Mestrado em Museologia 2004/2005
 
 

Textos de Apoio

Cristina Bruno - Atenção novos textos

 

Textos incluídos Cadernos de Sociomuseologia Nº9 - Museologia e comunicação. Cristina Bruno. 1996. ULHT

INTRODUÇÃO
MUSEOLOGIA: ALGUMAS IDÉIAS PARA A SUA ORGANIZAÇÃO DISCIPLINAR
OS PROCESSOS MUSEAIS E AS QUESTÕES METODOLÓGICAS: O MUSEU DA CIDADE DE PIRAJU COMO ESTUDO DE CASO
FORMAS DE HUMANIDADE: CONCEPÇÃO E DESAFIOS DA MUSEALIZAÇÃO
IMPRESSÕES DE VIAGEM: UM OLHAR SOBRE A MUSEOLOGIA PORTUGUESA
ENTRE A MUSEOLOGIA E A MUSEOGRAFIA: propostas, problemas e tensões

INTRODUÇÃO

“Enquanto necessidade ontológica a esperança precisa da prática para tornar-se concretude histórica. É por isso que não há esperança na pura espera, nem tampouco se alcança o que se espera na espera pura, que vira, assim, espera vã”

Paulo Freire[1]

Os textos reunidos nesta publicação representam alguns momentos de uma busca que iniciei há dezoito anos, impulsionada pela sabedoria generosa de Waldisa Rússio Camargo Guarnieri, com o propósito de equacionar os desafios da prática museológica em um país que não se cansa de procurar e repensar a sua identidade cultural.

Entendendo que a “espera vã” não permite aflorar os desafios e as transformações, procurei pautar os meus caminhos profissionais pelos questionamentos e experimentações, pois considero que a Museologia e os Processos Museais dependem de perguntas constantes e práticas reiteradas.

Estes caminhos, muitas vezes, abrigaram passos à frente e recuadas estratégicas, mas, o mais importante é que nunca perderam de vista o objetivo maior: permitir que a Museologia sirva de instrumento para a necessária articulação entre a preservação e o desenvolvimento.

Assim, ao longo destas páginas, apresento algumas idéias para a construção epistemológica da disciplina aplicada Museologia; destaco questões referentes à metodologia de trabalho dos processos museais; indico, em um ensaio, os desafios da musealização nos museus tradicionais e, finalmente, divulgo as minhas impressões de viagem em relação à realidade museológica portuguesa. Trata-se, sem dúvida, de uma publicação com variáveis sobre o mesmo problema, ou seja: mapear os pressupostos de uma área de conhecimento, preocupada em entender os diferentes níveis de aproximação e estranhamento entre as sociedades e as suas referências patrimoniais.

 

São Paulo, primavera de 1996.

 

MUSEOLOGIA: ALGUMAS IDÉIAS PARA A SUA ORGANIZAÇÃO DISCIPLINAR

Cadernos de Sociomuseologia Nº9- Museologia e comunicação. Cristina Bruno. 1996. ULHT


A problematização das hipóteses científicas nas Ciências Humanas, vinculada ao estudo da Cultura Material, procura elucidar os processos de continuidades e mudanças dos distintos fenômenos ligados aos grupos humanos do presente ou das sociedades extintas. Por um lado, essa busca orienta-se para a compreensão das possibilidades de dispersão dos vestígios materiais (evidências culturais) em um território e a respectiva inserção nos diferentes níveis das sociedades e, a partir de diferentes metodologias, esses vestígios acabam sendo retirados de seu local de origem e reunidos em uma instituição. Por outro lado, muitos destes estudos partem dos objetos já reunidos em instituições, com o objetivo de entender o perfil das sociedades que os produziram. De uma forma, ou de outra, a evidência material da cultura é um elemento de crucial importância para estas análises e os museus estão entre as principais instituições que guardam esses indicadores da dimensão cultural das sociedades.

Assim, não só os museus têm uma íntima vinculação com o desenvolvimento de diversos ramos das Ciências Humanas, mas a Museologia - enquanto disciplina - apresenta uma acentuada cumplicidade com estas áreas de conhecimento e também com os outros ramos do conhecimento científico.

Cabe salientar que a Museologia oferece às outras áreas uma oportunidade especial de aproximação sistemática com a sociedade presente, para a necessária e requisitada devolução do conhecimento, uma vez que vincula suas principais preocupações em dois níveis, a saber:

1º) identificar e analisar o comportamento individual e/ou coletivo do homem frente ao seu patrimônio.

2º) desenvolver processos técnicos e científicos para que, a partir dessa relação, o patrimônio seja transformado em herança e contribua para a construção das identidades.

Os indicadores/vestígios das sociedades que correspondem ao interesse de estudo da Cultura Material são, também, elementos da herança patrimonial, tratados e comunicados pela Museologia.

Seriam olhares diferentes sobre o mesmo fenômeno, como acontece em relação a diversas áreas de conhecimento? A resposta é negativa. São olhares complementares e cúmplices.

As Ciências Humanas, em geral, evidenciam facetas das sociedades, descobrem peculiaridades de um passado às vezes esquecido e fazem aflorar os indicadores da memória, mas não têm potencialidades efetivas de comunicar-se em larga escala com a sociedade presente. Já a Museologia se estrutura como a área de conhecimento específica para viabilizar essa comunicação, mas depende, evidentemente, da produção de conhecimento próprio às áreas que estudam os indicadores da memória.

A partir de uma perspectiva histórica é possível considerar que, desde os primeiros trabalhos escritos sobre coleções, já se encontrava o prenúncio de uma área de conhecimento que apenas neste século seria estruturada.

Segundo Guarnieri (1989:7)... “O holandês Quiccheberg, em Munique, em 1565, ao elaborar a primeira tentativa de uma teoria das coleções de museu, talvez não pudesse avaliar o pioneirismo de sua contribuição numa área totalmente nova ou que seria seguido, posteriormente, por Major, no século XVII, afirmando o caráter disciplinar da Museologia; por Neickelius, em 1727; por Diderot, em 1765, com seu ensaio sobre a organização racional do Louvre; por Lafont Saint Yenne, durante a Revolução Francesa, postulando em panfletos por “museus para o povo”; por Goethe e seus lúcidos textos sobre a atividade museal (aumento das coleções, arranjo estético, função educacional dos museus)”.

Desta forma, até este século, muitas evidências comprovam que o fazer museal impôs, a partir de uma reflexão crítica, a constituição de um universo particular para a edificação de sua epistemologia. Esta trajetória tem sido lenta e ainda hoje confronta-se com o número reduzido de profissionais preocupados com a estruturação teórico-metodológica desta disciplina, com poucas escolas de formação e com um objeto de estudo extremamente diversificado que dificulta as análises comparativas.

A identificação das associações mentais, que têm contribuído para a formação do pensamento museológico, tem sido lenta e dispersa em diversas partes do mundo. Esta realidade epistemológica que envolve a Museologia tem dificultado, também, a elaboração de princípios básicos e hierarquizados de raciocínio sobre o fenômeno museal.

É possível reconhecer que as preocupações museológicas correspondem às questões inerentes à preservação, organização, comunicação e educação patrimoniais. Entretanto, o museu - enquanto instituição - ainda reúne e absorve grande parte dessas preocupações.

Segundo Pomian (1984), as sociedades humanas têm o hábito de eleger, selecionar, reunir e guardar objetos desde a pré-história. Com isso, fica evidente a relevância dos objetos no cotidiano dos homens e o lugar de destaque que ocuparam as famosas coleções, ao longo da História, na tentativa de superar os limites da transitoriedade humana.

Se, hoje, pode-se afirmar a inquestionável importância dos objetos, é porque, ao lado do exercício humano de elaborar um artefato, sempre existiu alguma idéia de preservação.

Portanto, cabe enfatizar que os museus herdaram essa atitude e são responsáveis pela sua perpetuação, ao lado de outros modelos institucionais (arquivos-bibliotecas) e mesmo de outros processos sociais.

Considerando que os templos da Antiguidade, os gabinetes, galerias e antiquários e os museus enciclopédicos deixaram contribuições para a idéia de museu presente neste século, constata-se que o homem, ao longo do tempo, não deixou de lado a preservação de seus vestígios e que, de uma maneira ou de outra, mesmo privilegiando as marcas das elites, o museu é um fenômeno mundial.

Entretanto, na contemporaneidade, este modelo institucional divide sua atenção entre problemas preservacionistas e outros vinculados, por exemplo, a questões acadêmicas, definições administrativas e políticas, sem contar as dificuldades técnico-científicas enfrentadas para acompanhar a evolução do conceito de preservação que caminhou mais rapidamente fora dos museus.

Reafirmando que a preservação é a função básica de um museu e que a partir dela estão subordinadas todas as outras, tais como coleta e estudo dos objetos e/ou espécimes da natureza; salvaguarda das coleções e/ou referências patrimoniais (conservação e documentação) e comunicação (exposição, educação e ação sócio-cultural), salienta-se que o desempenho articulado de todas estas facetas preservacio­nistas deve estar vinculado ao exercício da disciplina museológica.

Em recente estudo, Peter Van Mensch (1994) apresenta um panorama sobre os principais caminhos que os téoricos têm apontado, no sentido de contribuir para a construção da Museologia como disciplina científica. Baseando-se na produção escrita e organizada no âmbito do ICOFOM - Comitê Internacional do ICOM[2]  para a Museologia, o referido autor indica que existem cinco segmentos de idéias, a saber (Quadro 1):

 

1) a Museologia como estudo da finalidade e organização de museus;

2) a Museologia como o estudo da implementação e integração de um conjunto de atividades visando à preservação e uso da herança cultural e natural;

3) a Museologia como o estudo dos objetos de museu;

4) a Museologia como estudo da musealidade e,

5) a Museologia como o estudo da relação específica do homem com a realidade.

Revisitando essas idéias, constata-se que a preocupação desta disciplina está voltada para dois grandes fenômenos, conforme já foi apontado. Por um lado, a necessidade de compreender o comportamento individual e/ou coletivo do homem frente ao seu patrimônio e por outro lado, desenvolver mecanismos para que a partir desta relação o patrimônio seja transformado em herança e esta, por sua vez, contribua para a necessária construção das identidades (individuais e/ou coletiva).

Desta forma, enquanto área de estudo, a Museologia pode consolidar os museus já existentes e propiciar a criação de novos modelos. Em ambos os casos a noção de preservação é básica e o desdobramento dessa caminhada conceitual depende da compreensão do que é preservação (Quadro 2).

É possível enfatizar, lembrando Waldisa Guarnieri (1990:10), que musealização pressupõe ou implica em preservar e enquanto ação museológica ela aproxima objetos e homens, revitalizando o fato cultural, ... “a preservação proporciona a construção de uma memória que permite o reconhecimento de características próprias, ou seja, a identificação. E a identidade cultural é algo extremamente ligado à auto-definição, à soberania, ao fortalecimento de uma consciência histórica”

Compreende-se, então, que a Museologia fundamenta-se na idéia de preservação e que esta, por sua vez, tem a potencialidade de desencadear processos orientados para a construção da identidade. Constata-se, desta forma, que os museus (e/ou processos museais), assumindo primordialmente a função preservacionista, podem desempenhar um papel relevante nas sociedades, sejam eles museus tradicionais ou novos processos museológicos.

As definições sobre preservação são muitas e datadas, mas estão sempre relacionadas à sobrevivência dos grupos humanos. Quer seja pela identidade cultural do grupo, ou pela integridade dos seres vivos, quando reflete-se sobre preservação está-se analisando outras idéias como os atos de selecionar, guardar, manter, ou mesmo repetir e transmitir.

As reflexões anteriormente mencionadas estão sempre subordinadas ao universo patrimonial. Considerando que patrimônio é o conjunto dos bens identificados pelo homem, a partir de suas relações com o meio-ambiente e com outros homens, e a própria interpretação que ele faz dessas relações, observa-se, em um primeiro momento, que este universo é infinito. Em seguida, é facil constatar que os museus têm preservado uma pálida imagem (por meio de algumas coleções) do que realmente seria a nossa herança patrimonial.

Reside aí, então, o primeiro grande problema sobre a função preservacionista dos museus, e por consequência, também, uma questão para a organização mental do pensamento museológico, ou seja: a necessidade de amarrar com laços mais sólidos as relações entre o universo patrimonial e aquele que hoje é partilhado como herança cultural, e que será legado para o futuro.

Neste sentido, conceitualmente, a Museologia tem avançado nas últimas décadas. Basta citar as considerações sobre Patrimônio Comunitário[3] e Patrimônio Integral [4]  que têm apontado para as responsabilidades extra-muros dos museus, ou ainda a noção de Referência Patrimonial[5] assumindo o lugar das exauridas Coleções e, desta forma, possibilitando um futuro objetivo para a preservação da cultura material e espécimes da natureza.

Entretanto, é perceptível o desajuste entre esses avanços conceituais e a carência de métodos e técnicas capazes de orientar essas novas perspectivas. Assim, identifica-se o segundo problema relacionado ao tema: a urgência de estabelecer novos parâmetros para a formação profissional e reciclagem daqueles que já estão à frente dos processos museológicos.

Uma das possibilidades para a formação está em aceitar que a Museologia está ligada à “administração da memória” (Meneses, 1991) e, neste sentido, deve-se reconhecer que este gerenciamento pressupõe um novo trabalho cultural e educacional, que atribui ao patrimônio novos usos e novas significações. Portanto, os museus, estabelecidos tradicionalmente a partir de coleções, devem contar com profissionais aptos ao desempenho dessas tarefas, ou seja: compreender que o objeto é um suporte de informações e por isso ele deve ser preservado ao lado de outros meios de informação.

Assim sendo, as atividades básicas vinculadas à coleta, conservação, documentação, armazenamento, exposição, ação sócio-cultural e avaliação devem estar relacionadas a dois grandes blocos, a saber: salvaguarda e comunicação dos indicadores da memória. O desempenho desses dois blocos está vinculado a problemas éticos sobre o uso da herança patrimonial, às questões de como uma sociedade enfrenta e estabelece um diálogo com seus traços culturais - mesmo os museus sendo universais e, sobretudo, à compreensão da vocação educacional de todas as tarefas museais. Trata-se, portanto, da imposição e estabelecimento de critérios de gerenciamento da informação contida no universo de intervenção museal.

Julga-se que, dessa forma, “novos profissionais” poderiam aproximar os museus tradicionais dos novos modelos, pois a oposição nesse caso não é saudável nem para os museus nem para os profissionais. É fundamental, então, compreender que tanto as coleções sectárias e elitistas, quanto as vertentes do patrimônio integral são indicadores da memória e, de acordo com a linha de trabalho, podem servir para a “construção” e “releitura” sobre o passado e mesmo “ajustar” e “dinamizar” o presente.

Assim sendo, a formação mais adequada para esses novos desafios indica que este profissional tem que estar apto para prolongar a vida dos objetos, mas também para propiciar a releitura das idéias do presente, dando novas interpretações aos acontecimentos do passado. E isso é preservação (Lucena, 1991), isto é: instrumento para a organização mental dos princípios da Museologia e sua construção disciplinar.

A identificação e a delimitação da área de abrangência do pensamento e práticas museológicos, submetidos à problemática preservacionista, indicam a necessidade da convivência mental com as questões ligadas aos sinais, imagens e símbolos, ou seja: o reconhecimento, o tratamento e a extroversão dos sentidos e significados dos indicadores da memória. Adentra-se, portanto, nos campos da documentalidade e testemunhalidade dos segmentos patrimoniais que são alvo de musealização.

É importante reiterar que a, já clássica, definição de Fato Museal, elaborada por Waldisa Rússio Camargo Guarnieri (1990:7) deve ser abordada neste momento. Segundo a autora... “é a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à qual o Homem também pertence e sobre a qual tem o poder de agir, relação esta que se processa num cenário institucionalizado, o museu”.

Reconhece-se, entretanto, que a intervenção museológica corresponde a um contexto bem delimitado do universo patrimonial: aquele de onde emergem os objetos e os artefatos. Para tanto, a noção de preservação, como base estruturadora do pensamento museológico, é permeada pelos problemas ligados às “coisas” feitas ou transformadas pelo homem. E... “Objeto é tudo o que existe fora do Homem, aqui considerado um ser inacabado, um processo. Este ser inacabado, este processo condicionado pelo seu meio, capaz de criar, percebe o objeto existente fora de si; não só percebe, como lhe dá função, e lhe altera a forma ou a natureza, cria artefatos” (Guarnieri, 1990: 8 op cit). Como já foi apresentado, esta atitude humana tem sua sequência nos processos que levam às sociedades às ações de preservação. Neste sentido, cabe destacar que os objetos retêm as informações referentes aos sistemas sócio-culturais onde estão inseridos.

A Museologia se interessa, portanto, em administrar,  conservar e em organizar novas maneiras de informação, por meio da elaboração de discursos expositivos e estratégias pedagógicas.

Assim, fica evidente que as estruturas mentais que consolidam esta disciplina interagem com as idéias e conceitos preservacionistas de forma muito singular. Os processos de salvaguarda e comunicação, que são inerentes à musealização, particularizam o enfoque preservacionista da Museologia, dando-lhe caráter e dinâmica próprios.

Segundo Shanks e Tilley (1987), musealização é a elaboração de um sistema estético para criar significados. Esta definição verticaliza outro aspecto da disciplina museológica: este universo epistemológico é norteado pela noção de preservação, é organizado pelas características inerentes ao gerenciamento e administração da memória, mas trata, especificamente, da consolidação de um fenômeno de comunicação. Este, por sua vez, diz respeito à elaboração de experimentos e a sua construção teórica tem uma dependência efetiva da experimentação prática. Desta forma, surge outra característica da Museologia: a sua identidade de disciplina aplicada que tem a potencialidade, também, de criar valores e significados.

Os processos de musealização, vistos como o eixo central da construção desta área de conhecimento, por um lado, contribuem para a seleção, triagem, organização e conservação da documentalidade, testemunhalidade e autenticidade impressas nos objetos musealizados. Por outro lado, constroem novos valores e significados para estes objetos, por meio da elaboração de exposições e ação educativo-cultural. Neste momento, transparece não só a cumplicidade da Museologia com as áreas de conhecimento ligadas ao estudo dos bens patrimoniais, mas, sobretudo, a sua inerente submissão a questões ideológicas. Emerge, também, outro aspecto relevante à sua edificação disciplinar: junto aos postulados gerais e universais (Museologia Geral) impõe-se, com muita clareza, os problemas de ordem especial e particular (texto e contexto museológicos).

Vale ainda destacar outra característica dos processos de musealização que diz respeito a sua própria engrenagem. Como lembrou Guarnieri (1990: 8)... “Quando musealizamos objetos e artefatos (aqui incluídos os caminhos, as casas e as cidades, entre outros, e a paisagem com a qual o Homem se relaciona) com as preocupações de documentalidade e de fidelidade, procuramos passar informações à comunidade, ora, a informação pressupõe, conhecimento (emoção/razão), registro (sensação, imagem, idéia) e memória (sistematização de idéias e imagens e estabelecimento de ligações). E a partir dessa memória musealizada e recuperada que se encontra o registro e, daí, o conhecimento suscetível de informar a ação.”

Esta citação expõe, com bastante pertinência, a vulnerabilidade da delimitação científica do território museológico em relação às pressões ideológicas. Cabe frisar que nas perspectivas de estudos museológicos apontadas anteriormente por Peter Van Mensch nota-se duas grandes linhas de abordagens. Por um lado, as definições pragmático-institucionais cobrem todo o universo mental e, por outro lado, as preocupações prendem-se à compreensão das relações entre o homem e o objeto. Esta dicotomia de linhas de pensamento também demonstra que a Museologia vem sendo estruturada a partir de distintos sistemas de idéias.

Uma terceira ordem de problemas que tem aflorado nos últimos anos, a partir do fortalecimento das discussões ecológicas, registra que tratar os problemas vinculados à preservação significa respeitar o conceito da biodiversidade. Nesse caso, é impossível não perceber a incapacidade dos museus tradicionais em tratar esse novo conceito, uma vez que as instituições museológicas passaram este século preocupadas em determinar suas especialidades, em desmembrar suas coleções e em contribuir para a organização de uma tipologia de museus, constituída por tipos estanques.

Deve-se ressaltar, também, que o universo profissional vinculado aos museus valorizou, e muito, a cultura material, tornando a instituição museológica antropocêntrica. Portanto, não devem ser negligenciadas as dificuldades que os museus estão enfrentando em compatibilizar seus atuais perfis em relação ao seu caráter preservacionista.

Partindo-se da noção de preservação, tendo como foco de análise um fenômeno de comunicação que tem a possibilidade de construir e reconstruir as relações entre a sociedade e sua herança patrimonial, a Museologia vem organizando seu campo teórico, particularizando-o entre aqueles que orientam as disciplinas aplicadas, e testando-o por meio de inúmeras experimentações que ocorrem no âmbito dos museus tradicionais ou no âmago dos novos processos museais (Quadro 3).

Desta forma e, lentamente, esta área vem organizando a hierarquia de suas estruturas mentais, superando paradigmas e colocando-se frente a novos desafios. Assim, têm surgido questões inerentes aos limites e reciprocidades desta área com outras áreas científicas, como também movimentos de intelectuais que apontam para uma Nova Museologia.[6]

Considera-se que os fenômenos museais tradicionais correspondem aos museus estruturados institucionalmente, que atuam a partir de coleções constituídas e exercem sua função social por intermédio da sua produção científica e de suas formas de intervenção comunicacional e educacional. Já os novos processos que procuram interagir extra-muros voltam-se para as perspectivas do trabalho comunitário. Como afirma Maure (1994:85)... “Ces ‘nouvelle realisation' ont - quelles que soient les différences - trois éléments principaux en commun; elles accordent toutes une importance primordiale à: l'identité locale, la perspective écologique, et la participation de la population. C'est dans l'interaction entre ces trois éléments, dans un cadre museal, que réside la nouvauté et l'importance du mouvement”.

Trata-se de um alargamento considerável dos horizontes epistemológicos, dentro do mesmo universo de preocupações, impondo desta forma metodologias adequadas.

Em recente reunião de profissionais realizada em Petrópolis (Maio, 1995), no âmbito do I Encontro Nacional do ICOM-Brasil (International Council of Museums) foi elaborado um documento, no qual tive ativa participação, com as reflexões e propostas brasileiras, para ser apresentado na Conferência Geral do ICOM, em Stavanger, Noruega (Julho, 1995).

O grupo que discutiu as questões teóricas apresentou as seguintes conclusões:

“Grupo de Interesse sobre Museologia (ICOFOM)

As discussões do grupo tiveram como perspectiva a reflexão sobre aspectos teórico-metodológicos da Museologia (de acordo com os objetivos do ICOFOM), considerando inclusive as questões referentes à formação profissional nesta área. Como resultado dessas discussões o grupo propõe:

1) o reconhecimento da Museologia como disciplina aplicada, com a potencialidade de mediar as necessárias relações entre preservação e desenvolvimento; neste sentido a ação da Museologia caracteriza-se, singularmente, por sua capacidade de transformar o Patrimônio em Herança. Define-se Patrimônio como conjunto de bens fruto das relações do Homem com o meio ambiente e com os demais homens, assim como as interpretações dessas relações. Define-se a Herança como a consciência da existência desse Patrimônio, assumido enquanto conjunto de signos que permitem a identificação do indivíduo em relação a si mesmo e ao grupo a que pertence, no tempo e no espaço.

A preservação e o conhecimento do Patrimônio levam à constituição da Herança, como base da identidade das comunidades, e de seu desenvolvimento;

2) a necessidade, por parte da Museologia, de um profundo conhecimento dos segmentos da realidade social correspondente ao seu universo de aplicação;

3) a implementação de processos museais que identifiquem e reconheçam as comunidades de diferentes naturezas a que se destinam, e que procurem adequar as estratégias de ação, os procedimentos metodológicos e técnicas aplicados às peculiaridades destas diferentes comunidades. A avaliação permanente e sistemática desses processos deverá ser incorporada à musealização;

4) a garantia da participação das comunidades envolvidas em todas as etapas do processo museológico, considerando que a Museologia permite a transferência de seu conhecimento específico, de seus métodos e técnicas de atuação;

5) o reconhecimento do objeto central de estudo da museologia como um “fenômeno de comunicação”, construído a partir da articulação das múltiplas formas de relação entre o homem e o objeto em um cenário;

6) o respeito ao tempo inerente à construção dos fenômenos museais, determinado pelas singularidades das variáveis envolvidas nestes processos;

7) o reconhecimento de que as múltiplas possibilidades de aplicação de processos museológicos são meramente diferenças metodológicas, que só vêm a enriquecer a unidade da teoria museológica.

Propõe-se assim uma nova ação museológica, capaz de alterar a visão tradicional de museu, num país como o Brasil, no qual a identidade reside exatamente na diversidade cultural, considerando-se que o “corpus” teórico de uma disciplina modifica-se na sua relação dialética com a realidade.

Formação de Pessoal:

· Considerando estes pressupostos, propõe-se que, no Brasil, a formação de pessoal na área da Museologia busque a preparação de profissionais críticos e capazes de atuar como mediadores na relação Preservação e Desenvolvimento, conscientes de que esta ação de mediação contribui para a construção dos valores sociais e para a estruturação da herança cultural.

· Neste sentido, a formação dos profissionais de museus deverá incluir conhecimento e treinamento em três níveis:

1) a estrutura teórica, metodológica e técnica da Museologia;

2) o perfil patrimonial da realidade brasileira em sua diversidade, semelhanças e constrastes;

3) os recursos técnicos e os fundamentos teóricos da Comunicação, e de sua nova tecnologia.

Este tipo de formação visa capacitar a esses profissionais para uma ação social voltada para a educação integral; é indispensável assim reformular-se a estrutura curricular dos cursos de Museologia, promovendo a interdisciplinariedade e a interação entre as diferentes áreas. É igualmente importante que a Museologia faça parte de outras áreas acadêmicas, responsáveis pela formação de profissionais que venham a atuar em museus.”

Entretanto, ainda são tímidas as suas inserções no mundo acadêmico. Faltam, em especial, uma profusão maior de periódicos especializados, cursos de formação e encontros científicos.

Apesar das considerações elencadas, é possível apresentar um quadro referencial desta disciplina (Quadro 4), afirmar que seu eixo está apoiado na compreensão, realização e análise dos processos de musealização (Quadro 5), que a Museologia compõe com as Ciências Humanas um cenário multidisciplinar, com o objetivo de contribuir para a solução de uma problemática percebida na dinâmica socio-cultural.

BIBLIOGRAFIA CITADA

GUARNIERI, W.R.C. - Museu, Museologia, Museólogos e Formação. IN: Revista de Museologia. ano 1, nº 1. Instituto de Museologia  de São Paulo / FESP. São Paulo (1989)

_____, W.R.C. - Conceito de Cultura e sua Inter-relação com o Patrimônio Cultural e Preservação. IN: Cadernos Museológicos. IBPC, nº 3. Rio de Janeiro (1990)

LUCENA, C. - Linguagens da Memória. Apoio 6. Fundação para o desenvolvimento da Educação. São Paulo (1991)

MENESES, U.B. - A História. Cativa da Memória? Para um mapeamento da memória no campo das ciências sociais. IN: Revista do IEB/SP, nº 34. São Paulo (1991)

POMIAN, K. - Coleção. Enciclopédia Einaudi/Memória-História 1. Imp. Nac. Casa da Moeda. Porto (1984)

SHANKS, M. & TILLEY, C. - Presenting the past: towards a redemptive aesthetic for the museum. IN: Reconstructing Archaeology: theory and pratice. Cambridge University Press. Cambridge (1987)

 

[1] FREIRE, P. - “Pedagogia da Esperança - Um reencontro com a Pedagogia do Oprimido”- Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1992.

([2]) International Council of Museum/ UNESCO

([3]) Entende-se por Patrimônio Comunitário o conjunto de bens partilhado por um grupo de pessoas em um espaço delimitado e ao longo do tempo, cuja preservação é importante para a identidade cultural do grupo.

([4]) Entende-se por Patrimônio Integral o conjunto de bens que deve ser preservado para a identidade e integridade dos seres vivos.

([5]) Referência Patrimonial: elemento extraído do universo patrimonial, significativo em relação a um conjunto maior, e que sua preservação pode representar o universo referido.

([6]) Movimento definido durante a realização do “Ateliê Internacional Ecomuseus/Nova Museologia”, em Quebec-Canadá (outubro de 1984)

Obs.: este texto, com algumas alterações, faz parte da tese de doutoramento “Musealização da Arqueologia: um estudo de Modelos para o Projeto Paranapanema” (1995)

 

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OS PROCESSOS MUSEAIS E AS QUESTÕES METODOLÓGICAS: O MUSEU DA CIDADE DE PIRAJU COMO ESTUDO DE CASO Cadernos de Sociomuseologia Nº9- Museologia e comunicação. Cristina Bruno. 1996. ULHT

Apresentação:

“...os homens constroem os templos para seus deuses, as fortalezas dos soldados, os palácios para seus reis, destinam parques às suas vitórias, constroem casas para sua família, zoológico para seus animais, os museus para seu patrimônio cultural”

Giraudy & Bouilhet (1977)

Em diversos países os grandes museus vêm modificando sua política cultural, repensando-se conceitualmente, sofrendo reformas quanto ao espaço arquitetônico e apresentação das coleções; como também os pequenos museus vêm experimentando novas estratégias para a aproximação com a população, procurando sustentar-se em uma atuação comunitária. Esses esforços, de natureza diferente, procuram fazer com que os museus superem o aspecto de "depósitos de objetos" e passem a servir à população.

Entre esses novos tipos de museus, surge o "Museu de Cidade", voltado para a preservação das estruturas, das referências e das formas de uma cidade. Esse modelo museológico procura ser o "local" privilegiado para a população encontrar as suas marcas patrimoniais e conhecer as suas tradições e rupturas culturais. É um museu para a população se ver, como também ser vista por pessoas de outras regiões. Em geral, reúnem vestígios do processo de urbanização, dos ciclos econômicos que sustentaram a consolidação da cidade, das famílias que formaram a população, entre outros referenciais. Preservam um patrimônio que possa garantir a identidade do espaço circunscrito de uma cidade e a vivência cultural partilhada por sua população.

Tanto quanto os outros tipos, os museus de cidade também devem desempenhar três funções fundamentais (Bruno, 1990:8 e 9):

"- Função Educativa: é a força importante das atividades museológicas e acarreta o desenvolvimento e aperfeiçoamento da capacidade intelectual, cultural, artística, ideológica, perceptiva e afetiva. Como afirma Léon (1978: 306) - "trata-se de dispor a mente e a sensibilidade do visitante para o encontro com as civilizações passadas ou atuais que possibilite uma via de reflexão profunda sobre si mesmo". Sob este aspecto, o museu deve oferecer uma educação objetiva e também subjetiva, renunciando às implicações doutrinárias e propiciando em cada espectador faculdades específicas, tais como: fantasias, curiosidades e ligações com a realidade. Por isso, é fundamental que as crianças aprendam desde muito cedo a conviverem com os objetos, exposições e museus. O Museu deve oferecer à criança situações que levem à reflexão, ao desenvolvimento do raciocínio, pois só assim estará contribuindo para a Educação Libertadora, que é aquela que, consciente e concretamente questiona a realidade do indivíduo, do outro e do mundo que os cerca, levando-os às transformações;

- Função Científica: deve estar presente no interior e exterior do museu. No interior, enquanto as exposições representam o desfecho de um trabalho iniciado com a coleta sistemática do material, sua posterior catalogação e análise. Ao mesmo tempo, o museu deve atuar exteriormente, através das exposições e também de suas atividades paralelas (discussões, cursos, publicações, etc), como propulsor na procura do conhecimento, próprio a uma instituição científica;

- Função Social: a mais importante de todas, uma vez que ela representa o encontro das duas anteriores e também o resultado de ambas, pois somente através do pensamento científico, o museu poderá contribuir para a educação e desempenhar papel significativo em uma sociedade".

Para o desempenho dessas funções, esta proposta apresenta algumas diretrizes museológicas básicas para a atuação do Museu da Cidade de Piraju, a partir das considerações já enunciadas por Morais (1992:27 e 28), quando aponta que "Piraju será considerada um espaço produtor de relações sociais (o tecido urbano, as edificações, as praças e demais espaços de vivência)... Assim, optar-se-á pela musealização da cidade: Piraju e suas instituições serão consideradas espaços possíveis de intervenções culturais".

Desta forma, o texto apresentado a seguir evidencia os aspectos conceituais e as propostas metodológicas deste modelo de musealização que vem sendo implementado desde 1993, na cidade de Piraju, Estado de São Paulo.

 

1ª Parte: Conceito Museológico:  a musealização da cidade.

O desenvolvimento das atividades deste Museu partirá da idéia de que a cidade é um espaço de construção coletiva, ao longo de um tempo permeado por relações sociais cotidianas, ligadas ao trabalho, lazer, família e devoção. Este binômio espaço-tempo é sustentado pelas características ambientais do território, da mesma forma que é vulnerável às influências de agentes externos.

1) O Patrimônio da Cidade:

O conjunto dos bens identificados por uma coletividade será o objeto central da atuação deste modelo museológico. Conforme aponta Lucena (1991:10), "a expressão patrimônio cultural se aplica às coisas que cada grupo preserva, porque nelas estão a sua sobrevivência. A noção de patrimônio engloba objetos, técnicas, espaços, edificações, crenças, rituais, instrumentos, costumes, explicitados no cotidiano das pessoas".

Esses bens são definidos a partir da importância que possam ter no cotidiano da população. Cabe ao museu colaborar na identificação, estudo, conservação e comunicação das referências patrimoniais, sempre levando em consideração a sua relevância para as comunidades envolvidas que, por sua vez, podem ser constituídas de diferentes segmentos da população.

2) As Pessoas da Cidade:

A atuação deste museu deve estar voltada para a identificação das expectativas das diferentes comunidades de uma cidade, procurando compreender os mecanismos de aproximação das pessoas e os respectivos envolvimentos comunitários, que muitas vezes podem estar vinculados à faixa-etária, tipo de trabalho, poder aquisitivo, lazer, interesses políticos,  prática religiosa, etc.

Deve-se entender que a comunidade de uma cidade não é homogênea, pois é constituída de classes e setores, tais como trabalhadores (campo e cidade), como também existem atritos entre os diferentes segmentos (integrados e marginalizados).

Entretanto, as pessoas de uma cidade são as reais construtoras de uma memória coletiva e devem ser consideradas como agentes neste processo museológico.

Cabe ao museu, a partir de um trabalho sistemático, encontrar os elos de união entre as pessoas (que as tornam Pirajuenses) e, também, identificar as fissuras internas, valorizando a diversidade nos usos e costumes.

Um museu de cidade deve servir de opção para quem quer conhecer outros aspectos da população, ao lado da sua própria imagem, como também outros caminhos do seu território, diferentes das suas próprias trilhas.

3) Os Espaços da Cidade:

É fundamental que um Museu de Cidade estenda sua atuação para toda a área de intervenção de uma população, compreendendo as mudanças sócio-econômicas que vão dando diferentes contornos ao centro e à periferia.

Este processo museológico tem como características básicas a descentralização espacial, o respeito aos espaços culturais já institucionalizados e a revalorização de locais marginalizados. Sempre atuando dentro deste tênue limite existente entre preservação e desenvolvimento.

A partir das considerações conceituais apresentadas, o Museu da Cidade de Piraju atuará através da musealização de diferentes espaços, procurando atingir os diversos segmentos da população, na busca da valorização de três aspectos, a saber:

a) o território de Piraju: o equilíbrio ambiental.

b) o ser pirajuense: o perfil da população.

c) os signos de Piraju: as referências patrimoniais.

 

2ª Parte: Metodologia de Trabalho:
a pedagogia museológica.

A metodologia para esse tipo de museu deve seguir dois princípios básicos: por um lado, valorizar as intituições culturais já existentes e, por outro lado, estabelecer um processo que conte, fundamentalmente, com a participação da população.

Para tanto, o Museu da Cidade de Piraju está apoiado em duas grandes estruturas, a saber:

a) Banco de Dados sobre a Cidade

b) Núcleos Museológicos Temáticos

1) Banco de Dados sobre a Cidade.

Este projeto está voltado para a organização e armazenamento de informações sobre a cidade. Começando pela informatização dos signos urbanos construídos (monumentos, edifícios, praças), passando para os elementos ambientais da região e terminando pelas coleções já existentes nas diferentes instituições. Deve ser armazenada, também, a memória ligada às festas populares e outras manifestações culturais.Em seguida, este projeto deve servir como suporte para a atuação dos núcleos museológicos.

Seu desenvolvimento depende do cumprimento de algumas etapas preliminares, tais como: levantamento bibliográfico, realização de planilhas, elaboração de programa adequado para esse tipo de informatização, identificação dos primeiros itens a serem documentados.

Cabe ressaltar que é fundamental a parceria com as instituições culturais, como também com empresas que possam sustentar financeiramente o projeto.

A sede central do Projeto Banco de Dados pode ser instalada nas antigas dependências do Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas Mario Neme, ficando próxima à Biblioteca e Arquivo da cidade.

2) Núcleos Museológicos Temáticos:

Com o objetivo de desencadear o processo museológico, esta proposta apresenta quatro sugestões temáticas para dar início ao desenvolvimento do Museu da Cidade de Piraju, a saber:

a) Arqueologia Regional: os vestígios do passado.

b) Rio Paranapanema: a alma da cidade.

c) Tradição e Progresso: o café e a evolução da cidade.

d) Famílias: as pessoas de Piraju.

Para cada um dos núcleos está previsto um processo de trabalho, um espaço de intervenção e um tipo de articulação junto aos diferentes segmentos da população.

A união entre os diversos núcleos deve ocorrer através da aplicação de projetos pedagógicos voltados ao público infanto-juvenil.

2.1) Núcleo Museológico A:

"Arqueologia Regional: os vestígios do passado".

Trata-se da reorganização do Centro Regional de Pesquisas Arqueológicas Mário Neme, que reúne o acervo proveniente das pesquisas do Projeto Paranapanema.

Este núcleo deve atuar a partir de três bases: reserva técnica do acervo aberta ao público, exposições temporárias sobre as pesquisas em realização, vinculadas à mostra de longa duração e serviço educativo apoiado em arqueologia experimental.

A sua sede central deve permitir o desenvolvimento das atividades mencionadas, da mesma forma, ser uma referência cultural para os interessados em Arqueologia.

2.1.1) Sede:

O Galpão da Estação Ferroviária deve servir como sede para este núcleo, a partir de uma reforma e adaptação arquitetônica para o novo uso. Neste edifício devem funcionar as seguintes atividades:

Sala 1:

Exposição de Longa Duração:

a) Processo de Hominização.

b) Passagem do Homem para a América.

c) O Homem no Vale do Rio Paranapanema.

d) Métodos e Técnicas do Trabalho Arqueológico.

Sala 2:

Exposição biográfica sobre Mario Neme e Luciana Palestrini:

a) Mário Neme: cronologia de uma vida.

b) Luciana Palestrini: uma vida dedicada à arqueologia.

Sala 3:

Exposições Temporárias sobre os diversos programas de pesquisa arqueológica que fazem parte do Projeto Paranapanema.

Sala 4:

Espaço dedicado à guarda do acervo em armários de aço (com mezanino), sendo que uma das laterais é transformada em vitrina para o público ter acesso, também, às coleções. Estes armários devem ficar próximos à uma área destinada ao estudo e organização do acervo.

Sala 5:

Área destinada aos trabalhos públicos, como projeção de vídeo, atividades educativas, conferências, etc.

Este núcleo, de alguma forma, já é uma realidade em Piraju, em função da importância da atuação do Centro Regional Mário Neme. Nesse sentido, sua implantação está vinculada a duas questões: por um lado, à adequada preparação do espaço (Galpão da Estação Ferroviária) e, por outro lado, às estratégias pedagógicas que devem vinculá-lo aos sítios arqueológicos, ao cotidiano da cidade e às atividades dos outros núcleos.

Para tanto, este núcleo deve contar com as seguintes linhas de atuação:

a) visitas monitoradas às exposições, seguidas de atividades educativas vinculadas à Arqueologia Experimental (em especial para o público infanto-junvenil);

b) visitas aos sítios arqueológicos da região, em especial durante etapas de escavações (programas turísticos);

c) organização de seminários, sessões de vídeos e debates sobre arqueologia;

d) realização periódica de cursos, para o público infanto-juvenil, sobre arqueologia, e

e) preparação de professores para o acompanhamento das atividades deste núcleo.

2.1.2) Processo de Trabalho:

a) - reforma do Galpão da Estação Ferroviária.

- detalhamento museográfico do projeto do mobiliário para a reserva técnica,  uma vez que parcela substancial das instalações depende de móveis, divisórias e portas especialmente planejadas.

- preparação do circuito entre os sítios arqueológicos.

b) - elaboração de proposta para organização, guarda das coleções e realização dos respectivos estudos, como também, apresentação expositiva. Encaminha­men­­to desta proposta às agências financiadoras, visando a contratação dos profissionais para o estudo, catalogação e possível publicação de um catálogo do Projeto Paranapanema.

- montagem das exposições.

- início das atividades pedagógicas

c) - abertura integral do núcleo - inserção das visitas aos sítios arqueológicos em programas turísticos.

A provável realização de escavações arqueológicas no espaço urbano, próximo a este núcleo, sob a coordenação de Margarida Andreatta, dará realce especial à dinâmica das atividades pedagógicas e turísticas, podendo vincular-se à estratégia museológica para consolidação do Museu da Cidade.


 

2.2) Núcleo Museológico B:

"Rio Paranapanema: a alma da cidade”.

Este núcleo terá sua atuação voltada para as questões ambientais, utilizando o Rio Paranapanema como eixo temático, em função de sua importância para a cidade. Partindo da idéia de que este rio ocupa espaço significativo na construção da memória de Piraju, considera-se fundamental fomentar processos participatórios em que a população possa expor a "imagem" que tem do Rio Paranapanema.

Para tanto, o Museu da Cidade deve desencadear duas linhas de atuação para consolidação desse núcleo, a saber:

a) estudo e organização da documentação existente, com apoio de entidades ambientalistas e acadêmicas.

b) desencadear campanha pública, com apoio da imprensa (jornal, rádio), com o tema "Mostre o Rio que voce vê", com o objetivo de levantar as diferentes imagens que a população foi guardando sobre o rio. Neste processo, documentos em diferentes suportes (fotos, desenhos, textos, etc) podem surgir e, após a devida catalogação devem ser expostos em local próximo ao rio e, em seguida, percorrer as escolas da cidade (a partir do empréstimo dos documentos).

A implantação desse núcleo deve amparar as contradições normalmente existentes entre a preservação, uso e transformação das referências ambientais. Por um lado, este núcleo pode contribuir para uma pedagogia da apropriação, ou seja: chamar a atenção para o equilíbrio ecológico e a necessidade de conter a devastação da natureza.

Sem uma sede específica, sua atuação deve consolidar-se junto aos espaços abertos (praças, nichos ecológicos, rio, etc), como também nas escolas através de oficinas de reciclagem de papel, maletas pedagógicas sobre questões ambientais, adoção de áreas verdes através de campanhas, entre outras atividades.

A estratégia adotada, focalizando o Rio Paranapanema, pode ser repetida sistematicamente através da valorização de outros elementos, como o inventário de áreas verdes e a reorganização do viveiro de plantas.

O desenvolvimento desse núcleo deve visar a formação da população infanto-juvenil, contribuir para a implantação de programas turísticos não predatórios e colaborar para a elaboração do Código Ambiental do Município de Piraju.

2.3) Núcleo Museológico C:

"Tradição e Progresso: o café e a evolução da cidade"

O café é uma referência básica para a organização e desenvolvimento de Piraju como cidade, como também de sua projeção no cenário estadual e nacional. Representa, no que diz respeito ao universo patrimonial, a linha divisória entre a tradição (preservação das referências ligadas ao período áureo) e progresso (opção por novos caminhos econômicos).

O café será utilizado como símbolo para que este núcleo possa musealizar a força do trabalho que tem consolidado as estruturas sócio-culturais de Piraju.

A partir da memória construída em função do café, o desenvolvimento deste núcleo abordará outras questões, tais como: pecuária, comércio, indústria, etc.

Este núcleo deve atuar por meio de cinco bases: sede central com mostras de longa duração e reserva técnica do acervo; inventário dos signos urbanos (casas, monumentos, ruas) ligados ao desenvolvimento da cidade; organização de circuitos para visita; exposições itinerantes com temas ligados à história sócio-econômica de Piraju, para serem montadas em escolas, empresas, indústrias, clubes e projetos pedagógicos apoiados na Educação Patrimonial.

2.3.1) Sede:

A Estação Ferroviária deve servir como sede básica depois que passar pelas devidas reformas, que compreendem a restauração do edifício e a adequação da arquitetura interna para poder receber a instalação de uma instituição que abrigará acervo (de tipologia diferenciada) e estará aberta à visitação.

Este edifício dividido em dois pavimentos deve reservar o andar superior para as atividades burocráticas e técnicas, como também para palestras e projeção de vídeos. No andar térreo, a divisão deve ser a seguinte:

Sala 1:

Exposição de Longa Duração

a) O Povoamento da Região

b) São Sebastião do Tijuco Preto: as terras dão o contorno à cidade

c) Piraju: o desenvolvimento da cidade

d) O Café: cultivo e tecnologia

e) Piraju: perfil econômico

Sala 2:

Exposição Temporária

"As Ruas e Praças da Cidade"

Espaço destinado à apresentação de mostras biográficas sobre personalidades que deram nomes às ruas e praças, a partir do desenvolvimento dos estudos vinculados ao Banco de Dados e do empréstimo dos objetos junto às famílias.

Sala 3:

Exposição Temporária

Espaço destinado a mostras temporárias que, em seguida, devem se transformar em itinerantes, enfocando a pecuária, a indústria e o comércio.

Sala 4:

Reserva Técnica: deve ser preparado um espaço para abrigar coleções, mesmo que temporariamente, e proceder o devido tratamento museológico.

A implantação do núcleo Tradição e Progresso deve ser acompanhada de uma estratégia pedagógica apoiada nos princípios da Educação Patrimonial, ou seja: priorizar a referência do patrimônio como evidência material de um processo cultural que deve ser vivenciado pelo público, em especial o infanto-juvenil em sua formação educacional. Significa que a história da cidade deve ser conhecida pela população a partir da convivência com os signos urbanos, da familiaridade com os objetos musealizados e da participação em reconstituições de fatos relevantes da história local.

2.3.2) Processo de Trabalho:

a) - restauração e adaptação da sede, a partir da elaboração de projeto específico para esse fim, que deve ser encaminhado para empresas locais, com o objetivo de obter o financiamento das obras. Este projeto deve dar início a um longo processo de parceria entre o Museu da Cidade e os representantes dos principais setores econômicos de Piraju, uma vez que a atuação deste núcleo está voltada para a musealização desta realidade.

b) - detalhamento do projeto museográfico para a montagem das mostras acima mencionadas;

- preparação dos circuitos de visita  aos principais pontos históricos da cidade e a respectiva inserção em programas turísticos.

c)  após a instalação da estrutura básica na sede central, este núcleo deve desencadear um processo de sensibilização da população em relação à sua área de atuação. Para tanto, deve estabelecer uma "gincana cultural" sobre a memória do café, com o objetivo de inventariar os bens patrimoniais. Com o apoio da imprensa (jornal e rádio) esta gincana deve contar com a participação de professores que possam colaborar na catalogação dos objetos recuperados pelos participantes, como também gravar informações sobre os respectivos donos. O material coletado deve fazer parte de mostra temporária, como estímulo à preservação patrimonial.

d)  todo esse processo deve estar permeado por projetos educativos, vocacionados para a observação, fruição e, questionamento das evidências patrimoniais ligadas à história local.

A mesma estratégia ligada à musealização da "Memória do Café - vinculada à força do trabalho" pode ser utilizada para o tratamento de outros elementos sobre a cidade de Piraju, sempre relacionados à abordagem dos limites e reciprocidades entre tradição e progresso.

2.4) Núcleo Museológico D:

"Famílias: as pessoas de Piraju"

Procurando conhecer o cotidiano das diferentes famílias, a partir da consideração de que a família é uma célula fundamental na dinâmica de uma cidade, este núcleo pretende levantar junto à população, a história das famílias, os usos e costumes, as opções quanto ao lazer e devoção, entre outros aspectos.

A implantação deste núcleo, em um primeiro momento, deve contar com o apoio dos professores para a aplicação de questionários junto aos alunos. Utilizado como instrumento de investigação, devidamente preparado (perguntas estimulantes acompanhadas por imagens) e analisado, o questionário passa a desempenhar um papel chave para o levantamento do perfil da população. Em um segundo momento, este perfil deve apontar aspectos a serem musealizados, a partir do tratamento de temas de relevância para a população. Através de exposições, esses temas podem ser abordados periodicamente e devidamente desdobrados em atividades pedagógicas.

Considerações Finais

O êxito de um Museu de Cidade está ligado às possibilidades de participação coletiva que seus projetos permitem, ao mesmo tempo em que deve estar consolidado no exercício sistemático da cidadania.

Um museu deste tipo deve consolidar-se em uma dinâmica museológica que não desenvolva suas atividades isoladamente. Ao contrário, deve envolver-se com as questões da cidade e tratá-las como Fatos Museais.

É fundamental considerar que este projeto necessita de um tempo razoável para sua implantação e amadurecimento, como também depende de uma gestão partilhada com os diferentes segmentos da sociedade.

Como tem ocorrido em outros locais, os Museus de Cidade partem da identificação de temas relevantes e das lideranças capazes de desencadearem o Processo Museológico.

 

Esquema  Metodológico


 

BIBLIOGRAFIA CITADA

 

BRUNO, M.C. - Museu do Estado de Mato Grosso do Sul - proposta Museológica - encaminhada à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (199l)

 

GIRAUDY, D. & Bouilhet, H. - Le Musée et la vie. La Documentation Francaise, Paris (1977)

 

BRUNO, M.C. - Proposta Museológica - Museu do Estado de mato Grosso do Sul, São Paulo (1990

 

LÉON, A - El Museo: teoria, praxis e utopia. Ediciones Cátedra, S.ª, Madrid (1978)

 

Lucena, C. - Linguagens da Memória in Apoio, nº 6, FDE, São Paulo (1991

 

MORAIS, J.L. - Secretaria Municipal de Cultura e Meio Ambiente - Plano de Reforma e Gestão - Piraju/SP (1992)Obs.: este projeto museológico foi apresentado como um dos “modelos de musealização”, aplicados à realidade brasileira, com o objetivo de vincular os vestígios pré-coloniais no âmbito de um Museu de Cidade.

 

 Voltar Textos C.Bruno

 


 

FORMAS DE HUMANIDADE CONCEPÇÃO E DESAFIOS DA MUSEALIZAÇÃO

Apresentação: o discurso expositivo como um dos produtos do processo de musealização.

Cadernos de Sociomuseologia Nº9- Museologia e comunicação. Cristina Bruno. 1996. ULHT       

 

No dia 12 de dezembro de 1995 o Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo abriu à visitação pública a exposição de longa duração “Formas de Humanidade”.

Com este evento inaugural, o MAE estabeleceu a plataforma básica de sua proposta de divulgação científico-cultural, rearticulou o seu contato direto com  o público por meio museológico e apresentou a sua nova face de responsabilidade patrimonial uma vez que esta face vem sendo delineada desde 1989, a partir da emissão da Portaria nº 2073 que fundiu algumas unidades da USP ou partes delas, criando o novo Museu de Arqueologia e Etnologia.

Com esta exposição a instituição pretende divulgar as várias formas que a humanidade vem dando, ao longo do tempo, às diferentes matérias-primas e às manifestações sócio-culturais. Cabe ressaltar que este discurso expositivo tem caráter sintético e panorâmico e está apoiado, prioritariamente, na evidência material da cultura. Da mesma forma, deve ser sublinhado que os temas decorrentes da proposta temática central foram escolhidos a partir da potencialidade do acervo institucional. Este acervo, por sua vez, corresponde às coleções arqueológicas e etnográficas brasileiras, etnográficas da África e arqueológicas do Mediterrâneo e Médio-Oriente. Embora o MAE ainda guarde outras coleções, distintas às que fazem parte desta mostra.

Assim, após cinco anos de discussões, elaborações, constituição de comissões, estabelecimento de distintos processos de trabalho, aproximações sistemáticas entre docentes e técnicos, contratações, entre tantos outros procedimentos, é possível afirmar que esta exposição — que também deve ser encarada como um produto visível de um processo de musealização — apresenta a seguinte divisão:


 

Setor A: Brasil Indígena

- módulo 1: Origens e Expansão das Sociedades Indígenas

- módulo 2: Manifestações Sócio-Culturais Indígenas

Setor B: África: culturas e sociedades

Setor C: Mediterrâneo e Médio-Oriente na Antiguidade

- módulo 1: Pré-História Européia

- módulo 2: Egito

- módulo 3: Mesopotâmia

- módulo 4: Grécia e Roma

Esta breve apresentação poderia ser considerada como a descrição de um produto com características expositivas. Entretanto, apresentar este produto, no âmbito de um processo de musealização, torna esta questão infinitamente mais complexa.

Tentarei tratar, então, dos aspectos constitutivos deste processo e da natureza dos procedimentos inerentes à construção de um discurso expositivo, passando pelos bastidores deste trabalho e colocando alguns caminhos prospectivos que, a partir de agora, emergem da exposição.

Preliminarmente, considero fundamental apresentar os conceitos, a partir dos quais, venho elaborando a idéia de musealização.

Por musealização entendo o processo constituído por um conjunto de fatores e diversos procedimentos que possibilitam que parcelas do patrimônio cultural se transformem em herança, na medida em que são alvo de preservação e comunicação.

Segundo Shanks e Tilley (1987), “musealização é a elaboração de um sistema estético para criar significados”. Esta elaboração, por sua vez, é fundamental para a consolidação da Museologia, mas diz respeito, também, a outras áreas de conhecimento, na medida em que a proposição deste “sistema estético musealizado” representa não só a convivência mental com as questões ligadas aos sinais, imagens e símbolos, mas, sobretudo a implementação de procedimentos adequados ao reconhecimento, tratamento e extroversão dos sentidos e significados dos indicadores da memória. Neste sentido, adentra-se por um lado, nos campos da documentalidade dos segmentos patrimoniais que são alvo de musealização, por outro lado, não deve ser negligenciado os campos da fruição, apropriação, educação e transformação.

Cabe salientar que o encontro desse dois campos indica e delimita o tênue território que alguns reconhecem como o núcleo do universo de musealização. Deste universo, evidentemente, fazem parte fatores históricos (ligados às coleções, às áreas de conhecimento e ao próprio museu), e as reais possibilidades de implantação de procedimentos curatoriais adequados à preservação e comunicação (questões técnicas).

Nesta vasta área que consagra a importância dos museus e reitera a sua função social, a Museologia se interessa, especialmente, em administrar e conservar a informação contida nos objetos (que sempre é decodificada por outra área de conhecimento) e também em organizar novas maneiras de informação, por meio da elaboração de discursos expositivos e estratégias pedagógicas.

É importante frisar que a relevância dos museus na contemporaneidade extrapola, e muito, o universo de interesse da Museologia. Basta lembrar das pesquisas básicas, das publicações, da existência de bibliotecas, do ensino, entre muitos outros aspectos.

A partir dessas considerações, o discurso expositivo “Formas de Humanidade”, entendido como um importante produto do processo de musealização que está sob a responsabilidade do MAE, traz uma historicidade bastante particular e características museográficas interessantes para serem analisadas.

Primeira Parte: Coleções Arqueológicas e Etnográficas como a alma do processo de musealização: o passado condena ou redime?

Como foi explicitado anteriormente, esta exposição é constituída a partir da articulação de coleções provenientes dos olhares da Arqueologia e Etnologia. Estes, de uma forma geral, têm uma histórica cumplicidade com o colecionismo e com os museus.

Independente das características do MAE, que serão abordadas mais à frente, essas coleções merecem alguns comentários. Talvez fosse pertinente colocar algumas indagações.

A Arqueologia e Etnologia que têm sido responsáveis pela evidenciação e explicação de tantas características das sociedades, como têm influenciado para que o patrimônio cultural se transforme em herança?

Estas mesmas áreas de conhecimento, que tanto devem aos museus, como têm contribuído para que estas instituições enfrentem os questionamentos contemporâneos?

Um rápido levantamento bibliográfico nos informa que a história do colecionismo e dos museus têm elementos tão marcantes que até hoje ainda determinam o perfil dos processos de musealização.

Este assunto, para os profissionais de Museologia, é sempre um tema candente e revelador. É fundamental conhecer e entender as idéias e mentalidades subjacentes à realidade das “Reservas Técnicas”, dos “Laboratórios de Pesquisa” e dos “Depósitos”, ou seja: porque e como estes objetos estão nos museus.

Muito pode ser dito. Entretanto, neste momento devem ser lembrados alguns aspectos fundamentais.

De acordo com alguns autores, é possível perceber que o colecionismo e todos os seus derivados sócio-culturais, pertencem intrinsecamente às estruturas de longa duração, no que diz respeito à história das idéias e mentalidades dos homens desde o Renascimento.

Neste sentido, deve ser enfatizado que a coleção e por conseqüência o colecionismo, ao longo do tempo, demonstram sempre duas faces ligadas aos homens e às sociedades. Por um lado, a guarda, a valorização, a apropriação desenfreada dos objetos têm demonstrado a necessidade dos homens de transporem a sua própria finitude e, portanto, expõem a vulnerabilidade humana frente ao desconhecido, ao passado e ao inatingível. Por outro lado, esses mesmos objetos e coleções podem ser interpretados como fortes elementos de ostentação, de poder, de traição, de roubo, entre tantos outros aspectos que sempre evidenciam a necessidade dos homens e das sociedades de demonstrarem a sua onipotência.

Assim, a grande e mais forte herança que o colecionismo gerou está relacionada ao conceito de posse. A posse material e espiritual, o domínio não só das coisas, mas o poder em transformá-las em símbolos. Um poder pouco partilhado e que quando o era, tinha a real função de demonstrar ostentação.

É possível afirmar que todo o esforço das instituições museológicas, desde o século passado, tem sido orientado no sentido de possibilitar a apropriação mais ampla dos objetos e coleções. Entretanto, os caminhos e as razões que levam estes mesmos objetos aos museus, ainda hoje, estão impregnados de conjunturas complexas e não muito claras.

A partir do exposto, é possível considerar que o processo de musealização, carrega, implicitamente, uma contradição, ou seja: os olhares seletivos que são responsáveis pela preservação patrimonial (tanto o olhar do poder econômico, quanto o do poder acadêmico) são impulsionados por uma realidade muito distinta daquela que emerge a partir de um fenômeno de comunicação.

Pessoalmente, prefiro considerar que o processo de musealização tem potencialidade de conciliar estas duas vertentes, a partir da compreensão de que elas existem. Para tanto, seria necessário que as instituições tentassem articular e controlar três grandes níveis de sua organização:

- Planejamento Institucional (planejamento estratégico)

- Gerenciamento da Informação (conservação e documentação)

- Comunicação Museológica (exposição e ação educativa)

“Formas de Humanidade” é uma exposição que, por um lado, traz a complexidade do perfil patrimonial captado por intermédio da Arqueologia e Etnologia e, por outro lado, nasceu em uma conjuntura institucional — igualmente complexa — que ainda não equacionou as três questões básicas apresentadas anteriormente.

Neste sentido, revisitando as idéias de Pomian (1984) é possível afirmar que o acervo que representa a alma desta exposição é proveniente de uma visão tradicional de museu. Assim, temos coleções que são legítimas representantes dos museus arqueológico-artísticos (MMO ‑ Mediterrâneo e Médio Oriente), ou também dos museus arqueológico-tecnológicos (Pré-História), da mesma forma existem as coleções etnográficas oriundas de uma coleta exaustiva - peculiar ao primeiro quartel deste século, ou mesmo objetos esparsos provenientes de coleções particulares.

É evidente que essas características induziram diferentes aproximações científicas, configuradas nas distintas identificações das próprias coleções que, via de regra, estão atreladas às diferenciadas estruturas mentais das antigas instituições que deram origem ao novo MAE.

Com isso quero afirmar que a alma desta exposição carrega conflitos inerentes à natureza e história das próprias coleções, que são somados aos conflitos evidentes da nossa conjuntura institucional.

Se é verdade afirmar que a fusão, além de criar uma nova instituição, foi responsável pelo rompimento com antigas tradições profissionais, é evidente que esta análise atinge, também, as exposições que foram produzidas até 1989. Um levantamento na documentação que foi possível guardar nos mostra o quanto estas tradições eram diferentes entre si.

A partir da constatação desses conflitos de alma e consciente de que uma proposta de comunicação museológica - dentro de uma visão contemporânea de museu - tem a potencialidade e a necessidade de propiciar a superação de certas características que podem ser prejudiciais a uma instituição moderna e eficiente, a proposta museológica de “Formas de Humanidade”, arriscou, transgrediu, e transformou. Por isso a sua elaboração foi longa, tortuosa e terminou deixando a sensação de que poderíamos ter ido mais longe.

A forma desta proposta (ou o partido museográfico) tentou minimizar esses conflitos e distâncias, mas, desde o início, foi marcada e delimitada pelo espaço disponível e pelas condições logísticas (da verba à equipe técnica).

Assim, a proposta museológica desta primeira exposição conjunta (é possível arriscar e afirmar que este é o primeiro produto coletivo do novo MAE) aborda temas ligados às diferentes formas de manifestação e organização sócio-cultural representadas pelas coleções da instituição.

Neste sentido, as linhas de pesquisa e os enfoques dos inúmeros projetos científicos do MAE, estão subliminarmente inseridos na elaboração desta exposição.

“Formas de Humanidade” tem como proposta temática a apresentação de um perfil sintético das sociedades que produziram as expressões materiais, que hoje estão reunidas no acervo da instituição. As diferentes formas de subsistência e organização econômica, as conquistas tecnológicas que norteiam a elaboração e transformação dos artefatos, as formas de celebrações sociais que marcam e diferenciam o cotidiano dos grupos humanos, as distintas formas de representação e de apropriação da natureza, estão na gênese da construção deste discurso expositivo; ao lado das expressões artísticas e ritualísticas.

As preocupações que conduziram as discussões conceituais e a concepção museológico-museográfica desta exposição procuraram superar, sobretudo, as lacunas provenientes da nossa conjuntura institucional - especialmente registradas na constituição do acervo e na orientação das linhas de pesquisa.

O exercício coletivo necessário ao detalhamento temático, ao refinamento do enfoque conceitual, ao estabelecimento de idéias comuns, capaz de aproximar os três setores expositivos já mencionados, encontrou barreiras naturais, no que diz respeito aos processos de aproximação e estranhamento pertinentes à trajetória da instituição. É evidente que a exposição traduz esta problemática.

Entretanto, este discurso museográfico - datado - demonstra, para um fruidor mais perspicaz, os limites e reciprocidades, não só entre as sociedades estudadas pelo MAE, mas, sobretudo, inerentes ao momento institucional.

Desta realidade, subjacente ao processo de musealização, pode-se extrair duas reflexões. Por um lado, é possível afirmar que esta exposição não expõe as veias abertas e transbordantes a partir do momento da fusão, que não deixaram ainda aflorar a importância do surgimento de um museu novo. Por outro lado, é estimulante pensar que esta exposição de longa duração significa o primeiro capítulo concebido, registrado e vivenciado em conjunto por toda a instituição.

Retomando as palavras de Shanks e Tilley (1987), quando afirmam que “musealização é a elaboração de um sistema estético para criar significados”, penso que este processo tem sido muito mais significativo para nós mesmos - profissionais do MAE.

Segunda Parte: Os Bastidores: a saga de uma conjuntura ou a visualidade de um processo.

Os trabalhos de aproximação, reconhecimento, decodificação e explicitação desta proposta museológica, que de uma intenção foi transformada em realidade, ocuparam os profissionais do MAE ao longo dos últimos seis anos.

A princípio, a Comissão de Implantação do Novo MAE considerou - acertadamente - que uma nova exposição deveria ser organizada após a solução das questões fundamentais para uma nova instituição (organização do acervo, estruturação de linhas de pesquisa e construção de um novo espaço institucional). Em seguida, problemas relacionados à dramática mudança de sede e à necessária adaptação deste novo edifício institucional, adiaram mais uma vez a priorização deste projeto. Cabe lembrar, também, que as dificuldades internas que levavam os profissionais a distintos entendimentos do que deveria ser a nossa exposição básica, ao lado da crônica falta de disponibilidade orçamentária, também são responsáveis pelo mencionado adiamento.

Assim, de adiamento em adiamento é possível indicar a seguinte cronologia:


 
Processo de Musealização

- CRONOLOGIA -

1990: - Primeiro exercício de aproximação museográfica, propondo a unificação das duas exposições localizadas no edifício do CRUSP (ex-IPH/MAE) - não realizado - 

- Retirada da mostra “O Cotidiano na Arqueologia” para introdução de um setor sobre Etnologia Brasileira - não realizado -

1991: - Constituição da primeira comissão para “pensar” um projeto para os dois andares do CRUSP.

- Este projeto foi formalizado pela Profa. Maria Isabel Fleming - não realizado -

- Constituição da segunda comissão para “pensar” um projeto para a nova sede do MAE

- Este projeto foi concebido a partir do seguinte eixo central: utilização de diferentes matérias-primas por diversas culturas.

- Elaboração de planta-baixa e indicação da necessidade de outras exposições - não realizado -

- Elaboração do Programa Técnico-Científico de Museologia, apresentando a proposta de um Sistema de Exposições.

- troca de alguns nomes da comissão

1992 - Mudança do Serviço de Museologia (nova sede) para preparar a exposição.

- Elaboração de um novo projeto ( 1ª versão de Formas de Humanidade)

- discussões sobre a divisão espacial

- estabelecimento do circuito/retirada de alguma coleções

- definição dos principais conceitos

- reuniões sistemáticas

- Acompanhamento das adaptações arquitetônicas

- Encaminhamento do Projeto para agências financiadoras (CAPES-PADCT, CNPq, VITAE e BANESPA). Nesta versão já estavam delineados os conceitos fundamentais e o partido museográfico já estava estabelecido.

- Este projeto estava apoiado em três pilares: organização de um atelier de museografia, contratação de profissionais e preparação da exposição.

- Início do longo processo de detalhamento conceitual e museográfico. Em nenhum momento, até a abertura da exposição, este processo conseguiu ser concomitante em relação aos diferentes setores da instituição.

1993 - Aprovação do projeto pela VITAE

- Invasão do CRUSP pelos estudantes (sede do museu)

- Início da elaboração dos trabalhos museográficos (mobiliário e linguagem de apoio)

- Estabelecimento de procedimentos de trabalho adequados à realidade da instituição (coleções não catalogadas, acervo disperso, objetos necessitadando de higienização, ausência de especialistas para algumas áreas e dificuldades na coordenação das atividades museográficas)

- Interrupção dos serviços vinculados às reformas do edifício.

1994 - Mudanças na USP e no MAE. Prorrogação no cronograma de trabalho.

- Implementação das pré-montagens e os devidos desdobramentos, no que diz respeito ao estabelecimento de um processo de trabalho linear entre os diferentes setores do MAE.

- Defasagem orçamentária - Recursos da Reitoria que foram alocados institucionalmente.

1995 - A exposição foi colocada como prioridade institucional:

- principais problemas:

•  defasagem orçamentária.

• defasagem, entre as áreas expositivas, no que diz respeito ao detalhamento conceitual e os respectivos desdobramentos museográficos.

• necessidade de novos contratos para os trabalhos de programação visual.

• complicações na concepção e execução dos projetos de iluminação e aeração.

obs.: apesar da declarada prioridade, todos os setores tiveram que responder por outros trabalhos.

- A instituição decidiu, em agosto organizar um mutirão entre os seus profissionais com o objetivo de viabilizar a abertura da exposição.

- O mutirão - a montagem propriamente dita - tem início em outubro e a exposição é aberta à visitação em dezembro.

1996 - Implantação do Projeto de Avaliação

- Implantação da Ação Educativa

 

Assim, este esforço institucional e exercício coletivo, necessários ao detalhamento temático, ao refinamento do enfoque conceitual, ao estabelecimento de idéias comuns, aproximaram os três setores expositivos e propiciaram um raro momento de entrosamento, entre pesquisadores, técnicos, estagiários e contratados do MAE/USP.

Em uma perspectiva avaliatória é possível considerar que este processo de trabalho, em grande parte apoiado pela VITAE, foi responsável pelo amadurecimento da instituição, no que diz respeito às suas responsabilidades de extroversão científica. Neste sentido, é importante destacar que mesmo as inúmeras prorrogações em relação ao prazo para o término da montagem desta mostra não minimizaram algumas conquistas que dotaram a exposição de melhores condições museográficas e de conservação.

Na medida em que o trabalho, sobretudo no final do processo, não pôde usufruir das condições desejáveis, é possível constatar que ocorreram dificuldades nas delimitações das responsabilidades entre as áreas científicas (arqueologia, etnologia e museologia) e, entre estas, e os diferentes setores técnicos.

Entretanto, é impossível não reconhecer que no momento identificado por “mutirão” vivenciamos uma expressiva experiência de trabalho coletivo. E, sem dúvida, isto ocorreu em um momento chave para qualquer processo museológico: ou seja quando o discurso conceitual começa assumir a sua própria forma e se transforma em discurso expositivo.

É fundamental reconhecer que apesar dos problemas e defeitos que identificamos na exposição, não podemos negligenciar a importância deste esforço final.

Resumidamente, pode-se afirmar que a proposta museográfica é apoiada em um código de cores e numa dispersão do mobiliário que distinguem e separam (quando necessário) os três setores, organizam internamente cada setor e indicam o circuito desejável. Ainda como elementos básicos (suporte expositivo), destacam-se as vitrinas e as respectivas gavetas, pois apresentam as idéias fundamentais inseridas em cada setor.

A linguagem de apoio foi concebida para atender a três necessidades:

a) identificar/decodificar: etiquetas nominativas.

b) associar/explicar: etiquetas ilustrativas e fotográficas, textos de apresentação e painéis ilustrativos e fotográficos.

c) delimitar/desdobrar: títulos, subtítulos, mapas, cenários, folders.

A partir da proposta geral sobre a linguagem de apoio, em todos os momentos foi necessário escolher, selecionar, optar. Aliás, procedimentos comuns a qualquer trabalho museográfico. Neste caso, tentamos que estas operações fossem comuns e equilibradas entre os setores.

Cabe destacar que a linguagem de apoio, não só é utilizada como elemento estruturador do discurso expositivo, mas como um agente capaz de minimizar o impacto das diferentes “falas” ou dos dos eventuais “silêncios”. Tentou-se, também, que estes diferentes recursos não superassem o impacto da exposição do objeto. Reconhecemos que nem sempre conseguimos êxito.

Cada um dos recursos escolhidos (das etiquetas aos folders) desempenha um papel específico nesta exposição e a complexidade de sua elaboração está vinculada direta ou indiretamente, muito mais à conjuntura institucional do que à natureza do próprio recurso.

Formas de Humanidade” é o título que, após várias rodadas de escolha, quando foi possível verificar o quanto algumas pessoas da instituição estavam distantes do processo real ou mesmo outras que aproveitaram as eleições para expressar o seu rancor e desrespeito pelo museu - foi sugerido pela colega, Sonia Dorta, a partir de inúmeros estímulos de outros colegas.

É importante reconhecer que a indicação do nome foi um momento especial neste processo de musealização. Por um lado, aproximou de vez, as três partes, sob a égide de um importante conceito. Por outro lado, apontou para os reais desafios de um processo de musealização que pretende abordar as formas de humanidade que, como todos reconhecem, são infinitas, diversificadas e às vezes imponderáveis.

Com a abertura da exposição ao público, é possível considerar que o MAE superou uma fase crítica de sua atuação enquanto instituição museológica. Entretanto, deve ser reconhecido o quanto ainda estamos vulneráveis e ainda não dominamos todos os assuntos que estão apresentados e o quanto o MAE precisa equilibrar o seu quadro de pesquisadores, sobretudo com a contratação de etnólogos.

Cabe destacar que, em muitas partes a exposição precisa aprofundar a informação que está transmitindo ou aprimorar a forma como o conhecimento está sendo comunicado. Refiro-me, por exemplo às vitrinas sobre a Amazônia pré-colonial, à complexidade inerente à convivência e conflito com os indígenas contemporâneos, à identificação das incontáveis características culturais subjacentes às máscaras africanas, ou ainda um melhor equacionamento da vitrina que abre o módulo sobre Grécia e Roma e o cenário do mesmo módulo, entre outros aspectos.

É evidente que problemas pontuais têm sido identificados e, na medida do possível, superados. Entretanto, o mais importante neste caso, após o momento sublime de abertura à visitação pública, será a implantação de um projeto de avaliação.

As possibilidades de avaliar sistematicamente as formas de apropriação, os ruídos neste sistema de comunicação e as necessidades de mudança, deverão completar um ciclo importante deste processo de musealização. Ainda como parte relevante deste ciclo deve ser compreendida a ação educativa.

Esta, por sua vez, que vem sendo estruturada no âmbito da Divisão de Difusão Cultural, pretende, a princípio, mediar as formas de humanidade expostas em relação às diferentes formas de apropriação do público. Mas, esta ação educativa, tem um futuro promissor pois inúmeros temas e metodologias de trabalho podem desdobrar o discurso expositivo ou mesmo questioná-lo.

É importante lembrar que esta narrativa de longa duração, só será reconhecida como tal, na medida em que a instituição conseguir implementar um sistema de exposições temporárias que demonstre o seu fôlego, no que diz respeito à assombrosa quantidade de objetos que está depositado na Reserva Técnica, ou mesmo os inúmeros enfoques científicos que estão norteando as pesquisas institucionais.

Finalmente, mas não menos importante, deve ser salientado que os “objetos/coleções” são os atores deste espetáculo, os signos desta sintaxe, os elementos constitutivos deste discurso, mas eles têm vida própria em uma instituição museológica. Circunstancialmente estão reunidos, a partir de uma certa lógica e respondendo a certos interesses, mas, evidentemente, nada impede que sejam deslocados do cenário expositivo para a sala de aula, para alguma atividade educativa, ou outra exposição. Em cada uma destas instâncias, estes mesmos objetos, despertarão sentidos e significados diferentes.

Neste sentido, é importante frisar que “Formas de Humanidade” é uma exposição que tem autoria - registrada na ficha técnica -, é datada e tem princípios e propósitos bem definidos.

Sabemos que ela tem a potencialidade de propiciar a fruição de três elementos importantes sobre a condição humana, ou seja:

a diversidade

a temporalidade

a territorialidade

Enquanto desafio institucional, considero que é o primeiro passo que demos em conjunto. Neste sentido, enfrentamos os desafios da musealização.


 

BIBLIOGRAFIA CITADA:

POMIAN, K. - Coleção. Enciclopédia Einaudi/Memória-História 1. Imp. Nac. Casa da Moeda. Porto (1984)

- Musée Archéologique: art, nature, histoire. IN: Le Débat. Editions Gallimard. Nº 49. Paris (1988)

SHANKS, M. & TILLEY, C. - Presenting the past: towards a redemptive aesthetic for the museum. IN: Reconstructing Archaeology: theory and pratice.  Cambridge Univerty Press. Cambridge (1987)

obs.: este texto foi apresentado em conferência realizada no Museu de Arqueologia e Etnologia/USP, São Paulo, em 11.4.96.

 

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IMPRESSÕES DE VIAGEM: UM OLHAR SOBRE A MUSEOLOGIA PORTUGUESA

Cadernos de Sociomuseologia Nº9- Museologia e comunicação. Cristina Bruno. 1996. ULHT

Apresentação

Entre tantas relações que naturalmente nos vinculam a Portugal, um olhar sobre o patrimônio cultural revela um contexto com muitos aspectos onde é difícil separar o que é brasileiro ou português.

A História dos Museus no Brasil tem seu início com as coleções trazidas por D.João VI (1808), das quais muitas eram provenientes da opulência dos palácios, cuja riqueza é fruto do conhecido processo de colonização depredadora de que o Brasil foi alvo.

Da mesma forma, sabemos que muitas coleções etnográficas e de história natural foram reunidas por incentivo e apoio da Família Real e, em alguns casos, levadas a Portugal que, por sua vez, acabou entregando a outros países europeus por razões políticas.

Intrigada pelas questões que envolvem as afirmações acima apresentadas, fui a Portugal no primeiro semestre de 1993 para conhecer alguns processos museológicos, pois é o patrimônio musealizado que apresenta mais aspectos em comum com o Brasil.

Entretanto, é evidente que as mudanças ocorridas em Portugal após “25 de abril” deram um outro rumo às questões patrimoniais, propiciando a consolidação de trabalhos regionalizados e comunitários. A nova ordem política favoreceu a participação popular e as idéias da Nova Museologia encontraram amplo cenário para sua aplicação. Cabe ressaltar, também, que as próprias dimensões do país e estrutura geo-política colaboram para o desenvolvimento de projetos dessa natureza.

As impressões apresentadas a seguir, em caráter de relato, devem ser compreendidas como reflexões de uma profissional brasileria que encontrou, nesta curta experiência em terras lusitanas, muitos estímulos para repensar os seus princípios museológicos.

Portugal e os Museus: breves comentários.

"Ninguém porá em dúvida esta verdade: portugal tem a obrigação histórica e a necessidade política inadiável de organizar o museu etnográfico do seu império.

O primeiro povo que devassou os mares e colonizou com o seu sangue, com a sua alma e com a sua fé, terras de todos os continentes, ainda não tem o museu que merece o esforço dos antepassados e é devido à dedicação dos actuais continuadores da obra civilizadora dos Portugueses.

Na construção do Nacionalismo inteligente, nota espiritual em que caminhamos, impõe-se o museu do Império Português, como demonstração de quanto fomos, prova de quanto somos e alto farol do que devemos ser.

Obra grandiosa tem de avultar

Quanto fizermos, será ainda pouco e pequeno para a obra de Civilização em que nos empenhamos. Com o Museu Etnográfico prestaremos à ciência histórica e ao estudo dos povos do Império Português o serviço que nos cumpre.

Não o organizemos em qualquer terceiro andar ou em pavilhão nos cais donde partiram as naus e galeões. Ou se faz, e então faça-se digno de Portugal; ou não se faça, se tem de ser caricatura de museu. Dinheiro não faltará; o Govêrno, as províncias de Portugal inteiro, tôda a Nação chamada a contribuir. E o Museu será" (*)

 

A partir da idéia de que tradicionalmente os museus existem em função das coleções, a bibliografia especializada aponta três momentos importantes para a formação dos museus portugueses. O primeiro, das origens até à criação do Museu Portuense e à extinção das ordens religiosas; o segundo, até a instauração da República e à supressão dos bens da Igreja e da Coroa e o terceiro a partir da criação das instituições civis.

Esses museus iluministas e enciclopédicos foram os sucessores diretos das coleções dos reis, nobres e religiosos, organizadas desde o século XVI e repletas de material arqueológico, numismático, epigráfico e artístico, além dos elementos de fauna e flora trazidos dos continentes africano, asiático e americano.

Paulatinamente este país acompanha a mudança do conceito de museu-privado para museu-público e inúmeras instituições são criadas na capital e nas principais cidades, de forma organizada e apoiadas na investigação científica.

Apesar de inúmeras manifestações do Estado Monárquico a favor da preservação do patrimônio e constituição de museus, o século XIX representa um momento de expressiva saturação no que diz respeito à organização de instituições museológicas que acabaram se transformando em depósitos de objetos raros e exóticos.

É importante salientar que os diversos problemas políticos enfrentados por Portugal nesta época contribuíram, também, para a transferência de coleções de relevante importância patrimonial para outros países europeus, como também para o Brasil.

Durante o primeiro período republicano são tomadas medidas importantes na reorganização dos museus, dando algum relevo à investigação e ao caráter educacional dessas instituições, estabelecendo, também, uma divisão do território nacional em três circunscrições (sul, centro e oeste) controladas por uma sede em Lisboa que tinha a responsabilidade de guarda dos monumentos e a direção geral dos museus.

É deste período o realce dado aos museus regionais (criados oficialmente em 1836) que foram vistos como a solução ideal para a disseminação dos bens patrimoniais.

Desta forma as duas marcas principais da vigência da 1ª República - legislar e regionalizar - atingem a esfera de atuação dos museus. Foi assim que vários municípios criaram os seus museus municipais e/ou regionais, aproveitando para a sua instalação edifícios e espólios expropriados da Igreja.

Outro marco relevante é o crescente movimento associativo em torno dos museus que, em seguida, desdobra-se em associações profissionais.

O longo período do Estado Novo implantou uma dinâmica para os museus baseada numa "restauração material, restauração moral, restauração nacional" preconizada por Antonio de Oliveira Salazar e traduzida a partir do culto a edifícios simbólicos, da instituição de uma série de comemorações e da valorização do enclausuramento de obras de arte que pudessem consagrar o passado.

O universo museológico passou a ser alvo de constantes intervenções do Estado, diversos museus foram reformulados e a etnografia regional passou a ocupar espaço preponderante nos museus locais.

Outro aspecto importante da Museologia portuguesa é o que se define a partir da "Exposição do Mundo Português" (1940), através de um inevitável confronto entre um país metrópole de inúmeras colônias em diversas partes do mundo e um país que lutava para manter a sua identidade através da preservação dos usos e costumes regionais.

A partir desta data é intensa a criação de museus regionais que vão desempenhar o papel de centros preservadores da memória local. Cabe ressaltar que este período foi marcado pela idéia de criação do Museu do Homem Português que acabou se traduzindo na constituição do Museu de Etnologia e no de Artes e Tradições Populares. Duas instituições com flagrantes indefinições e marcadas por períodos de interrupções até os dias de hoje.

Os anos 60 quebraram o crescente isolamento que a política centralizadora impôs a Portugal e as novas correntes da museologia internacional começaram a influenciar os profissionais desta área. Destaca-se neste quadro o balanço realizado pelo conservador João Couto (1962) que orientou a elaboração do "Regulamento Geral dos Museus de Arte, História e Arqueologia". Neste documento, além de aparecer a relação dos museus oficiais, Couto apresenta algumas diretrizes que vão marcar a atuação dessas instituições, tais como: os museus deveriam ser organismos vivos que ao lado da conservação e exposição de objetos se assumissem como centros ativos de divulgação cultural; sugeriu que adotassem os modernos preceitos museológicos e desenvolvessem mecanismos para atrair um público maior e diversificado e sobre ele exercer uma ação pedagógica.

Ainda nesta época é criada a APOM - Associação Portuguesa de Museologia (1965) com a finalidade de agrupar conservadores, restauradores, arquitetos e outros profissionais envolvidos com a questão dos museus e promover o conhecimento da museologia e dos domínios científicos correlatos.

A Revolução de 25 de abril de 1974 teve na defesa do patrimônio cultural uma das suas principais bandeiras e o processo revolucionário deflagrado em Portugal nos anos subseqüentes é responsável por inúmeras iniciativas museológicas que, apoiadas na crescente discussão internacional sobre os caminhos da Museologia, encontraram eco nesta nova ordem política.

Os inúmeros movimentos político-associativos que também estavam voltados para a idéia preservacionista e o alargamento da noção tradicional de patrimônio cultural, englobando testemunhos da cultura até então negligenciados, sustentaram as novas formas dos museus nas diferentes  regiões portuguesas.

Os anos 70 assistiram, também, à edificação de uma das principais instituições museológicas, que embora sediada em Portugal tem pouca relação com todo o processo apresentado anteriormente. Trata-se do Museu da Fundação Calouste Gulbenkian.

O panorama museológico português, como outros setores do país, apresenta uma realidade contraditória. Por um lado, iniciativas dinâmicas que interferem no cotidiano das populações, e se alimentam das próprias reivindicações de comunidades que foram despertadas a participar de tudo que lhes diz respeito - apresentando museus cujos conteúdos estão diretamente ligados a problemas locais e são expostos através de uma moderna e questionadora museografia. Por outro lado, o peso do Estado centralizador emerge da estrutura do recém criado IPM - Instituto Português de Museus, que tenta chegar à contemporaneidade do perfil europeu de museus, através de reformas em diversas instituições que estão longe de atingir a profundidade das políticas museológicas estatais de outros países europeus como a França ou Espanha.

Neste sentido, cabe afirmar que a museologia portuguesa apresenta, hoje, um perfil multifacetado, com projetos integrados às idéias da Nova Museologia e processos museológicos acorrentados aos problemas crônicos que os museus do século XIX legaram ao futuro.


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Museologia ContemporÂnea Portuguesa:  uma realidade multifacetada.

 

Segundo palavras do museólogo do IPM Antônio Nabais (1), espera-se dos museus a capacidade de "dar solução a problemas resultantes do desenvolvimento e transfiguração da sociedade portuguesa, sociedade que vê os seus padrões culturais alterados devido a diversos fatores, tais como, o fenômeno migratório, a criação de bairros dormitórios na periferia das grandes cidades, a destruição das paisagens tradicionais - urbana e rural - a introdução de novas técnicas de produção, a substituição dos instrumentos de trabalho... Observa-se assim a fuga aos esquemas tradicionais, exemplificando uma mudança no campo da museologia portuguesa. Estas novas instituições museais não querem transformar-se em depósitos vazios de conteúdo, só para satisfazer a curiosidade de seus visitantes, como aconteceu com grande parte de suas predecessoras".

Durante o período de estágio em Portugal (primeiro trimestre de 1993) convivi com diferentes modelos de museu, ou melhor, museus em tempos diferentes. Desde a estrutura pesada e anacrônica dos grandes Museus Nacionais, vinculada ao recém criado (1991) Instituto Português de Museus que controla a política oficial de Museologia, mantendo instituições em diversas partes do país, mas com grande concentração em Lisboa, até os projetos alternativos vinculados à Nova Museologia.

A partir de sua constituição, o IPM vem realizando reformas estruturais nos principais centros museológicos e organizando grandes exposições temáticas, além da implantação de um consistente projeto de informatização das coleções museológicas. Os acervos dessas instituições estão vinculados, por um lado, ao patrimônio herdado da Igreja, do Estado Monárquico, das grandes coleções da alta burguesia e, por outro, às pesquisas realizadas em História Natural, Arqueologia e Etnologia. Acervos constituídos, também, com objetos provenientes do processo de colonização.

Instalados em palácios, igrejas, castelos e outros tipos de edifícios grandiosos, esse museus vêm sendo repensados museograficamente. Destaco, como exemplo, as novas montagens do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, do Museu Monográfico de Conímbriga e do Museu da Cidade de Lisboa. Utilizam aspectos do cotidiano para viabilizar a comunicação das

pesquisas científicas e valorizar coleções provenientes de escavações arqueológicas.

Os outros museus deste Instituto, com honrosas exceções,  apresentam um flagrante aspecto de abandono, do ponto de vista de conservação dos objetos expostos e da museografia das exposições.

Entretanto, desenvolvem projetos educativos voltados às escolas e abrem suas portas para atividades artísticas, buscando uma aproximação maior com o público.

É bastante comum a publicação de artigos e mesmo cadernos especiais sobre os museus, nos principais jornais do país, valorizando os programas oficiais do Ministério da Cultura.

Se estes museus do IPM representam a política museológica oficial, constatei que alguns museus regionais de­senvolvem trabalhos patrimoniais a partir de outros cânones e utilizam a Museologia como instrumento objetivo para a abordagem de problemas ligados ao desenvolvimento local.

Desta forma, os Museus Municipais de Setúbal vêm atuando em conjunto há mais de dez anos e tratam a cidade e sua população através de eventos museológicos, estabelecidos em um cronograma onde se cruzam propostas temáticas vinculadas aos respectivos acervos ou temas levantados junto à população, através de inquéritos que têm a Escola como ponto de partida.

A estrutura urbana e a evolução histórica da cidade também são tratadas em projetos de animação sócio-cultural para o público infanto-juvenil. Assim sendo, edifícios de diversos períodos, ruínas medievais das muralhas que cercam a cidade, o porto com todas as suas atividades, as transformações do comércio, as igrejas e as praças, têm sido alvo constante de interpretação museológica, ao lado do acervo dos três principais museus: objetos de arte sacra do Mosteiro de Jesus, objetos do universo do trabalho tradicional em Portugal (campo) e elementos ligados à indústria pesqueira.

Periodicamente, são organizados grandes eventos ligados à memória da região, através de projetos de Educação Patrimonial, quando são reconstituídos momentos importantes da história da população, como por exemplo: a tomada do Forte de São Felipe pelos Espanhóis no séc. XVII.

A partir de diferentes estímulos, observei que a "exposição" é o principal instrumento do processo de salvaguarda do patrimônio local. Os trabalhos de investigação sócio-histórica são realizados para o conhecimento mais profundo dos fenômenos com os quais a população interage e são canalizados para a concepção de mostras temporárias que, por sua vez, se transformam em polos para o desdobramento de eventos educativo-culturais.

Enquanto em Setúbal foi possível observar a abordagem patrimonial de uma cidade que desempenha um papel de destaque na história de Portugal, através da economia ligada à pesca e indústria pesqueira, em Mértola, no Alentejo, a problemática apresenta outro perfil.

O "Campo Arqueológico de Mértola" ou a "Vila-Museu", localiza-se à margem do Rio Guadiana, que em um passado remoto foi uma importante via comercial, fazendo de Mértola um destacado centro para o desenvolvimento da Península Ibérica.

Entretanto, segundo palavras do Presidente da Câmara, esta terra, "... com outras de raia interior, conta-se hoje entre as mais pobres do país, com uma população envelhecida, sem alternativas econômicas capazes de fixar os mais jovens, atraídos cada vez mais pelos grandes centros urbanos do litoral. O desenvolvimento industrial não será certamente o nosso futuro, por falta de estruturas mínimas, de vias de escoamento e de mão-de-obra especializada. Por isso, desde o início, a Câmara Municipal de Mértola optou por um significativo investimento cultural, apoiando a investigação arqueológica e histórica regionais o que, pouco a pouco, tem vindo a dar os seus frutos. Hoje, Mértola além de ser um prestigiado polo de investigação científica, transformou-se num atrativo cultural e turístico capaz de gerar riqueza e bem estar para seus habitantes” (2).

Esta opção pela Cultura como meio para o estabelecimento de estratégias para o desenvolvimento de uma população, faz deste Campo Arqueológico um projeto científico voltado à valorização de uma comunidade a partir do estudo de elementos fundamentais de sua trajetória.

Até o final do século passado Mértola ainda desempenhava um relevante papel, pois o porto fluvial mantinha um movimento significativo devido ao escoamento da produção da Mina de São Domingos, mas, sem dúvida, as pesquisas Arqueológica e Histórica têm revelado um acúmulo de experiências humanas nesta região, de inigualável importância no contexto português.

Durante cinco séculos Mértola foi um grande centro de escoamento mineiro e agrícola do Baixo Alentejo, fazendo com que mercadores do Império Romano se estabelecessem no local. O período islâmico deu continuidade ao fluxo comercial, transformando esta vila em capital do território. Depois da conquista cristã de 1238, por cavaleiros da Ordem de Santiago, as rotas comerciais se desviaram cada vez mais do Rio Guadiana para os estuários dos Rios Sado e Tejo.

Conforme afirma Dr. Claudio Torres - coordenador científico do Campo Arqueológico - "Mértola era, no 25 de Abril - já encerradas as Minas de São Domingos - um povoado adormecido, em que já morrera a última carreira fluvial, sua única e primeira razão de ser".

Esta Vila-Museu se traduz para os próprios habitantes atuais e visitantes a partir de diversas zonas de escavações associadas a núcleos museológicos (exposições), como o Núcleo Visigótico - localizado no Castelo e voltado para aspectos da arquitetura; o Núcleo Islâmico que reúne significativa coleção de arte islâmica, especialmente o conjunto cerâmico; o Núcleo de Arte Sacra com objetos litúrgicos coletados em igrejas que foram abandonadas; o Núcleo Romano - evidenciado no momento da reconstrução da Câmara e que originalmente este espaço abrigou um conjunto de casas.

Ao lado desses Núcleos Museológicos que apresentam mostras didáticas com explicações sobre os respectivos períodos de ocupação, está sendo instalado o Núcleo Paleo-Cristão ligado às ruínas de uma basílica, localizadas sob a construção de uma escola pública erguida em 1920.

O centro histórico constituído por ruelas, casas brancas e circunscrito às ruínas das muralhas, a atual Igreja Matriz instalada em uma antiga mesquita, a Casa do Ferreiro com todos os instrumentos de trabalho, o Convento de São Francisco - fronteiro à Vila que tem sido dinamizado através de exposições de artes plásticas e espetáculos de dança e música, são outros pontos referenciais desta Vila-Museu.

Embora Mértola já tenha sido alvo de pesquisas em outras épocas, foi no final da década de setenta que teve início as atividades sistemáticas do Campo Arqueológico. Este, por sua vez, priorizou a musealização imediata do conhecimento produzido a cada momento das investigações, com o principal objetivo de recuperar a identidade de uma população que foi "fossilizada" por um processo de desenvolvimento que transferiu sua atenção para outras regiões do país.

As escavações ininterruptas por todos os lados da Vila evidenciam uma estratigrafia que comprova as sucessivas ocupações desta região em função do Rio Guadiana, que há muito tempo deixou de ser um referencial para a atual população. Os conhecimentos construídos com o apoio das pesquisas em História e Arqueologia, ao mesmo tempo que estão colaborando para que os mertolenses contemporâneos se reencontrem com a Vila de Mértola, estão propiciando também um novo olhar para esse rio e todo seu entorno ecológico.

Para tanto, a equipe do Campo Arqueológico deu início a um movimento social procurando despertar a comunidade para a preservação do Rio Guadiana. Deste movimento nasceu a Associação de Defesa do Patrimônio de Mértola que apoiada em sistemática pesquisa está propondo a constituição do Ecomuseu do Rio Guadiana. Conscientes que os bosques mediterrânicos que povoaram esta região estão muito comprometidos em função das queimadas da pastorícia e da fundição do ferro, esses profissionais concordam que os poucos ecossistemas que guardam resquícios das comunidades biológicas primitivas, mostram como hoje ainda é assegurado um equilíbrio dinâmico. Entretanto, "a urgente necessidade de salvaguardar tais valores passa por esforço de conservação integrada, a partir de uma cautelosa intervenção no meio, que não destrua irremediavelmente um equilíbrio dificilmente recuperável" (3).

Se no caso dos Museus Municipais de Setúbal o poder oficial da Câmara ainda desempenha papel relevante, como o grande mantenedor das coleções patrimoniais e financiador dos projetos museológicos, em Mértola a ação preservacionista está seguindo outro curso.

A partir de projetos de pesquisa científica, financiados pelos mais diferentes órgãos externos à Mértola, é criada uma estratégia de recuperação dos espaços e "devolução à população". Neste sentido e em função da relevância dos estudos realizados pela equipe do Campo Arqueológico, são flagrantes a independência de orientação e a estabilidade dos trabalhos em relação ao poder oficial.

É possível constatar, também, que a ação do Campo Arqueológico extrapolou os limites portugueses. Durante os dias de estágio convivi com profissionais de diversos países que, ou desenvolvem estudos vinculados à própria equipe de Mértola, ou estavam visitando em função da relevância das pesquisas ali realizadas.

Outra análise comparativa entre a Museologia praticada em Setúbal e em Mértola pode ser elaborada a partir da observação da linguagem expositiva e da participação nos projetos de animação sócio-cultural. Embora ambos processos preservacionistas privilegiem a musealização, em Setúbal é evidente a museografia argumentativa de exposições e os trabalhos voltados para o público infanto-juvenil escolar. Já em Mértola, a estratégia museológica está baseada na relação direta entre pesquisa científica e desenvolvimento comunitário, passando pelo estabelecimento de núcleos museológicos que quando são constituídos (através de uma museografia tradicional) representam mais opções de trabalho e de estabilidade para a população.

Enquanto as exposições especiais organizadas em Setúbal, a partir dos inquéritos, representam possibilidades da população refletir sobre os problemas atuais ligados, ao Porto Fluvial, à saúde, aos rituais, à produção artística entre outros; em Mértola a pesquisa e a musealização sobre o passado remoto têm sido responsáveis pela "desfossilização" da comunidade e pelo estabelecimento de novas possibilidades de sobrevivência.

Ao lado dessas experiências tive a oportunidade de conhecer o processo museológico desenvolvido pelo Museu Etnológico de Monte Redondo na Leiria, iniciado na década de oitenta a partir da coleta de objetos do universo rural, junto à população de sua área de influência e da obtenção de um terreno para construção de sua sede, admitindo, desta forma, o apoio da autarquia local.

Segundo afirmações do responsável pelo desdobramento desse processo museológico, Prof. Mário Moutinho,"... nessa época passamos por um dilema real que se podia resumir da seguinte maneira: - Museu Tradicional com participação formal da população, voltado para os testemunhos do passado e Museu Incógnita voltado para os problemas do meio material e social que o rodeava. A primeira situação apresentava-nos um caminho suficientemente estudado, sem outras dificuldades de realização que não fossem a maior ou menor disponibilidade de recursos financeiros para manter o museu aberto. A segunda situação deveria avançar por terrenos mal conhecidos, afrontando a incompreensão das outras instituições museológicas, socorrendo-nos dos conceitos, então mal definidos, do que se constituía como sendo expressões de uma nova museologia" (4).

Embora ainda exista a coleção acima referida e a construção da sede tenha sido realizada para abrigar uma exposição, é evidente que o processo museológico em desenvolvimento em Monte Redondo trilhou os caminhos apontados pela segunda situação.

Nesse sentido, é um museu difícil de conhecer in loco, por isso optei por estudar os textos que faziam menção à tal proposta e discutir com os profissionais envolvidos.

Quando cheguei ao local pude perceber com maior clareza as referências que tinha ouvido em diversas ocasiões de que o Museu Etnológico de Monte Redondo era um museu intermitente.

Entretanto, constatei que embora a sede fique fechada - cuja chave é guardada por pessoas da população - este museu mantém toda a documentação sobre a doação dos objetos e história de vida dos doadores. Como também mantém uma pequena exposição com parte de seu acervo e apresentação museográfica de alguns dos inúmeros projetos de intervenção social realizados sob os auspícios do museu.

A partir desse levantamento pude constatar que a atuação desse museu é intensa, quer seja no que diz respeito a projetos junto às escolas, quer seja através do apoio a projetos científicos voltados para os problemas da região. Em geral são projetos que têm início com o apoio integral do museu e que, em seguida, assumem autonomia.

Considero que o aspecto mais contundente desse processo museológico tem sido a parceria com o Instituto de Emprego e Formação Profissional, através de diversos projetos que visam a melhoria das condições de trabalho do ponto de vista de compra de equipamentos, formação profissional e apoio ao escoamento da produção.

Projetos ligados à produção oleira, à valorização de atividades profissionais como das costureiras e cabeleireiras estiveram lado a lado com pesquisas científicas voltadas ao estudo de questões ambientais e culturais da região. Através dessa metodologia o Museu Etnológico de Monte Redondo vem construindo seu processo de intervenção social, evidenciando um questionável descarte do caráter preservacionista da Museologia.

Cabe ressaltar que entre suas principais atividades está a publicação da Revista Merídies, do periódico Cadernos de Patrimônio e outras publicações ligadas à história de Monte Redondo ou às pesquisas ali desenvolvidas.

A realidade multifacetada da museologia portuguesa apresenta ainda um outro perfil que não se confunde nem com os Museus Nacionais do IPM, nem com os projetos regionais de Setúbal, Mértola ou Monte Redondo que em graus diferentes aplicam os métodos preconizados pela Nova Museologia. Trata-se da museologia institucionalizada pelo Museu da Fundação Calouste Gulbenkian.

Amparada no conceito mais tradicional que a história dos museus legou para a museologia, esta instituição está fundamentada na coleção particular do milionário armênio Calouste Sarkis Gulbenkian que a partir de seu olhar, de seu gosto e de suas abastadas possibilidades econômicas e condições educativo-culturais, reuniu um significativo número de objetos da arte européia e oriental. Também para cumprir seu desejo expresso, esse conjunto de 6400 peças foi instalado sob o mesmo teto e, em 1969, o museu foi aberto ao público no coração da cidade de Lisboa, embora em suas coleções não exista uma única peça de Portugal.

No entanto, este museu ocupa um papel de destaque entre as instituições museológicas voltadas para as artes decorativas, prestando um inestimável serviço à sociedade portuguesa.

Considerando que a Museologia Tradicional trabalha a partir da relação entre o "Homem" (público), o "Objeto" (coleção) em um "Cenário" (edifício/instituição), pude constatar que a prática museológica desse museu está perfeitamente equilibrada a partir de um adequado edifício construído para o projeto museológico, que apresenta condições ideais tanto para conservação quanto para exposições. Da mesma forma que as coleções estão bem conservadas, armazenadas e expostas, tanto quanto bem estudadas por uma equipe de especialistas, que com raras exceções, está integrada à instituição desde o início.

Embora o acervo não tenha uma relação direta com Portugal, pude constatar através da participação em diferentes atividades do Serviço Educativo, o quanto é feito para que as Galerias de Exposições tenham relevância na formação dos estudantes.

Destaco, ainda, dois aspectos fundamentais deste museu. Por um lado, a manutenção de um arquivo com todo o acervo documentado como também toda a memória das atividades da instituição e, por outro lado, a separação física e estrutural do Museu Calouste Gulbenkian com a Fundação do mesmo nome. Esses dois aspectos reafirmam a necessidade que um equilibrado processo museológico tem de uma definição institucional precisa e da preservação de sua memória.

A partir dos estágios realizados nos locais acima mencionados e das visitas de estudos, pude observar que a museografia expositiva, aplicada em grande parte dos museus portugueses é narrativa, apoiada em cenários, fotos e textos que procuram apresentar a origem, função e tecnologia, bem como contextualizar os objetos.

Com um número significativo de museus regionais, as exposições museológicas portuguesas são temáticas e procuram valorizar a história local. Neste sentido, destaco o Museu do Vinho de Cartaxo, o Ecomuseu de Seixal, o Museu da Cidade de Lisboa. Embora com propostas bem distintas, a museografia é clara, apoiada em códigos de cores - letras e através da contextualização dos objetos é possível compreender os temas das mostras. Cabe destacar a inexistência de aparelhos eletrônicos como elemento facilitador da museografia.

Menciono, ainda, o estudo realizado sobre o impacto causado pela exposição "Dinossaúrios". Fugindo completamente aos "parâmetros portugueses", tanto do ponto de vista da forma museográfica robotizada, quanto da espetacular reação do público, considerei fundamental proceder a esta análise.

Através de diversas visitas pude fazer um estudo sobre as reações do público infanto-juvenil que se encantava duplamente com a exposição. De um lado, o deslumbramento pelo "contato" com dinossauros e, por outro lado, a estupefação pelo conhecimento dos robôs que os sustentavam. Além da mostra ter ficado aberta, em muitos dias durante a madrugada, para atender visitantes que chegavam de todo país, ela causou um grande impacto no comércio situado próximo ao Museu de História Natural, onde estava sendo apresentada.

Durante o período de funcionamento da exposição era comum referências nos jornais e nas ruas sobre o evento.

Tive acesso ao projeto da exposição (de uma empresa japonesa) e sobretudo ao plano de marketing que foi concebido para sua elaboração e divulgação. Plano este, baseado em um consórcio de empresas que financiavam sua montagem e na reversão do montante arrecadado nas entradas para as pesquisas do museu.

Embora esse evento não esteja vinculado a nenhuma das facetas da museologia contemporânea portuguesa, tenho certeza que interferiu em sua dinâmica, na medida em que transgrediu a ordem estabelecida tanto pelos profissionais da museologia tradicional quanto pelos precursores de uma nova metodologia de trabalho.

Obs.: este texto, com algumas alterações, faz parte do relatório de viagem encaminhado à VITAE e CAPES em 1993

 

 

 

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SEMINÁRIO INTERNACIONAL

HISTÓRIA REPRESENTADA : o dilema dos museus

(Rio de Janeiro – 7 a 11 de outubro de 2002)

                                                                         Profa. Dra. Maria Cristina Bruno

 TEMA: ENTRE A MUSEOLOGIA E A MUSEOGRAFIA: propostas, problemas e tensões

MESA REDONDA : EXPOSIÇÕES E NARRATIVAS NOS MUSEUS DE HISTÓRIA

 

APRESENTAÇÃO :

 Gostaria de iniciar a minha participação agradecendo e cumprimentando aos organizadores e aos resistentes profissionais do Museu Histórico Nacional, das diferentes gerações que contribuíram para a sua consolidação, pois a possibilidade de comemorar oito décadas de intensas atividades profissionais, com um seminário, nos deixa extremamente estimulados a pensar que devemos continuar insistindo nas nossas argumentações e acreditando nas mudanças.

 A minha fala é resultado de reflexões relativas a experiências profissionais no próprio Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, onde atuo há mais de duas décadas, mas, também, referentes a consultorias que tenho prestado a outros museus, coordenando ou participando de projetos de implantação ou renovação de processos museológicos, como, por exemplo: o Ecomuseu de Itaipu, o Museu Histórico de Londrina,o Museu Arqueológico de Xingo, entre outros. Da mesma forma, estas reflexões representam os meus compromissos com a formação profissional e refletem os enfrentamentos e as convivências interdisciplinares

 A proposta temática desta mesa redonda, subordinada ao tema central focalizado neste dia, no âmbito de um simpósio que está preocupado em abordar o dilema dos museus de história, nos leva a considerações preliminares organizadas em três segmentos de questões, quais sejam:

 = o dilema dos museus contemporâneos está no distanciamento que existe entre os princípios museológicos e os limites dos procedimentos museográficos ?

 = o dilema dos museus contemporâneos pode ser observado nas

tensões vivenciadas pelas equipes técnico-científicas, no desenvolvimento de suas tarefas cotidianas, no que se refere às reciprocidades entre as utopias das propostas museológicas e os limites da cadeia operatória de procedimentos museográficos ?

 = o dilema dos museus contemporâneos está no conjunto de problemas inerentes às dificuldades que suas equipes encontram para o refinamento das relações de trabalho para a necessária interlocução com outras áreas de conhecimento que envolvem a dinâmica de um museu e, também, para o refinamento das argumentações com a sociedade em suas múltiplas perspectivas?

 Dessa forma, organizei a minha contribuição, para esta mesa-redonda a partir de algumas abordagens sobre os distanciamentos, as tensões e os problemas e, ainda, com a apresentação de algumas propostas para serem discutidas.

  Entendendo, fundamentalmente, que a construção narrativa dos discursos expositivos é dependente de variáveis resultantes de mentalidades geradoras dos processos museológicos; das potencialidades de salvaguarda e comunicação dos acervos; de muitas tensões institucionais; da busca de soluções para os problemas conceituais e técnicos e das interlocuções com o público.

 TENSÕES E PROBLEMAS :  os caminhos percorridos pela disciplina aplicada Museologia

 A busca de respostas a estas três indagações, associada ao nosso reiterado compromisso em fazer dos museus instituições a serviço das necessidades e expectativas das diferentes sociedades, nos conduz aos caminhos que têm delineado os parâmetros epistemológicos da disciplina aplicada Museologia;`as rotas que têm decodificado a Museografia como o conjunto dos procedimentos técnicos relativos à Salvaguarda (conservação e documentação) e à Comunicação (exposição e ação- educativa)  e, especialmente; aos labirintos questionadores sobre a autonomia dos discursos expográficos no âmbito desta complexa rede de “fios” e “nós” - que é o processo museológico - que,muitas vezes, sutenta e ampara os museus e, em outras, amordaça e  destrói as instituições.

 Esses mesmos caminhos são permeados por tensões, algumas acumuladas ao longo do tempo pelas rotas processuais interrompidas; outras, impostas por uma demanda acima das delimitações museográficas e, ainda, aquelas que surgem pela negligência a que muitas das nossas instituições estão submetidas.

 Mas, há também, as tensões entre as gerações de profissionais, entre a atualização das distintas responsabilidades técnicas no âmbito da Museografia, entre a atuação dos museus e o equacionamento dos problemas sócio-culturais do público, entre muitas outras.

 Os museus, especialmente os de História, como sabemos, têm sido implantados nos diferentes continentes, têm desempenhado funções científicas, educativas e sociais que os unificam em patamares comuns, no que se refere ao papel que podem desempenhar em relação às formas de representação que as sociedades definem para a construção de seus contextos de memória.

 Servem para a extroversão de diferentes ideologias, para a guarda e valorização de repertórios patrimoniais dos indivíduos e das coletividades, como também, valorizam os lugares da memória, as regiões, os territórios e as nações.

Podem musealizar as nossas glórias ou os nossos remorsos, mas, sobretudo, inventam tradições e traduzem as estruturas de longa duração da nossa trajetória.

 Aos poucos e de forma tímida, especialmente no Brasil, as instituições museológicas têm despertado o interesse de distintos domínios acadêmicos, que buscam explicações para os fenômenos relativos, ao colecionismo, às formas de apropriação cultural dos bens materiais, aos caminhos da preservação dos indicadores da memória que os projetos museológicos têm seguido e, ainda, procuram entender o detalhamento técnico necessário para o cumprimento das funções institucionais, as perspectivas econômicas dos museus, e a contribuição que podem dar à educação. Apenas para mencionar alguns focos de análise que têm sido recorrente.

 Trata-se da diversidade de olhares científicos sobre os mesmos fenômenos, ou mesmo, a partilha dos sentidos e significados referentes aos impactos (positivos ou negativos) que as questões museológicas causam nos seus meios sócio-culturais. Alguns afirmam que os museus estão na moda, outros deduzem que estas instituições propiciam estudos edificantes e eticamente favoráveis ao desenvolvimento cultural e, por isso, priorizados.

 O crescimento do número dessas análises evidencia que os museus não só têm muitos usos, mas permitem múltiplas observações. Entre esses usos e as perspectivas dessas observações encontra-se a construção das narrativas expositivas, mais precisamente, encontram-se as tensões e os problemas inerentes aos equacionamentos dos enfoques temáticos, aos labirintos percorridos entre a reserva técnica do acervo e as salas de exposições e ao domínio sobre as linguagens expográficas utilizadas pelos museus, ou seja: as narrativas expositivas

 Entretanto, as tensões nos impulsionam, nos obrigam a abrir um grande espaço para o debate e não nos deixam adormecer. Esta inquietação, bastante latente na Museologia Brasileira nos leva à procura das intenções e propostas daqueles que nos precederam, com o mesmo entusiasmo com que apresentamos as nossas próprias propostas, como também, nos faz procurar, com muita coragem, as especificidades da Museologia no contexto dos dilemas dos museus. E, ainda, nos permite avaliar quais são as opções narrativas para um museu, em seu discurso expográfico, apesar das negligências, dos limites técnicos, das discriminações acadêmicas, entre muitos outros problemas que têm sido construídos ou decodificados ao longo das últimas décadas.

 A compreensão de que a discussão sobre a narrativa expositiva, notadamente nos museus de História, pode contribuir para a problematização dos dilemas museológicos, permite considerar que este vetor expográfico deve ser analisado, no âmbito da cadeia operatória de procedimentos museográficos, no contexto das reciprocidades com os princípios museológico-institucionais, nas interfaces disciplinares que contribuem para a construção do conhecimento histórico e, sobretudo, nas possibilidades de fruição do público e nas perspectivas que estes discursos abrem para o uso qualificado dos bens patrimoniais e para a convivência com as nossas circunstancias. 

 Com certeza, a discussão sobre as questões constitutivas das narrativas expositivas nos permite mapear as tensões, desvelar os problemas e enunciar propostas museológicas. Da mesma forma, os desdobramentos dessas discussões possibilitam, para alguns domínios acadêmicos, a compreensão sobre as razões do colecionismo e da constituição dos acervos, o detalhamento sobre as perspectivas interpretativas dos discursos expográficos, as especificidades dos recursos técnicos viáveis para serem aplicados nas exposições, a verificação dos limites e reciprocidades entre a produção historiográfica e a atuação dos museus, mas, especialmente, a dicotomia entre os discursos que têm sido elaborados pelas instituições e o imaginário da sociedade brasileira a respeito da sua própria história.

 Entre tantas áreas acadêmicas que se interessam pelas especificidades, tradições e rupturas do universo da musealização, encontra-se a Museologia, com problemas muito precisos a respeito dos museus e uma evidente contribuição para o aperfeiçoamento destas instituições.

 Esta disciplina aplicada vem se organizando em torno de duas categorias de problemas. A análise sobre as relações que se estabelecem entre as sociedades e seus valores patrimoniais – musealizados -  reúne um enorme contingente de aspectos desses problemas. A constituição de novos processos técnico-científico-administrativos para a transformação dos indicadores culturais em herança patrimonial, por sua vez, tem evidenciado parte significativa dos estudos museológicos.  Interessa, portanto, a esta disciplina, entender os impactos dos museus nas sociedades, mas, igualmente, em gerar novos impactos e argumentar a partir de novas abordagens patrimoniais.

 O desvelamento destes problemas que, para alguns autores, remonta aos primeiros estudos sobre a organização de coleções, tem procurado evidenciar as características dos fenômenos museológicos e suas idiossincrasias, como também, têm verificado os seus vetores preservacionistas e comunicacionais. São intensas as buscas metodológicas para o aprimoramento das funções institucionais, das perspectivas para a formação profissional e para os modelos de musealização.

 A Museologia entende que os processos museológicos devem partir de conceitos geradores e precisam estar apoiados em programas institucionais que equacionem o perfil do edifício (ou dos espaços museais), as potencialidades de salvaguarda e comunicação e as expectativas da sociedade. Compreende, também, que esses conceitos e programas devem ser sistematicamente avaliados, revitalizados ou reorganizados.

  As narrativas expositivas representam, particularmente, as expressões desses processos.

 Para tanto, com o empenho de diferentes gerações de estudiosos e com a realização de incontáveis experiências museológico-museográficas, a Museologia dispõe de um quadro referencial, que propõe uma hierarquia epistemológica e insere os discursos expográficos no âmbito dos procedimentos de comunicação, em um contexto mais amplo, conjugado com os procedimentos de salvaguarda.

 Para a Museologia, a narrativa dos museus é, por um lado, o resultado de inúmeras operações, demarcadas por mentalidades, pela capacidade financeiro-administrativa da instituição, pelo perfil do repertório patrimonial dos museus, por recursos técnicos e perspectivas experimentais e, por outro, é o início de novas construções culturais que se articulam em torno das relações do museu com os diferentes segmentos da sociedade.

  Essa sintaxe expográfica é dependente de outras ações que extrapolam as exposições, como geram questões que ultrapassam os museus.

 Trata-se de um discurso que é composto por linguagens mistas e pode ser constituído de forma metonímica ou a partir de metáforas; pode ser descritivo, monográfico, entre algumas outras possibilidades.

   É, especialmente, o “espaço/tempo” da extroversão. É a instância do museu que explicita os impactos que a instituição pode causar junto ao seu público e traduz, muito vezes de forma contundente, as possibilidades de negociação cultural entre as idéias do museu e as múltiplas fruições do visitante.

  Na contemporaneidade, os museus experimentam discursos de longa duração, desdobrados em exposições temporárias; articulam estas propostas temáticas com distintas estratégias de ação educativa; preparam as suas reservas técnicas com proposições expográficas; transformam os seus laboratórios em exposições; recebem e acolhem discursos expográficos de outras instituições e colaboram - a partir de seus acervos – com outras narrativas.

 Para aqueles que são profissionais preparados e especializados para estas tarefas há uma enorme preocupação em argumentar, em criar novas sensações e conquistar a sociedade.

  Há, portanto, uma tentativa de seduzir, de desempenhar uma função social e valorizar os respectivos repertórios patrimoniais. Espera-se, sempre, propiciar o dialogo e despertar emoções.

 Para um olhar museológico, as principais tensões residem em cinco ordens de problemas:

 1)      A compreensão de que a Museologia é uma disciplina dinâmica e que os novos ganhos acadêmicos devem ser divulgados e absorvidos por seus profissionais. Dessa forma, a atual compreensão de que a Museografia é um conjunto de procedimentos inerentes aos processos de salvaguarda e comunicação (e não apenas aqueles que correspondem à exposição), implica em entender que é necessária a sistemática interlocução entre conservação,documentação exposição e ação educativa no âmbito dos museus. A operacionalização desta cadeia de procedimentos técnicos e científicos – interdependentes – distingue e qualifica os discursos expográficos dos museus em relação a outras formas de exposições;

 2)      A vivência institucional – multiprofissional e interdisciplinar - muitas vezes, não é facilitada pela inadequação dos organogramas administrativos ou pelas impróprias adequações arquitetônicas do edifício do museu. As estruturas operacionais museológicas, em alguns casos, propiciam o distanciamento, impedem o diálogo, formam guetos e facilitam a dispersão;

 3)      Os olhares analíticos externos, quer seja no domínio acadêmico, ou no domínio das administrações superiores ou das agências de fomento, muitas vezes por desconhecerem a complexidade do universo museológico, interferem em processos, realizam análises ingênuas ou constrangem os profissionais dos museus;

 4)      A complexa opção pelos enfoques temáticos das narrativas expositivas, notadamente nos museus de História, que percorrem uma tênue linha entre o culto e o remorso, entre a manipulação política e a acadêmica, entre o público e o privado, etc;

5)      A competição com outros meios de comunicação que, em princípio, dominam mais os seus recursos técnicos e controlam com mais segurança as suas linguagens e formas de expressão e extroversão.

 CONSIDERAÇÕES FINAIS : propostas para discussão e perspectivas futuras

 Essas cinco ordens de problemas, particularizadas no universo dos museus de História brasileiros, podem evidenciar algumas outras características em suas narrativas expositivas, já abordadas por seus profissionais ou por diferentes trabalhos acadêmicos e que são os nossos verdadeiros desafios ,tais como:

 -         a imperiosa necessidade de experimentar outras narrativas e explorar os recursos comunicacionais do seu acervo a partir de novas articulações expográficas, ou seja: o refinamento das relações entre pesquisa, proposições temáticas, domínio sobre os inovações técnicas.

 -         o compromisso com a valorização de enfoques patrimoniais que têm sido pouco abordados, ou mesmo desprezados pelos nossos museus, vinculados aos nossos traumas, fracassos e dependências , isto e: :

o desvelamento de uma estratigrafia do abandono ou das trincheiras de preconceitos construídas ao longo do tempo.

-         a proposição de discursos argumentativos que procurem minimizar os impactos da verdade e valorizar o confronto de hipóteses, ou mesmo a discussão sobre os contextos de memória nacional, regionais e locais, ou seja : os litígios entre as diferentes possibilidades de ocupação e transformação dos territórios e as delimitações patrimoniais.

-         a aproximação entre os profissionais ligados à produção historiográfica e à museológica em projetos comuns e comprometidos com a atualização das narrativas expositivas, isto e : o exercício interdisciplinar e interinstitucional.

 É possível considerar que a busca de solução para esses problemas passa, necessariamente, pela requalificação profissional de alguns dos nossos Museus de História no que se refere aos seus espaços , organogramas e planos de carreiras-salários, como também, pela proposição e multiplicação de cursos de formação profissional a partir dos novos parâmetros acadêmicos.

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