforços na realização de exposições itinerantes, apresentadas em escolas, feiras agropecuárias – realizadas no Estado, anualmente –, e em outras instituições da comunidade.

 Em 20 de setembro de 1999, pelo Decreto no 2396 do Governo do Estado do Amapá, o Museu passou a ser denominado MUSEU SACACA DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL, em homenagem ao Sr. Raimundo dos Santos Souza, o Sacaca, considerando a sua contribuição para a população amapaense, por seu trabalho na área da medicina natural e por ser um grande representante das tradições culturais do Estado do Amapá. Sacaca é um referencial marcante no imaginário da população de Macapá e de todo o Estado.

 Em abril de 2002, foi inaugurada uma grande Exposição a Céu Aberto, apresentando temas relacionados aos aspectos culturais, históricos e sociais do Estado do Amapá e da região Amazônica. A sua idealização foi o resultado das inquietações dos técnicos, no sentido de buscar mecanismos de elaboração de uma exposição interativa, que envolvesse a comunidade no seu processo de construção, discutisse a realidade amazônica e se transformasse em um ponto turístico e de lazer para a comunidade amapaense, devendo, também, divulgar os projetos de pesquisas do IEPA, difundindo os conhecimentos produzidos sobre a utilização dos recursos naturais renováveis.

 Outro aspecto, que também pode ser apontado como motivação para elaboração do projeto da referida exposição, foi a grande participação da comunidade local nas diversas exposições temporárias apresentadas no Museu, após a sua reestruturação, que tinham como objetivo trabalhar temas relacionados às culturas locais e, em especial, a reconstituição da Casa do Caboclo Ribeirinho, montada em 1996. O impacto causado no público, principalmente na comunidade escolar, motivou o Governo do Estado e os técnicos do Museu para a execução do projeto.

 A montagem da Exposição a Céu Aberto, aliada ao processo de avaliação constante adotado pela equipe do Museu, sob a atual Coordenação, tem permitido identificar e analisar alguns pontos críticos da instituição, dentre os quais foi constatada a inexistência de um Projeto Museológico. Para sanar essa deficiência, foi contratada uma consultoria na área da Museologia, que, após elaboração de um diagnóstico, construído com a participação da equipe do Museu, gerou uma proposta museológica para a reestruturação do Museu Sacaca do Desenvolvimento Sustentável.[6]

 Para aplicação da concepção adotada no Projeto Museológico, foi necessário estabelecer uma ampla discussão com toda a equipe do Museu, com o objetivo de definir a missão da instituição, a partir da concepção adotada, tendo sido realizado, em seguida, um diagnóstico da realidade atual, cujos resultados foram o referencial básico para a elaboração do Plano de Ação do Museu para o ano de 2002 e do Projeto Pedagógico, desenvolvido em interação com a rede escolar.

 CONCEPÇÃO:

 O museu é considerado um espaço privilegiado, onde é possível concretizar as propostas de intercâmbio com as diversas áreas e, ao mesmo tempo, produzir conhecimento a partir dos temas e problemas que são potencializados no desenvolvimento das ações de pesquisa, preservação e comunicação, aplicadas em interação com as comunidades locais, reconhecendo no patrimônio cultural um instrumento de educação e desenvolvimento social. Assim, cultura, ciência e tecnologia, em interação, estão, efetivamente, contribuindo para o desenvolvimento sustentável. Reconhece-se, portanto, que as questões relativas à democratização do conhecimento e ao papel social do museu estão intrinsecamente relacionadas com as nossas atitudes diante do mundo, como pesquisadores e educadores, compreendendo a história como possibilidade e não como determinação.

 Tendo como meta principal a formação do sujeito ético, autônomo, solidário, crítico e transformador, foram destacados os referenciais abaixo como fundamentais para o desenvolvimento das ações museológicas que estão sendo desenvolvidas no Museu, em interação com as  escolas e com os diversos segmentos envolvidos: 

  • análise crítica e interpretação das múltiplas realidades;
  • prática da cidadania, com autonomia intelectual e pensamento crítico;
  • compreensão dos fundamentos científicos e tecnológicos e dos processos produtivos;
  • relacionamento ético com o meio ambiente;
  • reconhecimento do valor social do trabalho;
  • a valorização do patrimônio e da pluralidade cultural;

reconhecimento do patrimônio cultural como instrumento de educação e de inclusão social;

Buscando-se articular o conhecimento com a vida, identificando os conceitos que passam por todas as áreas do saber, portanto, nucleares, são destacados quatro núcleos básicos, sem, contudo, considerá-los únicos:

 Identidade

Tempo

Espaço

Transformação

 A justificativa para a escolha dos núcleos acima fundamenta-se no fato de que o ser humano nasce e constrói sua identidade nas relações que estabelece consigo mesmo e com os outros; vive em um determinado tempo histórico, psicológico e sociocultural; convive em um espaço geográfico, social, cultural e político; transforma a sociedade e é transformado por ela.

 As ações museológicas estão sendo aplicadas, tendo como elemento central a nossa identidade como sujeitos singulares e múltiplos, cidadãos amapaenses, brasileiros, sul-americanos, cidadãos do mundo. Estão sendo abertas possibilidades de leituras múltiplas do mundo, de tal forma que o conhecimento faça parte de nossas vidas, de nossa cultura, de nossa identidade e que não seja somente o conhecimento legitimado por outros grupos. Nesse sentido, a partir dos núcleos temáticos sugeridos anteriormente, os projetos estão sendo desenvolvidos com a participação dos professores, dos alunos e dos grupos comunitários, com o objetivo de produzir conhecimento baseado nas múltiplas realidades, qualificadas como patrimônio cultural, e integrando as diversas áreas do conhecimento.

 ·        Acervo e Temas das Exposições:

 A Exposição a Céu Aberto está apresentada em uma área de 20 mil  metros quadrados onde o visitante pode observar diversos aspectos naturais da região, caminhando por trilhas ecológicas formadas por pedra, água, madeira e areia. Além disso, as exposições são contextualizadas por meio de equipamentos com programas multimídia que estão disponíveis nos diversos espaços expositivos, destacando os aspectos sociais, culturais, econômicos, políticos e religiosos dos diversos grupos que estão representados no Museu.

 No momento, o Museu apresenta os seguintes temas e acervos nas exposições:

 ·        Casa do Castanheiro;

  • Casa do Caboclo Ribeirinho;
  • Casa das Representações Indígenas (Palikú e Waiãpi);
  • Casa de Farinha;
  • Monumento ao Marabaixo (dança tradicional da cultura negra do Estado do Amapá);
  • Sítio Arqueológico Maracá;
  • Praça do Sacaca;
  • Exposição Farmácia Viva – Fitoterapia;
  • Praça das Etnias;
  • Piscinas – plantas aquáticas, peixes regionais;
  • Exposição do Regatão (embarcação típica da região usada como comércio ambulante);
  • Projeto Navegar (inserção das comunidades ribeirinhas no mundo digital);
  • Orquidário;
  • Estufa;
  • Exposição de Plantas da Região;
  • Espaço para Exposições das Coleções e Projetos de Pesquisa do  IEPA;  
  • Planetário Móvel (etnoastronomia).

 Os Espaços de Serviços e Atendimento ao Usuário são os seguintes:

 

  • Auditório para 280 lugares;
  • Sala para Oficinas;
  • Casa de Leitura;
  • Maloca Multiuso;
  • Praça do Pequeno Empreendedor Popular (espaço para a venda de artesanato, souvenirs do Museu, comidas típicas da região e apresentação da produção artística local).

 ·        Missão:

 Durante a elaboração do Plano de Ação para o ano de 2002, foi definida a seguinte missão para o Museu:

 

“Promover a apropriação e a reapropriação do patrimônio cultural, aplicando as ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação, em interação com a comunidade amapaense, atuando como um referencial para o processo educativo e para o desenvolvimento sustentável.”

 ·        Organização:

 Atualmente, o Museu está funcionando como um Centro de Pesquisa Museológica, do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá – IEPA, com a seguinte organização técnica e administrativa:

 Coordenação

   Unidade de Apoio Administrativo

 Divisão de Pesquisa e Acervo

  Unidade de Documentação e Conservação

  Unidade de Acervo Zoobotânico

 Divisão de Ação Cultural e Educativa

  Unidade de Museu-Escola

  Unidade de Ação Comunitária

 Divisão de Exposição e Programação Visual

  Unidade de Divulgação e Eventos

 ·        Abrangência:

 O Museu Sacaca do Desenvolvimento Sustentável está atuando de forma abrangente, na Cidade de Macapá, realizando projetos em interação com a rede de ensino, nos diversos níveis, bem como com instituições museais, com demais instituições da área da Cultura, e com outras instituições locais. A proposta é que o Museu estenda a sua atuação para além dos limites da Cidade de Macapá, aplicando as ações museológicas em interação com comunidades localizadas nos municípios das várias regiões do Estado e mantendo um intercâmbio efetivo com os demais Estados do Brasil e com outros países. Com essa abrangência, pretende-se que seja realizada uma troca efetiva, no sentido de se produzir conhecimento, em interação, e, ao mesmo tempo, serem realizadas ações a fim de divulgar o Museu e os seus projetos.

Consideramos que a Exposição a Céu Aberto, a partir da concepção adotada, nos aponta os caminhos do respeito à diferença e à pluralidade, da construção de uma Museologia que está aberta às múltiplas realidades. Com certeza, a operacionalização das propostas apresentadas no Projeto Museológico traduzir-se-á em importantes contribuições para a área da Museologia, pois se trata de um projeto pioneiro, voltado para as características locais, construído com a participação dos cidadãos-beneficiários, o que ainda é raro em nosso País.

Consideramos que  o Estado do Amapá está inovando, ao desenvolver uma política voltada para o desenvolvimento sustentável, apoiada no patrimônio cultural dos seus cidadãos.

 DE ITAPUÃ A MACAPÁ: a busca de novos horizontes

 A ação-reflexão, realizada nos dois estudos de caso apresentados tornou possível, para mim, destacar alguns aspectos teórico-metodológicos no campo da Museologia, que acredito possam alimentar a aplicação de outros processos museais, e que, também,  podem ser consideradas como possibilidades para a atuação dos museus, ressaltando, entretanto, a necessidade da devida redução social, ao serem aplicados nos diferentes contextos. Assim, tentarei fazer um exercício de reflexão, destacando os seguintes aspectos:

 ·        Ampliação do conceito de patrimônio e aplicação do processo museológico a partir da relação: homem-patrimônio cultural. O referencial básico para o desenvolvimento das ações museológicas, em ambos os estudos de caso, foi o patrimônio cultural – em Itapuã, a partir da própria dinâmica da vida, no bairro e na escola. No Museu Sacaca, o patrimônio cultural começa a ser musealizado a partir de temas e problemas, apresentados em exposições temáticas, resultado do trabalho dos técnicos e pesquisadores. O olhar museológico sobre essas diversas realidades permitiu qualificá-las como patrimônio cultural. Esse olhar museológico não está centrado somente na coleção, nos objetos, no vínculo com o passado. Este aspecto fica mais evidente no processo desenvolvido em Itapuã, que buscou, a partir da interação do técnico com os sujeitos sociais, na Escola e no bairro, musealizar recortes da realidade do presente, o que não significa a ausência da reflexão sobre o passado e sua influência sobre a vida atual, sobre o patrimônio cultural do presente. A escolha de recortes da realidade atual tem incentivado, também, a pesquisa e a identificação de acervos do passado, bem como a produção de conhecimento embasada na relação passado-presente, gerando, também, bancos de dados que, além de alimentar a aplicação das ações museológicas, são motivadores para a concretização de novas pesquisas.

Percebe-se, portanto, um deslocamento da coleção e do critério de antiguidade, como justificativa para a existência do museu, bem como a ampliação dos bens culturais a serem preservados a partir do significado cultural atribuído pelos atores sociais.

·        A concepção de Museologia adotada e enriquecida no processo é que alimentou a aplicação das ações museológicas, nos dois estudos de caso. Vale a pena registrar que não é a categoria de museu que define a concepção de Museologia, isto fica evidente, sobretudo, no trabalho desenvolvido no Museu Sacaca. Este é um museu que tem um espaço de ambientações, um espaço com exposições permanentes de objetos, um espaço com exposições de projetos que são desenvolvidos no IEPA, onde se aplica uma concepção de museologia participativa, uma concepção de museologia que trabalha com o homem, o meio ambiente, o artefato, o saber, o saber fazer, articulando cultura, ciência e tecnologia, em um espaço que, olhado superficialmente, poderia ser considerado como um museu “tradicional”. É a nossa ação, embasada na concepção de Museologia adotada, que alimenta as ações museológicas que estão sendo aplicadas, em processo. Esta concepção adotada, discutida e absorvida por todos os componentes do Museu na elaboração do projeto museológico, é o referencial básico para a fundamentação do Plano de Ação do Museu e das unidades da instituição que atuam de forma articulada, definindo objetivos e metas, em conjunto. A concepção de museologia adotada, portanto, é que influencia o modelo de gestão, cujos objetivos e metas são definidos a partir da argumentação estabelecida entre os técnicos e os diversos segmentos envolvidos no processo de musealização, tanto em Itapuã como no Sacaca. Portanto, a aplicação das ações museológicas deve estar embasada na teoria e na relação necessária entre a teoria e a prática, possibilitando que ambas sejam fortalecidas e enriquecidas.

·        Articulação constante entre os saberes científico e popular, diálogo entre as linguagens erudita e popular. Reconhecimento da existência de uma fértil teia de relações, e da nossa disposição para ampliá-la, de forma integrada e cooperativa. Foi necessário quebrar os preconceitos que muitas vezes são a sustentação para os argumentos de autoridade, no sentido de privilegiar determinadas áreas do conhecimento, em detrimento de outras, buscando uma constante articulação entre os desenvolvimentos tecnológico e científicos, tendo como referencial o patrimônio cultural. A experiência do IEPA e do Museu Sacaca é marcante, quando se considera o conhecimento acumulado pelas comunidades tradicionais do Estado do Amapá, revitalizando a prática da terapia popular, acrescentando os conhecimentos proporcionados pela pesquisa científica como forma de fortalecer os traços culturais da região. O encontro do saber popular com o acadêmico tem como objetivo a construção de um conhecimento adequado à solução dos problemas do homem amapaense.

·        Criação de novas categorias de museus e aplicação de diferentes processos museais. As ações museológicas aplicadas, integradas entre si, aos objetivos dos diferentes projetos e às características dos diversos grupos sociais, tem incentivado a criação de novos museus e a aplicação de processos museológicos, em diferentes contextos, fazendo-nos compreender a ação museal como um ato criador e interativo, que incentiva o uso e a interpretação do patrimônio, contribuindo para que os sujeitos sociais possam se responsabilizar pelo seu patrimônio cultural. É interessante registrar que a proposta de abrangência do Museu Sacaca, contida no projeto museológico, cujas ações, com o objetivo de motivar as comunidades para a implantação dos núcleos de memória local, foram iniciadas com a realização de um seminário em Macapá, já começa a dar frutos, visto que a comunidade do Bailique, arquipélogo situado entre os estados do Pará e do Amapá, próximo à foz do rio Amazonas, já deu os primeiros passos para a criação do museu local e outras comunidades do interior já manifestaram o desejo de realizar intercâmbio com o Museu Sacaca, com o objetivo de aplicar ações museológicas em contextos diferenciados. Por outro lado, percebe-se que pessoas que atuaram no projeto de Itapuã estão, hoje, aplicando a ação museal em outros contextos, incentivando a criação de novos processos museológicos.

·        Revisão dos métodos  que seriam utilizados na aplicação das ações de pesquisa, preservação e comunicação. A ação comunicativa dos técnicos e dos grupos sociais, objetivando o entendimento, a transformação e a inclusão social, por meio da apropriação e da reapropriação do patrimônio cultural, exige uma abertura para o mundo, no sentido de transformar a extensão em ação, acreditando que é possível construir conhecimento na troca, na relação entre o ensino formal e o não-formal, no respeito à experiência e à criatividade dos muitos sujeitos sociais que estão fora dos museus e das academias  que podem nos indicar caminhos e soluções muitas vezes por nós despercebidos, os quais, também, serão enriquecidos a partir das nossas reflexões e do conhecimento por nós produzido.A interação do técnico com os atores sociais que estavam envolvidos nos diversos projetos tornou necessária a revisão da metodologia utilizada, pois esta não estava embasada, somente, na competência formal do técnico, como também, em seu compromisso ético e social.

·        Socialização da função de preservação. Nos dois processos apresentados buscou-se a formação de atitudes preservacionistas, realizando uma ação interativa entre os técnicos e os atores sociais, no sentido de compreender os objetivos da preservação no fazer cotidiano das pessoas. É necessário registrar que, também, foram aplicados procedimentos técnicos em acervos, motivando a formação de conservadores na própria população, considerando as suas aptidões e atitudes. Nesses processos museais, as reservas técnicas poderão ser instaladas seguindo os procedimentos técnicos adequados a cada acervo e as características das diversas regiões, buscando, inclusive, soluções alternativas e criativas, como foi o caso de Itapuã, como também os acervos poderão permanecer em seus locais de origem, imersos na dinâmica da vida dos diversos atores sociais que os qualificarão como patrimônio cultural. O trabalho de conservação realizado com alunos do Colégio Lomanto Júnior, que, com a orientação dos técnicos, restauraram documentos relacionados à suas histórias de vida, como fotos, suas e dos familiares, certidões de nascimento, atestados de batismo, etc., pode ser citado como um exemplo de formação de atitudes preservacionistas, de acervos preservados, no cotidiano das pessoas. Ressalto, entretanto, que o mais importante, nesse processo de preservação, é a mudança de atitude, em relação a si mesmo e ao mundo, contribuindo, por meio da ação museal, para gerar um processo de preservação do patrimônio global, visando ao desenvolvimento humano sustentável.

·  A musealização como projeto. A musealização da dinâmica da vida é um processo, ou seja, “ação reflexiva que tem como objetivo alcançar o conhecimento de algo, seqüência de estados de um sistema que se transforma”[7]. Nesse sentido, o processo museológico deve ser compreendido como projeto, que é construído de forma aberta, buscando atingir a missão de formar cidadãos capazes de se inserir no mundo, como sujeitos históricos, éticos, capazes de optar, de decidir e de romper, como ficou registrado na introdução do presente trabalho. Portanto, considero que os resultados alcançados nos dois projetos apresentados não podem ser medidos pelo parâmetro da simples permanância de um acervo colocado em determinado espaço físico, porque o mais relevante é a transformação ocorrida em cada indivíduo, a mudança de atitude, dos muitos sujeitos sociais que estiveram ou estão envolvidos no fazer museal. Ou seja, o olhar museológico é, aqui, considerado como um instrumento de ação-reflexão, que contribui para a construção e reconstrução do mundo. E, se admitirmos que o museu é construção, reconstrução, permanência e ausência, compreenderemos, com mais tolerância e respeito, a possibilidade de um museu deixar de existir, caso as pessoas que lhe dão sentido assim o desejarem, porque, sem os atores sociais o museu não é nada, não significa nada;

·        Articulação entre diferentes categorias de museus. A musealização de temas e problemas a partir da dinâmica da vida tem incentivado a criação de uma rede de interação entre museus, por meio da qual são desenvolvidos projetos, realizando uma ação transdisciplinar, que vai além das organizações internas de cada disciplina, buscando os elos indispensáveis à compreensão do mundo, na sua integridade, trabalhando categorias diferentes de acervos, buscando-se, também, a relação passado-presente. Destaco, em especial, o trabalho de Itapuã, onde vários projetos foram realizados utilizando as exposições de outros museus da Cidade do Salvador, bem como o material disponível na rede de comunicação por computadores, textos, vídeos e slides relacionados a acervos e projetos desenvolvidos em outros museus. Essa postura demonstra que é possível trabalhar com categorias diferentes de museus, sem preconceito, realizando uma troca salutar, o enriquecimento com a experiência do outro,  o incentivo à criatividade e à abertura de novos caminhos, sem desprezar o conhecimento historicamente já construído.

·         A museologia e a sua prática submetidas à reflexão. A constante ação-reflexão, com a  problematização de temas, por meio da observação, análise e interpretação dos acervos, institucional e operacional, permitiu questionar, também, o sentido da ciência, contribuindo para que a própria museologia fosse discutida, uma vez que os museus devem ser considerados como “locus” para a produção do conhecimento.

 A reflexão sobre a aplicação da ação museológica indica que é necessária a adoção de algumas estratégias, no sentido de operacionalizá-las, buscando alcançar os novos horizontes, aqui compreendidos como possibilidades de ação-reflexão, no interior do museu ou fora dele. Destaco, então os seguintes aspectos:

 ·        Revisão do perfil do museólogo;

 ·        Revisão dos currículos dos Cursos de Museologia, promovendo a formação de profissionais que sejam capazes de potencializar as instituições museológicas como agentes de desenvolvimento regional;

 ·        Interação entre os cursos de Museologia, Museus e Sociedade;

 ·        Reciclagem e capacitação do pessoal que atua nos museus;

 ·        Revisão dos modelos de gestão adotados pelos museus;

 ·        Adoção de políticas públicas de cultura, nas esferas Municipal, Estadual e Federal, com o objetivo de gerar um processo de preservação do patrimônio global, visando ao desenvolvimento humano sustentável;

 ·        Adoção de uma política museológica, pelos Ministérios da Cultura e da Educação, que tenha como referencial a construção do conhecimento na área da Museologia, e que leve em consideração a experiência acumulada, ao longo dos anos, pelos técnicos que atuam nas instituições museológicas, bem como  os anseios dos cidadãos-beneficiários, incentivando e apoiando projetos de autogestão dos museus;

 ·        Desenvolvimento e aplicação de tecnologias, na área da Museologia, observando-se as necessidades regionais.

 Considerações Finais

 Os caminhos percorridos lado a lado, com tantos atores participantes, foram, para mim, de uma riqueza imensa. As circunstâncias apresentadas, em cada contexto – em Itapuã a ausência, quase que absoluta, de recursos materiais, espaço físico e falta de vontade política -  não  foram capazes de inibir a motivação e a garra da equipe que foi se formando, gradualmente, absorvendo e enriquecendo a concepção inicial adotada, processo este facilitado pela presença de técnicos e estagiários da área da Museologia, e pela postura crítica do grupo, buscando apreender a razão de ser das muitas dificuldades encontradas, buscando melhorar as condições objetivas, através da atuação dos componentes do Núcleo Básico do Museu. Em Macapá, encontro todas as condições materias necessárias ao desempenho das atividades e vontade política, mas encontro, também, uma grande carência de informação sobre a área da Museologia. Entretanto, o reconhecimento dessa carência motiva a Coordenação do Museu para saná-la com a contratação de uma consultora e de uma técnica museóloga. A vontade política, somada à motivação para adquirir informação sobre museus e Museologia, torna possível a realização do que talvez eu possa denominar de “mutirão museológico”, tal é o esforço, demonstrado na realização de cursos de capacitação e de aquisição de material  bibliográfico.

 Não posso deixar de registrar, entretanto, o trabalho árduo e muitas vezes cansativo, realizado com a equipe do Museu Sacaca, com o objetivo de discutir e aprofundar a proposta teórico-metodológica constante do Projeto Museológico, bem como o diagnóstico da instituição, realizado com a participação dos componentes de todas as unidades. O trabalho participativo exige paciência, compreensão dos diferentes ritmos e do grau de motivação de cada um. Por outro lado, o cansaço é superado pela riqueza da troca, proporcionada pelo processo de argumentação e pela apresentação das soluções e dificuldades enfrentadas, que foram vivenciadas no cotidiano, o que, a todo momento, me motivou para lançar diferentes olhares sobre a Museologia.

 Quero ressaltar que os processos museais aqui apresentados não devem ser compreendidos como soluções ideais. Eles não podem ser compreendidos sem a devida aproximação de uma visão real da sociedade como uma construção histórica trespassada por conflitos, antagonismos e lutas, em que a questão do poder está sempre presente, exigindo ser equacionada e socializada. Vencer os altos e baixos ocasionados pelas mudanças políticas que não respeitam os processos em andamento e as conquistas já alcançadas, por exemplo, é um dos grandes desafios.

 Esta minha vivência me faz compreender que a Museologia, mais do que nunca, deve ser aplicada a partir do respeito à pluralidade e à diversidade cultural, e, conseqüentemente, às diversas categorias de museus e aos diversos processos museais. Acho que já posso sonhar em ver apresentados nos grandes museus do nosso país, sem preconceito, recortes diversos da dinâmica da vida, qualificados como patrimônio cultural e musealizados a partir da interação entre os técnicos e os vários atores sociais, cidadãos anônimos, excluídos dos programas e dos projetos desenvolvidos na maioria das instituições museais brasileiras. Por outro lado, gostaria de ver, também, expostos em museus comunitários, escolares, regionais, de bairro, etc., recortes da nossa História, da arte, da antropologia, da etnografia, da ciência e da tecnologia que estão presentes nos museus dos grandes centros urbanos. A análise da aplicação das ações museológicas nos dois estudos de caso aqui apresentados indica que, com esse intercâmbio, cresceremos muito na construção do conhecimento na Museologia e estaremos contribuindo, efetivamente, para a construção de uma sociedade mais justa e solidária e para que os museus possam atuar como instrumento de inclusão social. Será esse um novo horizonte a ser alcançado? O desafio está lançado.

 Encerro a minha reflexão apresentando dois conceitos de museu, emitidos por parteiras do Estado do Amapá, participantes do seminário para implantação dos Núcleos de Memória Local, realizado em Macapá, no mês de agosto próximo passado. Mulheres guerreiras que nunca haviam parado para refletir sobre o seu rico patrimônio cultural e sobre a instituição museu. Em seguida, incluo, também, um poema elaborado por um técnico do Museu Sacaca, após a apresentação de um canto, pelo índio Paxinã, durante o mesmo seminário. Registro-os, com a alegria e a  emoção de quem está convivendo com pessoas sábias e capazes de me fazer acreditar, cada vez mais, no sonho e na utopia:

 “Museu, coleção de pedaços da vida que a memória da gente guarda, no tempo e no   espaço.”

(Dona Eliza – parteira do Amapá, 60 anos)

 “O museu é um espaço de vida, lembrança, presente, passado e futuro.”

 Dona Josefa – parteira do Amapá, 58 anos).

 

Paxinã

As idéias diversas encontram-se; as múltiplas faces de
um mundo aparentemente conhecido que os “entraves de meus
olhos" não quiseram ver nas mudanças da vida .

 A dança do saber observar o “outro olhar”, que à distância
também não tem de mim notícias: práticas diferentes
intergrupais... necessidade urgente de aproximar
esses “tesouros” de seus construtores.

 A humanidade agradecerá com essa vontade desmedida de aproximar a
produção cultural de um Estado em um espaço comum,
formando um musical de múltiplas diferenças.

 O canto do Paxinã é minha alma e renasce a cada vez que sou lançado
a desafios como esse ... recolher pedaços da vida e
costurá-los com lágrimas, alegria e satisfação.

 Rinaldo Barbosa Sanches

 (Coordenador da Unidade de Ação Comunitária do Museu Sacaca.)

 

 BIBLIOGRAFIA

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 ___. Projeto Pedagógico.

 ___. Processo Museológico e Educação: Construindo um Museu Didático-Comunitário. Lisboa, ISMAG/UHLT, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Centro de Estudos de Sócio-Museologia. 1996.

 ___. Reflexões Nuseológicas: caminhos de vida. Lisboa: ISMAG/UHLT, Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Centro de Estudos de Sócio-Museologia, 2002

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[1] Texto a ser apresentado no IIII Fórum de Profissionais de Reservas Técnicas de Museus, a ser realizado em Salvador-BA, no período de 18 a 22 de novembro de 2002, organizado pelos Conselho Federal de Museologia – COFEM e Conselho Regional de Museologia, 1a. Região – COREM-BA.

[2] Maria Célia Teixeira Moura Santos é Profa. Aposentada da Universidade Federal da Bahia – Curso de Museologia, Museóloga, Mestre e Doutora em Educação. Atualmente, ministra aulas nos Cursos de Especialização em Museologia do MAE/USP e do Museu Antropológico da Faculdade de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal de Goiás, bem como no Mestrado em Museologia Social da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa-Portugal. É consultora  do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá – IEPA, para a área da Museologia (Museu Sacaca do Desenvolvimento Sustentável). Tem vários livros e artigos publicados , com enfoque nas áreas da Museologia e da Educação.

 

[3] Parte das reflexões apresentadas neste item está contida no texto de minha autoria, intitulado Museu e Educação: conceitos e métodos, publicado na revista Ciências e Letras. - n. 31 (jan./jun.2002) – Porto alegre: Faculdade Porto-Alegrense de Educação, Ciências e Letras, 2002. Optei por reapresentá-las, no presente texto, com o objetivo de, a partir das questões teórico-metodológicas da Museologia, por mim já comentadas no referido artigo, realizar uma análise da sua aplicação nos estudos de caso que serão aqui apresentados. Considero que a contribuição mais significativa que posso trazer para o debate do tema, que estamos discutindo no presente seminário, será a análise do processo museal, a partir das concepções de museu e de Museologia adotados, levantando as possíveis contribuições para a construção do conhecimento na área da Museologia e para a atuação dos museus na sociedade.

[4] Esta experiência foi descrita, em detalhes, apresentando os resultados alcançados, em minha tese de doutorado, intitulada: Processo Museológico e Educação: construindo um museu didático-comunitário, em Itapuã e publicada pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa-Portugal.

[5] O presente texto foi discutido e aprovado pela equipe técnica do Museu.

[6] Desde o ano de 2000 tenho atuado como consultora para a área da Museologia, no IEPA-Museu Sacaca do Desenvolvimento Sustentável, tendo elaborado, com a participação dos corpos técnico e administrativo, o Projeto Museológico, o Plano de Ação do Museu para o ano de 2002 e o Projeto Pedagógico. Este último contou com a participação dos professores das redes pública e particular de ensino, da cidade de Macapá. Estou atuando, também, na implantação dos núcleos locais propostos no Projeto Museológico.

[7] Japiassú, Hilton. Dicionário de filosofia/Hilton Japiassú, Danilo Marcondes. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1996.

    

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Índice autores

 

 

PROCESSO MUSEOLÓGICO: critérios de exclusão

1- Introdução

 Nos últimos anos, as reflexões em torno da construção do conhecimento, na área da museologia têm aumentado consideravelmente,  permitindo-nos lançar vários olhares sobre as nossas ações, e, conseqüentemente, nos capacitando a  estabelecer um debate  mais amplo, em torno do nosso campo de atuação, diminuindo a nossa exclusão no meio acadêmico – museólogos  reprodutores do conhecimento produzido em outras áreas.

No presente trabalho, abordaremos algumas questões relacionadas ao processo museológico, tomando como referencial vários estudos  sobre o  tema, que, devido ao tempo destinado à presente mesa-redonda, não poderiam ser reapresentados para discussão, mesmo porque, em publicação de nossa autoria, intitulada “Processo Museológico e Educação: construindo um museu didático-Comunitário”, destinamos um capítulo a essa abordagem. Optamos por fazer uma reflexão sobre a exclusão, olhando para o interior da instituição museu e para a aplicação dos processos museológicos; ou seja, realizando uma autocrítica, na qual me incluo, efetuando uma análise, que será aqui debatida, considerando, também, que os museus e as práticas museológicas estão em relação com as demais práticas sociais globais,  portanto, são  o resultado das relações humanas, em cada momento histórico.

Por fim, com base na experiência vivida, daremos continuidade ao nosso processo de reflexão, destacando a importância da produção do conhecimento, para a área da museologia, e a relevância da relação teoria-prática, pontuando alguns aspectos que consideramos possam vir a contribuir para a construção de uma ação museológica que seja elaboração histórica na conquista de um espaço de autodeterminação.

 2- Processo Museológico: uma ação de exclusão?

 A análise do processo museológico pressupõe a explicitação de que a sua aplicação se dá em contextos, os mais diferenciados, na relação do homem com o mundo; portanto, esse processo está impregnado, marcado, pelos resultados da própria ação, imerso na realidade concreta, cultural, na qual estão inseridos os sujeitos sociais; assim, a aplicação das ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação, a partir da qualificação do fazer cultural, está condicionada histórico-socialmente.

 A relação entre o processo museológico e exclusão,  não pode ser entendida de forma dissociada da tentativa de uma aproximação com uma visão real da sociedade como uma construção histórica trespassada por conflitos, antagonismos e lutas, em que  a questão do poder está sempre presente, exigindo ser equacionada e socializada. A relação museu-sociedade tem sido evidenciada pela atuação de técnicos que cumprem, bem ou mal, a política cultural estabelecida pelo sistema vigente, por meio do atendimento a metas e objetivos propostos por determinados segmentos, e que trazem, no seu bojo, na maioria das vezes, a ausência de uma ação comprometida com o desenvolvimento social, ou, quando muito, especificam metas e diretrizes que traduzem uma preocupação com uma aproximação maior entre as instituições museais e os anseios da sociedade, permanecendo, em geral, no papel, devido às diversas barreiras que  inviabilizam a sua execução.

 Falar de exclusão é falar de desigualdades sociais, tema por demais discutido e aprofundado por vários autores, o que nos isenta da responsabilidade de discuti-lo, em profundidade, mesmo porque não teríamos a competência necessária para fazê-lo. Estamos buscando, a partir da produção bibliográfica existente, alguns suportes necessários para a relação  com o nosso campo de atuação - a museologia.

 Nesse sentido, apropriei-me da categoria pobreza, analisada por Pedro Demo (1996),  como sinônimo de desigualdade social, quando analisa o bem-estar social, buscando lançar um olhar crítico, de avaliação das nossas ações. O autor chama a atenção para o fato de que pobreza não se restringe ao problema da carência material, percebido através da fome, sobretudo. Salienta que se observarmos bem, a nossa visão de pobreza é muito “pobre”. De um lado, ficamos apenas com a manifestação física, material, deixando de lado a “pobreza de espírito”. De outro, enfatiza, ainda, ignoramos aquilo que é marcadamente o cerne da pobreza; o fundo político da marginalização opressiva. Pobreza, define Demo: “É o processo de repressão do acesso às vantagens sociais”. Prosseguindo, distingue dois horizontes mais típicos da pobreza: pobreza sócio-econômica e pobreza política, chamando a atenção para o fato de uma estar relacionada à outra. O autor caracteriza a pobreza sócio-econômica como a carência material imposta, traduzida na precariedade comumente reconhecida do bem-estar social: fome, favela, desemprego, mortalidade infantil, doença, etc., destacando que esse horizonte é mais pesquisado, possuindo as vantagens metodológicas utilizadas nos trâmites acadêmicos do tipo “indicadores sociais”, porque são quantificáveis. Por pobreza política,  caracteriza a dificuldade histórica de o pobre superar a condição de objeto manipulado, para atingir a de sujeito consciente e organizado em torno de seus interesses. Destaca que a pobreza política se manifesta na dimensão da qualidade, apesar de estar, também, condicionada pelas carências materiais, mas sem se reduzir a essas, o que aponta para o déficit de cidadania. Como qualidade política não se mede, chama a atenção para  o fato de que esse horizonte é menos estudado  devido às dificuldades metodológicas para sua mensuração, e, que, por outro lado, há sempre a intervenção do Estado que tem dificuldade de entender que nem sempre a política social deve ser estatal. Enfatiza que é politicamente pobre o povo que é massa de manobra, ou seja, não é propriamente povo, mas objeto de manipulação das oligarquias, e chama a atenção para o fato de que, mais do que nunca, a superação da pobreza política só pode ser iniciativa primeira do real interessado.(o grifo é nosso).

Como já dedicamos algum tempo refletindo sobre  as características da política educativo-cultural brasileira, nos contextos social, político e econômico do país, analisando a sua influência  na atuação das instituições museológicas, em trabalhos já publicados (Santos, 1993, 1996), procuraremos, abordar, neste momento, a relação: Processo Museológico-exclusão, situando, inicialmente, o fazer museológico, a partir de um olhar para  dentro, ou seja, de avaliação das nossas ações, enquanto técnicos, e em interação com o outro; a exclusão, provocada por nós mesmos, em nossa probreza política e, também, sócio-econômica; encará-las de frente, na prática cotidiana da ação museal e que irá refletir, conseqüentemente,  nos objetivos e metas das nossas instituições. A escolha desse enfoque está relacionada à carência, por nós constatada, de uma análise que permita caracterizar a ação social do museu a partir do seu interior. Sempre deslocamos o eixo da discussão, em torno do tema museu e sociedade, para a relação com o público, com a comunidade, esquecendo-nos que público e comunidade, também, somos nós, e que é somente  a partir de um processo de crítica e autocrítica, interna e externa,  que  poderemos assumir o nosso compromisso social.

 Tomarei a gestão das instituições museológicas e a aplicação das ações  de pesquisa, preservação e comunicação como parâmetros para discussão do nosso problema, qual seja: processo museológico:  uma ação de exclusão? Esclarecendo, entretanto, que, para nós, a aplicação do processo museológico não está restrita à instituição museu, ele pode anteceder à existência objetiva do museu ou ser aplicado em qualquer contexto social.  Estamos assumindo, neste trabalho, a definição de fato museal como a qualificação da cultura em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social.

A partir desse momento, tentaremos inserir as ações museológicas no contexto da organização e gestão das instituições museais, por considerarmos que devem estar integradas aos objetivos e metas da instituição. Na organização e gestão dos nossos museus ou dos projetos desenvolvidos em nossa área, ou em relação a outras áreas do conhecimento, percebe-se que os sujeitos envolvidos são considerados como categorias estanques, onde a cada um cabe a tarefa de executar as ações previstas e pensadas por algumas “cabeças iluminadas”, pois, em geral, estão excluídos do momento da concepção, da definição dos objetivos e metas do plano diretor da instituição, se é que eles existem, ou sequer foram ouvidos e devidamente esclarecidos sobre o plano de ação a ser executado. Não há espaço para contribuição  do grupo, para troca, para o enriquecimento mútuo, para a crítica salutar, porque a nossa pobreza política não nos permite ver além dos nossos interesses e do nosso próprio umbigo. Além disso, a nossa pobreza sócio-econômica é utilizada para justificar a acomodação,  a estagnação, e a ausência de ações criativas que apontem para as soluções dos nossos problemas.

 Das atividades de organização e gestão, são excluídas, completamente, as ações museológicas, como em um  “quebra-cabeça” mal-formulado, onde as peças nunca se encaixam, porque, também, as atividades técnicas de pesquisa, preservação e comunicação são aplicadas em compartimentos estanques, em uma completa dissociação entre meio e fim (Santos, 1996, Chagas, 1996)  ou discriminadas por “pesquisadores, cabeças pensantes e fechadas” de outras áreas, que nos consideram como meros reprodutores do conhecimento. Sendo assim, as aplicações das ações museológicas têm sido muito mais resultado da aplicação da técnica pela técnica do que resultado de um processo.

 Nesse contexto, do ponto de vista da gestão, estão colocadas as condições para a competição desenfreada, que facilita a inclusão ou a exclusão, por meio de práticas impróprias, que a ausência de qualidade política nos faz aceitar passivamente, como, por  exemplo, a  nossa tão conhecida  “puxada de tapete”. A ausência de liderança para administrar os conflitos, identificando-os e tentando superá-los, sem os camuflar, talvez seja uma das nossas grandes carências. Imperam a desigualdade, o estrelismo, o individualismo, a falta de cooperação e a falta da visão da instituição como um todo.

Outro aspecto que nos parece interessante ressaltar é a falta de intercâmbio entre as instituições museológicas. A ausências de projetos integrados, mesmo entre as instituições da mesma esfera administrativa, quer seja no âmbito municipal, estadual ou federal, demonstram a falta de correlação entre os nossos acervos, que deveriam ser explorados, trabalhados por meio de uma ação transdisciplinar, que vá além das organizações internas de cada disciplina, buscando os elos indispensáveis à compreensão do mundo, na sua integridade. O nosso isolamento, marcado muitas vezes pelo preconceito, talvez seja uma das causas que impedem o crescimento do processo museológico. Não é raro, entre os profissionais da área, o uso de rótulos e de atitudes separatistas entre os adeptos da nova museologia, dos museus comunitários, dos museus “tradicionais”, o que demonstra a nossa pobreza, a nossa pequenez, e impede a troca salutar, o enriquecimento com a experiência do outro,  o incentivo à criatividade e à abertura de novos caminhos, sem ter que desprezar o conhecimento historicamente já construído. Esse processo interno de desigualdade e exclusão tem provocado, muitas vezes, o desencanto, a baixa auto-estima, a desmotivação para a busca de soluções e, até mesmo, o afastamento de profissionais das nossas instituições.

Comentando, ainda, o isolamento das instituições museológicas, cito um exemplo que estou vivenciando: há seis anos venho atuando em um projeto, em uma escola pública da Cidade do Salvador, cujas ações resultaram na implantação de um museu no seu interior, cujos resultados alcançados têm-nos permitido avançar em relação às questões teórico-metodológicas nas áreas da museologia e da educação. Com o objetivo de alargar os horizontes, permitindo a interação com outros processos, por iniciativa da nossa equipe, executamos  vários projetos com outras categorias de museus da nossa cidade, em que alunos e professores, de diferentes níveis de ensino, tiveram acesso, pela primeira vez, a essas instituições. Da escolha dos temas, passando pela operacionalização das ações, até a avaliação, atuamos, como provocadores,  ou seja “forçando a barra”, para que acontecesse a interação necessária com os técnicos dos outros museus, que, com raras exceções, sequer demonstram interesse em conhecer os objetivos das nossas programações.

 Outro dado que serve de parâmetro para a nossa análise, em relação ao isolamento das nossas instituições, à redução dos seus espaços de atuação, bem como em relação ao nosso museu, é que, desde a sua implantação, até o presente momento,  nunca fomos procurados por profissionais das demais instituições museológicas da nossa cidade, com o objetivo de realizar projetos conjuntos ou para conhecer os processos por nós desenvolvidos, embora já tenham ocorrido solicitações nesse sentido, por parte de instituições do exterior e por parte de escolas de diferentes níveis, da cidade do Salvador;  o que  nos faz  concluir que essa necessidade não é sentida, nem faz parte dos objetivos e metas das instituições museológicas. Infelizmente, não há nenhum movimento nesse sentido. 

 Tentar refletir sobre as nossas desigualdades e sobre os nossos processos de exclusão é tarefa necessária no sentido de diminuir a nossa pobreza política e a sócio-econômica. Consideramos que é quase impossível uma relação aberta com o outro, no caso, a relação do museu com os diversos segmentos da sociedade, se não encararmos de perto as nossas contradições, em um processo constante de auto-avaliação. Ingênuo seria pensar que elas não existem ou que serão exterminadas, como em um passe de mágica, a partir de uma ação isolada do técnico. Identificá-las, e nos sentirmos também público, comunidade, cidadão, em nossa opinião, é o primeiro passo. Consideramos que existem alguns caminhos a serem apontados no sentido de que cada um de nós possa construir, dentro de um contexto histórico concreto.

 3- Desafios e Perspectivas

 Acho que um dos primeiros desafios a ser considerado é tomar os pontos relevantes, apontados pelo processo de avaliação, como indicadores para a nossa ação. Nesse sentido, considero que os nossos problemas podem ser situados nos campos da qualidade formal (desafio tecnológico e instrumentação científica) e da qualidade política (desafio educacional, no sentido de conceber futuros alternativos para a sociedade). “O intelectual não vale apenas pelo que “sabe” em termos de domínio técnico, mas igualmente pelo que “vale” em termos de agente de mudança”. (Demo 1996).

Ao analisarmos o curso da História, percebemos que as recentes transformações internacionais são o resultado do trabalho de muitas pessoas e comunidades organizadas de diferentes contextos econômicos e culturais. Nesse sentido, Sander (1995) destaca a importância da capacidade de criação e ação humana coletiva na construção e reconstrução de perspectivas intelectuais e na adoção de soluções políticas, por meio da ação governamental e da participação cidadã, exercida desde os mais diversos cenários culturais. O referido autor chama a atenção para o fato de que esses elementos são observados, diariamente, nas organizações sociais, nas quais a intencionalidade humana e a ação organizada e concreta da sociedade política e da sociedade civil são fatores decisivos para a construção de um mundo livre e eqüitativo. Sendo assim, enfatiza que a nova matriz de poder mundial que necessitamos construir coletivamente deve suplantar, tanto a perspectiva dicotômica, quanto a visão unidimensional na política e na sociedade, cedendo lugar a uma orientação multidimensional ou multiparadigmática com crescente conteúdo cultural e uma estratégia eqüitativa de ação baseada na participação democrática.

 No momento atual, a museologia deve sintonizar-se, em qualquer das suas correntes, com os caminhos da ciência na contemporaneidade. Sendo assim, a problematização de temas, através dos acervos, institucional e operacional, questionará, também, o sentido da ciência, contribuindo para que a própria museologia e a sua prática sejam submetidas, também, à reflexão, uma vez que os museus devem ser considerados como “locus” para a produção do conhecimento.

 A consolidação de uma política museológica  deverá ser processada tendo como referencial um quadro teórico inerente aos museus e aos processos museais, dando lugar para que se desenvolvam as diretrizes das instituições, preservando as suas especificidades, devendo ser um suporte essencial para a exploração adequada de potenciais ainda não trabalhados.

 Portanto, a aplicação das ações museológicas, deve estar embasada na teoria e na relação necessária entre a teoria e a prática, possibilitando que ambas sejam fortalecidas e enriquecidas. Retornamos ao conceito de fato museal, já explicitado anteriormente,  qual seja:

a qualificação da cultura em um processo interativo de ações de pesquisa, preservação e comunicação, objetivando a construção de uma nova prática social,

buscando um melhor entendimento desse conceito, já que o consideramos como o suporte essencial para o desenvolvimento do processo museológico. Salientamos, mais uma vez, que em nossa concepção, o processo museológico pode  anteceder a existência objetiva do museu, e deve ter, na pesquisa, o suporte essencial para o seu desenvolvimento. O processo de construção do conhecimento nos conduzirá, então, à musealização, processada na prática social - no interior do museu ou fora dele - em sua didâmica real, considerando as  dimensões de tempo e espaço, abordando a cultura de forma integrada às dimensões do cotidiano, ampliando as suas dimensões de valor, de consciência e de sentido. Assim, as ações museológicas de pesquisa, preservação e comunicação não objetivam a representação cultural, entendendo a cultura como um domínio à parte, em forma de eventos, ou separando os objetos das práticas culturais que lhes conferiram significado, marcada pela dissociação entre o produtor e o consumidor. Neste processo, busca-se de maneira efetiva, a interação dos técnicos com os demais sujeitos envolvidos, motivando a  realização de novas práticas sociais, ou seja: a nossa proposta teórico-metodológica está pautada no diálogo, no argumento e em contextos interativos, compreendendo que o processo de comunicação permeia todas as ações museológicas, permitindo a integração e o enriquecimento, reconhecendo no patrimônio integral  um  instrumento de educação e desenvolvimento.

As ações de pesquisa, preservação e comunicação referenciadas no patrimônio cultural, não podem estar dissociadas da participação e do desenvolvimento. Sendo assim, a aplicação da técnica pela técnica está superada; pelo menos reconhecidamente superada em nossas atividades de reflexão e avaliação, embora,  na prática, ainda seja o mais recorrente.

 A preservação da identidade é necessária, pois é patrimônio comunitário essencial, devendo ser o suporte essencial para o desenvolvimento. Demo (1996) ilustra a relação identidade-desenvolvimento, salientado que o índio quer sua identidade, mas também quer trator, e destaca: “identidade que cultiva a pobreza está na direção errada”. Por outro lado,  não há porque se voltar contra a cultura da elite, porque essa também é patrimônio social e histórico importante. O reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade cultural, e, conseqüentemente às diversas categorias de museus e aos diversos processos museais, se fazem urgentes e necessários. Trata-se de um dos desafios colocados, no sentido de diminuir as desigualdades e a exclusão.

Consideramos, também, que outro  desafio a ser vencido, com qualidade formal e qualidade política, é a gestão das instituições museológicas, alimentada por uma concepção, ou por várias concepções, compreendendo a construção do conhecimento como processo. Destacamos, nesse sentido, o poder realizador da teoria, tornando real os conceitos, ao passar do universo  simbólico que os concebeu ao fazer cotidiano dos envolvidos no processo. As instituições museológicas são o resultado dos avanços da construção do conhecimento na museologia, em vários momentos históricos. Compreendendo os museus como instituição, como o resultado da criação de um grupo, em constante reflexão e, conseqüentemente, em permanente transformação, reconhecemos que o seu processo será sempre dinâmico, no sentido da recriação.

 Necessário, pois, se faz refletir sobre a atuação dos cursos de museologia destacando que o seu compromisso maior deva ser com o desempenho qualitativo, preparando profissionais que sejam capazes de produzir conhecimento, buscando, também, a interseção criativa de contribuições conceituais e analíticas de outras disciplinas, contribuindo com a necessária renovação dos processos museais, reconhecendo as especificidades dos diferentes contextos, adequando os procedimentos metodológicos e técnicos às diferentes realidades, com a abertura necessária para a avaliação e para a reflexão crítica. 

Urge reconhecer a importância dos cursos de formação, no sentido de contribuir, efetivamente, para os avanços teórico-metodológicos, em nosso campo de atuação, ressaltando, entretanto, a necessidade de uma abertura maior no sentido de dotar seus currículos de conteúdos substantivamente relevantes, sem perder de vista que a sua maior missão é a político-cultural. E esse objetivo maior não pode ser alcançado somente nos espaços fechados da academia. Sirvent (1984), analisando a relação entre a educação, formal e a não-formal, sugere que é possível organizar uma ação educativa complexa, que seja resultante de uma rede de interação entre diversos recursos educativos. Não se trata de somar ou adicionar componentes isolados, mas de integrar os mesmos ao redor de objetivos educacionais comuns. Nesta rede, insere-se a educação formal ou uma redefinição de seu papel frente à comunidade e aos recursos educativos não-formais  da mesma. Sugere ainda a referida autora, que as instituições do macrossistema constituir-se-iam num sistema aberto em contínua comunicação, tanto entre si como com o meio em que estão inseridos. Infelizmente, as experiências até o momento mostram que as instituições menos flexíveis para se modificar dinamicamente neste processo são as escolares.

 Comentando sobre a  gestão democrática  e sobre a qualidade da educação, Sander (1995) registra que a construção e reconstrução do conhecimento na educação e na gestão educacional, comprometida com a qualidade e a eqüidade,  implicam um grande esforço. Chama a atenção para o fato de que esse esforço assume proporções enormes na América Latina, onde seus países necessitam multiplicar, urgentemente, seus conhecimentos científicos e tecnológicos, para poder participar, ativamente, e beneficiar-se, eqüitativamente, das transformações política e econômica, sem precedentes no mundo moderno. Em trabalho realizado em 1988, Espínola analisa o que foi escrito sobre a qualidade da educação na América Latina a partir de 1980 e, dentre outros aspectos, analisa o impacto da educação em nível da estrutura social. Reconhece-se o sistema educacional como uma engrenagem a mais na estrutura social e a qualidade é avaliada em termos dos efeitos da educação no sistema social mais amplo, questionando-se o peso ou o impacto da educação na estrutura social e avaliando-se sua capacidade para produzir mudanças globais. Os estudos realizados coincidiram em três aspectos:

 ·        A qualidade dos sistemas educacionais na América Latina é deficiente;

·        É necessário realizar diagnósticos dos níveis de qualidade existentes, ou seja, avaliar a qualidade disponível;

·        A situação é tão crítica, que não é possível ater-se aos esforços de medição de qualidade, mas é preciso produzir qualidade.

 Ao refletir sobre o processo museológico, inserindo-o nas demais práticas sociais globais, a partir de uma autocrítica das nossas vivências, objetivamos, com a análise aqui efetuada, apontar alguns caminhos para que possamos assumir o nosso compromisso social com qualidade, o que,  implica participação, imersa em nossa prática cotidiana. Demo (1994) salienta que qualidade é participação; com efeito, é conquista humana principal, tanto no sentido de ser, mais do que nunca, uma conquista - dada a dificuldade de a realizar de modo desejável - quanto no sentido de ser a mais humana imaginável - porque é, especificamente, a forma de realização humana. É a  melhor obra de arte do homem em sua história, porque a história que vale a pena é a aquela participativa, ou seja, com o teor menor possível de desigualdade, de exploração, de mercantilização, de opressão. No cerne dos desejos políticos do homem está a participação, que segmenta metas eternas de autogestão, de democracia, de liberdade, de convivência.

 Os desafios são muitos. Entretanto, falar dos processos museais, e da sua aplicação nos diversos contextos, visando ao desenvolvimento social, sem  encarar de frente as nossas contradições, as nossas fraquezas,  é uma falácia.  A redução das desiguladades e, conseqüentemente, dos processos de exclusão, em nosso campo de atuação, está diretamente relacionada à nossa mobilização para a participação, desde que estejamos interessados em construir a participação. Só assim estaremos contribuindo para diminuir a nossa pobreza política e a nossa pobreza  sócio-econômica.

  

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